“Isso parece uma joia do Antonio Bernardo”: o reconhecimento de uma assinatura autoral

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16/10/2026

“Isso parece uma joia do Antonio Bernardo”: o reconhecimento de uma assinatura autoral

Em entrevista à The President, o designer brasileiro conta como criou sua identidade na joalheria

Por Redação

A primeira joia criada por Antonio Bernardo foi um anel de prata formado por duas partes idênticas. A peça poderia ser usada de diferentes maneiras: uma parte em cada dedo, as duas no mesmo dedo, em justaposição ou em contraposição. A ideia era criar um objeto lúdico, com a participação de quem fosse usá-lo.

Bernardo fez um esboço e pediu a um ourives conhecido que executasse o projeto. Quinze dias depois, recebeu a peça pronta. Deu o nome de Primeiro Anel. “Foi um dia muito especial porque foi a primeira vez que vi um objeto concreto que havia partido de uma ideia minha.”

A concretização daquela ideia teve um significado particular para o designer. Durante sua formação, sentia falta de transformar o que desenhava em objetos. A vontade de construir coisas, porém, vinha da infância. Por volta dos 12 anos, Bernardo e o amigo Fernando fizeram uma ponte de palitos de fósforo depois de assistir ao filme “A Ponte do Rio Kwai” (The Bridge on the River Kwai), filme dirigido pelo cineasta britânico David Lean, lançado em 1957. A ideia era construir uma estrutura por onde pudesse passar seu trenzinho. Os dois também faziam carrinhos de rolimã com assento estofado e freio. “Mal sabia eu que este anel iria mudar a minha vida, que eu precisava de concretude como resultado das minhas ações.”

A influência do pai e a experiência na Suíça

O interesse por mecanismos e pelo funcionamento das coisas também influenciou a escolha inicial de Bernardo pela Engenharia. Passou no vestibular da PUC, mas, antes de começar a faculdade, recebeu do pai a oportunidade de passar um ano na Suíça. A intenção era que estudasse no Instituto CFH (Centro da Federação Relojoeira Suíça) e fizesse estágios em empresas fabricantes de peças para relógios.

A experiência permitiu conhecer máquinas de alta complexidade, mas também aprender sobre processos e técnicas. “A Suíça foi importante porque abriu meus olhos para outra maneira de ver o mundo e de fazer as coisas.”

De volta ao Brasil, começou a cursar Engenharia, mas se decepcionou com a experiência. Esperava participar do desenvolvimento de projetos, o que não acontecia da maneira que imaginava. Depois de dois anos, passou a frequentar mais a loja do pai e criou o Primeiro Anel. “A Engenharia me interessava pela lógica, pela construção e pela maneira como as coisas funcionam, mas, em algum momento, percebi que o que realmente me movia era a criação.”

A influência familiar também teve papel importante na maneira como Bernardo passou a compreender o trabalho. Seu pai tinha uma loja de ferramentas para ourives e relojoeiros, ambiente que frequentava desde pequeno. “Meu pai foi um exemplo para mim. Com ele, eu aprendi a importância do trabalho cotidiano e do compromisso com os outros. Esse compromisso podia ser apenas uma palavra ou um aperto de mão.”

A convivência com o comércio também lhe mostrou que o trabalho não se limitava à criação das peças. Como ele explica, a inspiração precisa ser acompanhada de presença e responsabilidade.

Antonio Bernardo, designer brasileiro de joias autorais, conhecido por suas criações em ouro e prata.
Antonio Bernardo, designer brasileiro de joias autorais, conhecido por suas criações em ouro e prata. Foto: Pedro Loreto

A construção de uma identidade na joalheria

Bernardo afirma que não começou com a intenção de fazer algo diferente da joalheria tradicional. A linguagem de suas peças surgiu a partir da experimentação com os materiais e as técnicas que conhecia. Como não estudou para ser ourives, começou a criar com os recursos disponíveis, desenvolvendo formas simples que despertavam seu interesse. Com o tempo, as pessoas passaram a reconhecer características próprias em suas criações. “As pessoas reconheciam uma peça e diziam: ‘Isso parece uma joia do Antonio Bernardo.’”

Para o designer, esse reconhecimento foi importante para compreender que seu trabalho poderia se transformar em uma marca. “Uma marca não nasce apenas quando você escolhe um nome ou cria um logotipo. Ela começa quando existe uma maneira própria de olhar, de pensar e de fazer.”

Na época em que começou a criar, muitas peças estavam ligadas a ocasiões especiais e à ideia de status. Seus trabalhos, por outro lado, passaram a ser associados a joias que poderiam ser usadas todos os dias, próximas ao corpo, à personalidade e à maneira de cada pessoa viver.

Ele também buscava criar sem depender necessariamente de pedras preciosas ou de referências tradicionais de luxo. “A preciosidade não precisava estar apenas no material. Podia estar também na ideia”, afirma. “Talvez criar seja justamente prestar atenção ao mundo e não deixar passar aquilo que, por alguma razão, nos toca.”

Os desafios de empreender

A construção da marca aconteceu gradualmente. No começo, Bernardo queria criar e desenvolver seu trabalho. Com o tempo, percebeu que suas peças apresentavam uma linguagem reconhecível e que o trabalho poderia se tornar algo maior do que uma coleção de joias. O início do negócio exigiu que assumisse diferentes funções, da criação ao atendimento e à resolução de problemas cotidianos. “Foi difícil, mas também muito estimulante. No começo, você faz tudo ou quase tudo. Cria, produz, atende, resolve problemas, pensa no amanhã e, muitas vezes, não sabe exatamente como vai chegar até lá.”

Ao longo dos anos, o designer enfrentou crises, mudanças econômicas, decisões erradas, pessoas que foram embora e projetos que não deram certo. Também precisou lidar com a responsabilidade de tomar decisões que afetam a vida de outras pessoas. “Talvez o mais difícil seja continuar tendo energia e vontade de criar quando você está ocupado demais resolvendo problemas.”

Para Bernardo, conciliar as atividades de criação com as responsabilidades empresariais é um desafio constante. “Porque, no fundo, existe sempre uma tensão entre o criador e o empresário. Ao longo da vida, fui aprendendo que precisava encontrar espaço para os dois.”

O que diria ao Antonio Bernardo do início da carreira?

Ao pensar no início da carreira, Bernardo diz que aconselharia a si mesmo a continuar curioso, ter menos medo de errar e confiar mais na intuição e nos próprios impulsos. “Muita coisa importante só acontece com o tempo.”

Por fim, reflete sobre a construção gradual de uma empresa: “Talvez eu dissesse a ele apenas para continuar, prestar atenção e trabalhar. Mas não esquecer de olhar o caminho enquanto está caminhando.”

https://www.antoniobernardo.com.br