Pacato explora a criatividade da gastronomia mineira em Belo Horizonte
Destaque
06/11/2026
Restaurante comandado por Caio Soter aposta em ingredientes locais, preparações autorais e uma experiência à mesa sem pressa
Por Julia Paiva
Uma primeira viagem a Belo Horizonte pede, naturalmente, uma boa experiência de gastronomia mineira, afinal, poucos lugares têm uma relação tão forte com a comida como parte de sua identidade cultural. Dos queijos artesanais às receitas de cozimento lento, passando pelas carnes, pelo milho e pelos doces que atravessam gerações, a cozinha de Minas tem sabores bastante característicos e uma tradição que merece ser explorada. Para quem já é fã dessa culinária, conhecer o Pacato é uma parada quase que obrigatória. A surpresa ficou por conta de encontrar uma interpretação que vai além dos pratos conhecidos, com combinações criativas e uma leitura contemporânea dos ingredientes regionais.
O trabalho de Caio Soter está justamente em explorar o potencial dos ingredientes mineiros para além de suas aplicações mais conhecidas. Na cozinha, produtos regionais ganham novas combinações, texturas e técnicas, em um exercício de criação que mantém a relação com a origem dos sabores, mas amplia suas possibilidades à mesa.
Essa identidade aparece em diferentes momentos do cardápio. Um dos grandes destaques é o cupim ao molho de doce de leite, servido com purê de milho e farofinha. A combinação chama atenção pela criatividade ao reunir ingredientes tão presentes na cozinha brasileira em uma apresentação diferente do habitual. O doce de leite ganha protagonismo no molho e cria um contraste agridoce interessante, mas nada enjoativo, com a carne. Enquanto isso, o milho e a farofa completam o prato, tornando-o uma daquelas preparações que mostram como ingredientes familiares podem ganhar outras interpretações sem perder sua conexão com a cultura local.

A proposta também se estende a outras criações, como o surubim na brasa com creme de couve-flor fermentada, avelã, manteiga noisette e gaspacho de jabuticaba, além da codorna assada com farofa de caju, glace de frango com quiabo e releitura da salada Waldorf. São combinações que transitam entre referências brasileiras e técnicas de diferentes origens, reforçando uma cozinha que não pretende ficar presa a uma única definição de gastronomia mineira.
Mas a experiência no Pacato não se baseia apenas no menu. O restaurante tem um ambiente aconchegante, com uma atmosfera descolada e sofisticada, que torna a refeição ainda mais agradável. A playlist também faz parte da experiência e ajuda a criar aquele ambiente perfeito em que as conversas se prolongam naturalmente e o tempo passa devagar.
Em outubro, o Pacato completou cinco anos de funcionamento na cidade. Para marcar a data, o chef Caio Soter e o chef executivo Daniel Duarte receberam outros oito cozinheiros convidados em uma programação especial, que incluiu uma edição comemorativa do festival Sem Reserva e um jantar a 20 mãos. Ao longo desse período, o restaurante consolidou uma identidade própria a partir da pesquisa sobre os ingredientes e as referências gastronômicas de Minas, mantendo a proposta de olhar para a tradição sem deixar de experimentar.

Um percurso pelos sabores mineiros com o menu “Mundo Gerais”

Entre as novidades do restaurante está o Mundo Gerais, cardápio que reúne diferentes possibilidades de experiência, do serviço à la carte aos pratos para compartilhar e ao menu degustação. Durante a visita, a possibilidade de pedir o percurso de degustação também no almoço era uma das novidades da casa e acabou sendo a escolha para conhecer melhor a cozinha do Pacato.
A experiência reúne diferentes preparações que traduzem a proposta do restaurante. O percurso começa com o pão de milho com alho negro e a empadinha de carne seca com abóbora e requeijão moreno. Na sequência, a galinhada com pequi e ovo de codorna retoma uma combinação bastante presente na memória gastronômica brasileira, mas com uma apresentação alinhada à linguagem da casa. Para o prato principal, há opções de escolha, enquanto a sobremesa encerra a refeição com preparações como a bananada com caramelo queimado e azeite da Mantiqueira e o queijo do Miguel.
Para acompanhar as etapas, a escolha foi apostar em uma harmonização diferente, com os coquetéis autorais do restaurante. Elaborados também a partir de ingredientes locais, eles ampliam a presença dos sabores regionais na experiência e mostram que essa pesquisa não se restringe à cozinha. A coquetelaria acompanha a proposta gastronômica, criando combinações que conversam com os pratos e acrescentam novas possibilidades à refeição.
O Pacato é uma boa descoberta para quem chega a Belo Horizonte interessado em conhecer a gastronomia mineira para além de suas receitas mais tradicionais.