Essa foto aconteceu assim, por Kity Ramos

Arte

24/09/2026

Essa foto aconteceu assim, por Kity Ramos

Um encontro com uma jovem dançarina durante uma viagem pela Tailândia

Por Kity Ramos*

Em fevereiro de 2025, eu estava visitando um templo nos arredores de Ayutthaya, na região central da Tailândia, a cerca de 80 quilômetros de Bangkok, quando encontrei essa jovem dançarina. Não havia espetáculo acontecendo. Ela estava apenas ensaiando, concentrada na repetição dos movimentos.

Foi justamente esse instante anterior à cena que me interessou.

Ayutthaya foi, durante séculos, um dos grandes centros políticos e culturais do antigo Reino do Sião, e foi nesse período que muitas das formas da dança clássica tailandesa se desenvolveram.

Fiquei algum tempo observando seu ensaio. Ela ficou curiosa com a minha presença e nos comunicamos através de uma troca de olhares e singelos sorrisos. Chamou-me a atenção a sua simpatia, a delicadeza de seus movimentos e, em especial, de suas mãos em contraste com a concentração do seu rosto. Entre as colunas escuras do templo, a luz entrava lateralmente e iluminava apenas parte de seu corpo.

Esperei até que ela erguesse uma das mãos e seu rosto surgisse naquele pequeno intervalo de luz para fazer essa fotografia. Fiquei especialmente tocada por esse gesto de uma dança tradicional que se mantém na Tailândia por muitas gerações, chamada Khon.

OLHARES SOBRE O MUNDO

*Kity Ramos é fotógrafa documental e desenvolve projetos de longa duração dedicados a sociedades tradicionais. Nos últimos cinco anos, percorreu países da África, da Ásia e da América Latina, registrando povos originários que preservam crenças animistas, rituais ancestrais, formas tradicionais de organização social e mitologias transmitidas de geração em geração.

Seu trabalho parte da convicção de que essas comunidades mantêm modos de compreender o mundo que resistem às pressões da violência, das mudanças climáticas e da expansão da cultura global.

Em vez de retratá-las como remanescentes de um passado distante, suas fotografias procuram revelar a atualidade dessas tradições e a vitalidade de seus modos de vida. Kity busca aproximar o público de conhecimentos que, em grande parte do Ocidente, foram sendo esquecidos com a urbanização e a modernidade. Reunidas, suas fotografias compõem um amplo painel sobre a diversidade cultural da humanidade e convidam o observador a refletir sobre herança, memória e pertencimento.

Entre seus projetos autorais destacam-se Pescadores de Myanmar, vencedor da categoria Ensaio no Paraty em Foco 2025, e As Grandes Guardiãs, terceiro colocado na mesma categoria do festival, com parte do ensaio publicada pela revista Unquiet — edição de novembro de 2024.