Livro sobre Stálin chega ao Brasil por Stephen Kotkin

Destaque

01/09/2026

Livro sobre Stálin chega ao Brasil por Stephen Kotkin

Segundo volume da trilogia de Stephen Kotkin chega ao Brasil para revelar o poder sem limites de Stálin na União Soviética

Por Mario Ciccone

Quase ninguém teve um poder comparável ao que Josef Stálin exerceu na União Soviética. Mas a pergunta que atravessa a nova biografia de Stephen Kotkin interessa a todos nós: o que um líder faz quando deixa de encontrar resistência? A resposta, reconstituída a partir de arquivos russos e americanos abertos nas últimas décadas, é o assunto de À Espera de Hitler, segundo volume da trilogia que a Objetiva, selo de não ficção do Grupo Companhia das Letras, lançouno Brasil.

Kotkin não escreve sobre um tirano excêntrico. Apresenta um administrador metódico, que estudava dossiês até tarde da noite, testava a lealdade de subordinados antes de promovê-los e usava informação como principal instrumento de controle.
A obra chega ao Brasil em edição de capa dura, com 1.464 páginas — mais de 500 delas de notas e referências documentais. Cada afirmação sobre as decisões de Stálin remete a um documento de arquivo, muitas vezes inédito, localizado por Kotkin ao longo de mais de uma década de pesquisa.

Um desses documentos, reproduzido abaixo, dá a medida do método stalinista. Em agosto de 1932, Martemyan Ryutin, dirigente expulso do Partido Comunista, redigiu um manifesto clandestino sobre o processo que via se consolidar diante dele:

“Recorrendo ao embuste, à mentira e à astúcia contra os membros do partido, com a ajuda de inimagináveis atos de violência e terror, sob o pretexto de defender a pureza dos princípios bolcheviques e a unidade do partido… Stálin logrou, ao longo dos últimos cinco anos, isolar e alijar das posições de liderança todos os melhores e mais genuínos quadros bolcheviques do partido, consolidando uma ditadura pessoal tanto no partido como no país.”

Riútin foi preso pouco depois e executado anos mais tarde. O documento sobreviveu porque passou pelas mãos da polícia política soviética antes de chegar aos arquivos — o que leva o próprio Kotkin a registrar, em nota, a dúvida sobre se o texto que restou é fiel ao original ou foi alterado no caminho.

Do poder disputado ao poder absoluto

No primeiro volume da trilogia, Paradoxos do Poder, Kotkin acompanhou a formação política de Stálin, dos anos revolucionários até a consolidação inicial de sua liderança. Em À Espera de Hitler, essa disputa já está encerrada: o poder deixou de ser negociado e passou a ser exercido sem contrapesos. O volume cobre os anos em que Stálin eliminou rivais, remodelou a economia soviética à força por meio da coletivização e da industrialização acelerada, e transformou o país em potência militar — ao custo de fome generalizada, expurgos em massa e milhões de mortes.

A dimensão econômica ocupa boa parte da narrativa. Kotkin detalha como os planos quinquenais transformaram a União Soviética de país agrário em potência industrial em pouco mais de uma década — um processo conduzido por metas centralizadas, ausência de mecanismos de mercado e disposição para absorver perdas humanas em nome de resultados agregados. É a face econômica de um regime que tratava pessoas como variáveis de um plano maior, e que o livro documenta sem atenuar nem exagerar o resultado.

Parte substancial do livro é dedicada à relação entre Stálin e Hitler: dois líderes que calcularam riscos, adiaram o confronto direto e, por fim, entraram em uma guerra que redefiniria as fronteiras políticas do século 20. Kotkin não trata esse desfecho como um prelúdio inevitável, mas como uma sequência de decisões tomadas em meio a informações incompletas e interesses conflitantes.

Professor em Princeton e uma das maiores autoridades em história soviética, Kotkin já publicou Magnetic Mountain: Stalinism as a Civilization e Armageddon Averted: The Soviet Collapse, 1970-2000. Pela Objetiva, assina também Sociedade Incivil: 1989 e a Derrocada do Comunismo, com Jan T. Gross, além do primeiro volume desta biografia, Stálin: Paradoxos do Poder, 1878-1928.

Ao resenhar o livro no The Sunday Times, em outubro de 2017, o crítico Dominic Sandbrook classificou a obra como uma das maiores realizações históricas da geração — “o Guerra e Paz da história: um livro que você teme nunca terminar, mas que simplesmente não consegue largar”. A frase, hoje usada na divulgação da trilogia, resume bem sua proposta: não é uma leitura rápida, mas uma obra que recompensa o seu leitor.

Stálin explica Putin?

A ascensão de Vladimir Putin tem levado historiadores e analistas de política internacional a recorrer ao stalinismo para explicar o funcionamento atual do Kremlin. Kotkin, que também leciona em Stanford, é um dos que resistem à comparação direta: Stálin promoveu a morte de dezenas de milhões de pessoas em nome da engenharia social comunista, uma escala de violência sem paralelo na Rússia contemporânea.

O que se repete, segundo o historiador, é um dilema estrutural: projetar a Rússia como superpotência global sem dispor de uma economia forte o bastante para sustentar essa ambição. Essa assimetria, argumenta Kotkin em análises para a revista Foreign Affairs, alimenta a narrativa do “cercamento ocidental” — a crença de que o Ocidente conspira ativamente para enfraquecer o Estado russo. A diferença está no motor ideológico: Stálin usava o marxismo-leninismo e a luta de classes para justificar coletivização e expurgos; Putin se apoia em um nacionalismo conservador e na restauração da influência imperial do país.

O analista de geopolítica Robert D. Kaplan vai além: em ensaios para o Geopolitical Futures, argumenta que Putin acumulou mais poder pessoal em Moscou do que qualquer líder soviético desde a morte de Stálin, em 1953. Diferentemente de Nikita Khrushchov e Leonid Brejnev, que atuavam sob as restrições do Comitê Central do partido, Putin desmantelou as amarras institucionais pós-soviéticas e a influência dos oligarcas dos anos 1990, concentrando o processo decisório em um grupo restrito de assessores oriundos dos serviços de inteligência — os chamados siloviki.

A polêmica sobre genocídio

Entre as teses mais debatidas do livro está a leitura de Kotkin sobre a coletivização forçada e a fome de 1931-1933, que incluiu o Holodomor na Ucrânia. Para o historiador, a fome em massa não resultou de um plano premeditado de extermínio étnico, mas da combinação entre fanatismo ideológico — voltado à erradicação da propriedade privada no campo — e extrema incompetência administrativa.

O regime apostava que a agricultura coletivizada seria mecanizada e mais eficiente; quando o sistema colapsou diante da resistência camponesa, a liderança reagiu confiscando grãos com brutalidade crescente. A motivação central, segundo Kotkin, era sustentar o projeto socialista e financiar a industrialização, não eliminar deliberadamente um grupo étnico específico.

É uma leitura que outros historiadores contestam. Timothy Snyder, professor em Yale, e Anne Applebaum, autora de Fome Vermelha: A Guerra de Stálin contra a Ucrânia, argumentam, em artigos para The Atlantic e The New York Times, que a repressão stalinista dos anos 1930 e a atual investida militar russa na Ucrânia compartilham um mesmo objetivo político: subjugar a identidade nacional ucraniana e subordiná-la ao controle central de Moscou. O debate, longe de encerrado, é parte do que mantém a obra de Kotkin no centro da discussão sobre o século 20 soviético — e sobre a Rússia que sucedeu a União Soviética.

No fim das contas, o livro oferece um palco para várias discussões do passado e até do geopolítica atual. Tudo a partir de uma das figuras mais terríveis que marcaram seu nome na História. Trata-se de um alerta, com quase 1.500 páginas, diante de tentativas de redimir a imagem do líder soviético e outros tantos camaradas. A última parte da trilogia ainda não tem uma data definida de lançamento, mas promete tratar dos últimos tempos de Stálin, a Guerra Fria e até do posterior colapso soviético. É até bom que demore um pouco. Até porque precisamos de mais tempo para saborear esta edição.

Stálin — Volume 2: À Espera de Hitler, 1929-1941
Stephen Kotkin
1.464 páginas, Editora Objetiva
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