A inteligência artificial não vai corrigir uma liderança ruim

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04/11/2026

A inteligência artificial não vai corrigir uma liderança ruim

Por Lucas Rezende*, executivo de tecnologia e autor de Liderança Imperfeita

A inteligência artificial se tornou prioridade nas reuniões de diretoria. Empresas discutem automação, produtividade, redução de custos e novas ferramentas capazes de transformar suas operações. Mas existe uma pergunta que ainda recebe pouca atenção: estamos preparados para administrar a eficiência que a tecnologia promete entregar?

Tenho observado que muitas organizações procuram na inteligência artificial a solução para problemas que não são tecnológicos. Processos mal definidos, equipes sem autonomia, indicadores inconsistentes e decisões constantemente adiadas continuam presentes, mesmo quando a empresa dispõe das ferramentas mais avançadas do mercado.

A tecnologia pode acelerar a execução de uma tarefa, mas não consegue determinar, sozinha, se aquela tarefa deveria existir. Pode produzir relatórios em segundos, mas não substitui a capacidade de interpretar os números e assumir as consequências de uma decisão. E, quando aplicada sobre processos desorganizados, corre o risco de apenas tornar a desorganização mais rápida.

Esse é um dos grandes desafios da liderança contemporânea. Durante muito tempo, associamos a figura do executivo à capacidade de apresentar respostas, demonstrar segurança e manter tudo sob controle. A transformação tecnológica, entretanto, torna cada vez mais evidente que liderar não significa saber tudo, mas construir uma organização capaz de aprender, decidir e se adaptar.

Na minha trajetória empreendedora, aprendi que o crescimento de uma empresa expõe problemas que antes pareciam pequenos. Um processo informal funciona enquanto poucas pessoas estão envolvidas. Uma decisão centralizada pode até parecer eficiente quando o fundador conhece todos os clientes. Mas, à medida que a operação cresce, o improviso deixa de ser uma vantagem e passa a comprometer a execução.

Com a inteligência artificial, esse limite se torna ainda mais evidente.

Imagine uma empresa que utiliza ferramentas inteligentes para identificar oportunidades comerciais, mas não possui critérios claros para avaliar a rentabilidade dos contratos. Ela poderá conquistar clientes mais rapidamente e, ao mesmo tempo, ampliar os próprios prejuízos. Ou uma organização que automatiza a produção de indicadores sem estabelecer quem é responsável por analisá-los. Terá mais informações disponíveis, mas não necessariamente melhores decisões.

O problema não está na tecnologia. Está na ausência de fundamentos de gestão.

Por isso, acredito que a principal competência de um líder na era da inteligência artificial será o discernimento. Saber distinguir o que precisa ser automatizado daquilo que precisa ser redesenhado. Reconhecer quando uma decisão exige dados adicionais e quando o excesso de análises se tornou uma forma de adiar responsabilidades. Entender, sobretudo, que eficiência operacional não é sinônimo de qualidade de gestão.

Essa reflexão também exige rever nossa relação com o erro. Em ambientes corporativos que valorizam excessivamente a imagem do líder infalível, admitir uma decisão equivocada pode ser interpretado como fraqueza. Na prática, o custo de sustentar uma escolha ruim costuma ser muito maior do que o de corrigi-la a tempo.

Foi essa contradição que procurei explorar em Liderança Imperfeita. A história de um executivo que assume uma empresa em dificuldades não gira em torno de encontrar respostas brilhantes para todos os problemas, mas de aprender a enfrentar conflitos, compreender os números, delegar responsabilidades e reconhecer as próprias limitações.

A experiência de liderar é menos organizada do que os modelos de gestão costumam sugerir. Existem interesses conflitantes, informações incompletas, pressões financeiras e decisões que precisam ser tomadas antes que todas as variáveis estejam esclarecidas. Nenhuma ferramenta elimina completamente essa realidade.

Isso não diminui o potencial da inteligência artificial. Pelo contrário. Quanto mais avançadas forem as tecnologias disponíveis, maior será a responsabilidade de quem define seus objetivos, estabelece limites e avalia seus resultados.

A pergunta que deveria orientar os conselhos e as diretorias, portanto, não é apenas quanto a empresa pretende investir em IA no próximo ano. É quais problemas de gestão precisam ser resolvidos para que esse investimento produza valor.

Talvez a maior transformação exigida dos executivos não seja tecnológica, mas comportamental. Menos preocupação em parecer indispensável, mais disposição para desenvolver equipes autônomas. Menos apego às próprias decisões, mais abertura para revisar estratégias. Menos fascínio pela velocidade, mais clareza sobre a direção.

A inteligência artificial certamente mudará a maneira como trabalhamos. Mas continuará cabendo aos líderes decidir que tipo de empresa estão construindo. E essa responsabilidade não pode ser automatizada.

*Lucas Rezende é executivo de tecnologia, empreendedor e autor de Liderança Imperfeita – A história de um CEO improvável, publicado pela editora Novo Arco. É cofundador da Guiando, empresa de tecnologia adquirida pela Selbetti em 2026, e possui experiência em gestão, inovação e crescimento de negócios.