O que destrói uma sociedade empresarial quase nunca aparece nos balanços

Artigos

06/07/2026

O que destrói uma sociedade empresarial quase nunca aparece nos balanços

Viver mais exige que executivos planejem o futuro antes que a carreira deixe de ser o centro da própria identidade

Por Rogerio Bragherolli

A expectativa de vida aumentou. Vivemos mais, com mais autonomia e mais disposição do que as gerações anteriores. A ciência avançou, o saneamento melhorou, os hábitos mudaram. Essa é a boa notícia. O problema é que viver mais exige planejamento estrutural, financeiro e emocional muito mais robusto do que o que a maioria dos executivos construiu ao longo da carreira.

E aqui começa o paradoxo silencioso do topo da pirâmide corporativa.

Enquanto o mercado de trabalho apresenta índices de emprego razoáveis nas camadas operacionais, os cargos executivos estão em colapso numérico. Os dados do CAGED mostram que mais de 322 mil vagas de gerência e diretoria foram extintas nos últimos seis anos. A tecnologia, a busca por produtividade e o achatamento das hierarquias eliminaram posições que antes representavam décadas de carreira. O excesso de oferta de profissionais qualificados comprime salários e reduz o tempo médio nas funções. E o sistema previdenciário, que já enfrenta problemas crônicos de sustentabilidade, não consegue acompanhar esse ritmo.

O resultado dessa combinação é brutal para quem não se preparou.

Vi de perto o que acontece quando um executivo é surpreendido por um desligamento inesperado ou chega à aposentadoria sem ter construído uma vida além do cargo. Os impactos econômicos são visíveis. Os psicológicos e sociais, muitas vezes, são ainda mais profundos e duradouros. Alguns anos atrás, conduzi uma consultoria em uma multinacional com foco em planejamento de carreira e vida para seus executivos. O que encontrei foi revelador: a maioria postergava qualquer conversa sobre o futuro como mecanismo de defesa. Havia um medo real de perder o emprego, mas esse medo era convertido em paralisia, não em ação.

Isso não é fraqueza. É um padrão. Quanto mais alto o cargo, mais a identidade foi construída sobre ele. O título, o bônus, o reconhecimento e o acesso que a posição confere tornam-se pilares da autoestima e da narrativa pessoal. Retirar qualquer um desses elementos provoca uma crise de identidade.

Planejar o depois não é pessimismo. É a decisão mais madura que um executivo pode tomar enquanto ainda está no comando. E ela começa por perguntas que a maioria evita com maestria: quem sou eu fora do cargo? Estou cuidando da minha saúde física e mental? Como estou me preparando financeiramente para o futuro? Tenho competências que vão além da função que ocupo hoje? Existe um propósito que me sustenta independente da empresa onde trabalho?

Essas perguntas não têm resposta fácil nem fórmula pronta. Mas são o ponto de partida para quem decide agir antes que a realidade tome a frente. Tenho acompanhado executivos que enfrentaram essa virada e saíram dela reconstruídos, com uma clareza sobre si mesmos que nunca tiveram no auge da carreira. Outros que encontraram novos caminhos profissionais, novas fontes de renda e, principalmente, uma relação mais saudável com quem são. Esse processo, seja por mentoria, por análise ou pela combinação das duas abordagens, exige tempo, honestidade e disposição para olhar para dentro sem o escudo do cargo.

A responsabilidade por esse movimento é individual. O mercado não vai esperar, as empresas não vão avisar com antecedência e o sistema previdenciário não vai ser alterado no curto prazo. O que está dentro do próprio raio de ação precisa ser reconhecido e trabalhado agora. Quanto mais cedo esse movimento começa, menor a angústia quando o momento inevitável chegar.

Como dizia o filósofo Zygmunt Bauman: “Nada tem forma fixa, nenhuma certeza é durável. Tudo muda antes de conseguirmos segurar.” No mundo corporativo, quem entende isso cedo o suficiente não apenas sobrevive à mudança. Aprende a construir sobre ela.