Inteligência artificial: quando o controle sai do controle
Artigos
19/10/2026
A inteligência artificial se torna contraproducente se usada para a vigilância dos funcionários
Por Fabiano Zavanella*
A inteligência artificial deixou de ser promessa para virar rotina na gestão.
Algoritmos ajudam a recrutar, distribuir tarefas, medir produtividade, organizar jornadas e antecipar comportamentos. O ganho de eficiência é real, e seria tolice ignorá-lo.
Embalada nessa onda, no entanto, mora uma tentação silenciosa: monitorar tudo o que se pode medir. Quanto mais dados temos sobre quem trabalha conosco, mais fácil é acreditar que vigilância e produtividade são a mesma coisa. Não são. Produtividade nasce de confiança e engajamento — não de câmeras, cliques e relatórios de tempo on-line.
Durante décadas, liderar foi conversar, combinar metas e cobrar resultados. Hoje a tecnologia informa quando alguém entrou no sistema, quanto tempo ficou conectado, quantas mensagens trocou, que páginas abriu. Para um CEO, a pergunta já não é se essa tecnologia existe. Ela existe e vai avançar. A pergunta é outra, e é desconfortável: até onde vamos?
O risco aparece quando o algoritmo deixa de apoiar e passa a substituir o discernimento de quem lidera. A máquina enxerga padrões com maestria, mas não entende contexto, não sente a criatividade, não mede a colaboração nem as circunstâncias pessoais de cada trabalhador. É justamente o intangível que move uma equipe.
Há um efeito perverso pouco comentado. Sob vigilância constante, as pessoas param de produzir e passam a parecer produtivas. Instala-se o teatro da eficiência: mais reuniões, mais mensagens, mais presença de tela — e menos resultado real. O controle que prometia performance entrega ansiedade, e a ansiedade tem nome técnico e custo concreto: risco psicossocial.
É aqui que a liderança moderna se decide. Monitoramento não é assunto só de TI ou do RH. Ele mexe com a reputação da empresa, molda a cultura, envolve proteção de dados, gera passivo trabalhista e revela que tipo de liderança a companhia escolhe encarnar.
Governança tecnológica é ter coragem de definir critérios: quais dados são realmente necessários, por que os coletamos, por quanto tempo e quem os acessa. É reconhecer que nem tudo que é tecnicamente possível é organizacionalmente desejável. O poder de dirigir a empresa nunca foi um cheque em branco para vigiar sem limite.
A empresa do amanhã será mais digital, mais automatizada, mais orientada por dados. Mas a maturidade de um líder se mostra ao entender que poder vigiar tudo não significa que valha a pena fazê-lo. Na era da IA, a confiança seguirá sendo a tecnologia mais valiosa — e a mais difícil de substituir.
Nas próximas colunas, quero descer ao concreto: como transformar essa confiança em governança que protege a empresa. Começaremos pelos dados — o que a LGPD realmente exige de quem lidera — e seguiremos pela saúde mental e pela nova NR-1, o ponto em que produtividade e cuidado deixam de ser opostos.