Madeira é o futuro? Com Elaine Guedes, executiva da Montana Química
Entrevista
19/08/2026
Executiva da Montana Química, Elaine Guedes destaca o material com papel inovador e sustentável na construção civil.
Por Mario Ciccone
A construção em madeira é uma das principais apostas da engenharia e da arquitetura voltadas à sustentabilidade. Com o avanço de sistemas industrializados, novas tecnologias de preservação e a busca por soluções de menor impacto ambiental, o material amplia sua presença em projetos corporativos, comerciais e residenciais, enquanto o Brasil desponta como um mercado com potencial para liderar esse movimento. Nesta entrevista, temas como descarbonização, inovação, durabilidade, industrialização da construção e os desafios para ampliar o uso da madeira ganham destaque.
À frente da diretoria comercial da Montana Química, Elaine Guedes acompanha essa transformação de perto. Com mais de três décadas de experiência na indústria de materiais para construção, participou da evolução de tecnologias voltadas à proteção e ao desempenho da madeira. Por conta disso, ela defende que o futuro do setor depende da combinação entre conhecimento técnico, inovação e sustentabilidade. A executiva analisa as mudanças na percepção do mercado, o papel da preservação da madeira, projetos que já estão dando o que falar e perspectivas para a construção civil de baixo carbono.
THE PRESIDENT – A construção em madeira vem ganhando espaço em projetos de grande porte no Brasil. Quais fatores estão impulsionando esse movimento e como a Montana acompanha essa transformação do mercado?
Elaine Guedes – A construção em madeira vive um momento de aceleração importante no Brasil. Mas é importante entender que essa aceleração não começou agora. O que está se tornando visível para o mercado foi construído ao longo de muitos anos por profissionais, empresas, universidades e entidades que acreditaram no potencial da madeira quando ela ainda enfrentava muitas dúvidas e resistências.
Ao longo de mais de 30 anos atuando na indústria de revestimentos e materiais para construção, acompanhei transformações semelhantes em diferentes segmentos. O mercado de tintas e revestimentos, por exemplo, passou por mudanças profundas impulsionadas por sustentabilidade, desempenho e evolução tecnológica. Vimos a substituição gradual de sistemas base solvente por tecnologias base água, a redução do uso de metais pesados e o avanço de soluções de menor impacto ambiental.
Quando observo a evolução da construção em madeira, vejo um movimento muito semelhante. As grandes transformações normalmente começam nos bastidores, enfrentam questionamentos, passam por uma fase de validação técnica e só depois alcançam escala comercial.
O que aprendemos nesses processos é que “as grandes transformações não acontecem apenas porque existe uma tecnologia melhor. Elas acontecem quando essa tecnologia passa a gerar valor para toda a cadeia.”
A construção em madeira está seguindo esse mesmo caminho. O apelo sustentável é importante, mas o crescimento desse mercado será sustentado pela sua capacidade de entregar desempenho, produtividade, durabilidade e previsibilidade.
Na Montana, enxergamos essa transformação como estrutural. Há mais de sete décadas atuamos no desenvolvimento do mercado de madeira no Brasil, contribuindo para a evolução de tecnologias de preservação e proteção, para a disseminação de conhecimento técnico e para o fortalecimento das boas práticas de especificação e uso da madeira. Ao longo dessa trajetória, participamos ativamente da construção da credibilidade do setor, apoiando profissionais, especificadores, entidades e iniciativas que ajudam a ampliar a confiança na madeira como uma solução segura, durável e sustentável. Acreditamos que o futuro desse mercado depende não apenas de usar mais madeira, mas de usar melhor a madeira, com inteligência, responsabilidade e visão de longo prazo.
TP_Empreendimentos corporativos, comerciais e de lazer mostram a madeira sendo utilizada em aplicações cada vez mais complexas. O que mudou em termos de tecnologia, desempenho e percepção do mercado?
A principal mudança foi a evolução da madeira de um material tradicional para uma solução altamente tecnológica, industrializada e compatível com os desafios contemporâneos da construção civil.
Essa transformação é resultado da combinação entre avanços tecnológicos, profissionalização da cadeia, evolução das normas técnicas e uma crescente conscientização da sociedade sobre a necessidade de soluções construtivas mais sustentáveis.
Do ponto de vista técnico, sistemas industrializados como Madeira Laminada Colada (MLC), CLT (Cross Laminated Timber), LVL e Wood Frame ampliaram significativamente as possibilidades de aplicação da madeira em edificações de diferentes portes e complexidades. Esses sistemas oferecem elevado desempenho estrutural, precisão dimensional, rapidez construtiva e maior previsibilidade dos projetos, permitindo que a madeira seja utilizada com segurança em obras residenciais, comerciais e institucionais.
Empreendimentos como o Arvoredo (empreendimento da Noah localizado na Vila Madalena, em São Paulo) demonstram de forma concreta essa evolução. A construção de edifícios de múltiplos pavimentos em madeira simboliza a capacidade da engenharia contemporânea de combinar inovação, desempenho e sustentabilidade, ampliando os limites de aplicação de um material renovável e de baixa pegada de carbono.
Outro avanço decisivo ocorreu nos processos de preservação e proteção da madeira. A combinação de tratamentos preservativos industriais, executados sob rigoroso controle de qualidade, com tecnologias modernas de acabamentos e revestimentos proporciona maior durabilidade, resistência ao intemperismo, proteção contra organismos xilófagos e melhor estabilidade estética ao longo do tempo. Isso aumentou significativamente a confiança de arquitetos, engenheiros, construtores e investidores no desempenho da madeira em aplicações de longo prazo.
A evolução das normas técnicas também teve papel fundamental nesse processo. A consolidação de critérios de projeto, desempenho, preservação e segurança contribuiu para elevar o nível de profissionalismo do setor, reduzir o espaço para o improviso e fortalecer a credibilidade da construção em madeira no Brasil.
Nesse contexto, a Montana tem orgulho de fazer parte dessa trajetória. Há décadas atuamos não apenas no desenvolvimento de soluções para preservação, proteção e acabamento da madeira, mas também na disseminação de conhecimento técnico, na qualificação de profissionais e na construção de boas práticas que ajudaram a elevar os padrões de desempenho e confiabilidade do setor. Acreditamos que a evolução da madeira como sistema construtivo passa necessariamente pela combinação entre tecnologia, durabilidade e uso responsável dos recursos florestais.
Mas talvez a transformação mais relevante tenha ocorrido na percepção do mercado. A madeira deixou de disputar espaço apenas pela estética. Hoje ela é reconhecida pela capacidade de responder a desafios contemporâneos como descarbonização, industrialização da construção, eficiência produtiva, conforto e qualidade de vida.
Além disso, aprendemos que “a inovação não está apenas na criação de novos produtos. Ela está na forma de pensar, projetar, construir e experienciar os espaços.” A construção em madeira representa justamente essa mudança de mentalidade: uma nova forma de construir, mais alinhada às demandas ambientais, econômicas e sociais do nosso tempo.
Essa combinação entre inovação tecnológica, evolução dos processos, normatização, profissionalização da cadeia e maior consciência ambiental vem impulsionando o crescimento da construção em madeira no Brasil e no mundo, posicionando-a como uma das principais alternativas para uma construção mais sustentável, industrializada e preparada para os desafios das próximas décadas.
TP_A durabilidade ainda é uma das principais preocupações de arquitetos, construtoras e investidores. Quais são hoje os principais desafios para garantir a longevidade das estruturas de madeira e qual é o papel dos tratamentos preservativos nesse processo?
A durabilidade é um dos pilares que sustentam o crescimento da construção em madeira. Para que esse mercado ganhe escala com segurança, é fundamental tratar a longevidade das estruturas de forma sistêmica, desde o projeto até a manutenção.
O primeiro ponto é o desenvolvimento de um projeto adequado, que considere as características da madeira, os detalhes construtivos, a drenagem, a ventilação, o afastamento do solo e a proteção contra umidade. O conceito de “durabilidade pelo projeto” é essencial para garantir o desempenho da edificação ao longo do tempo.
A correta especificação da madeira também é decisiva. Cada aplicação exige propriedades específicas de resistência mecânica, estabilidade dimensional, durabilidade natural e disponibilidade sustentável. Quando a espécie é bem escolhida e corretamente aplicada, é possível otimizar desempenho, custo e impacto ambiental.
Em um país tropical como o Brasil, com altas temperaturas, umidade elevada e intensa atividade biológica, os tratamentos preservativos exercem papel fundamental. Eles protegem a madeira contra fungos, cupins e outros organismos xilófagos, ampliando significativamente sua vida útil e reduzindo riscos ao longo do tempo. A preservação industrial, realizada conforme normas técnicas e com controle adequado de processo, contribui diretamente para a segurança e a confiabilidade das construções.
Além da preservação, os sistemas de proteção e acabamento também são essenciais. Eles ajudam a proteger a madeira contra intempéries, radiação UV, umidade e degradação superficial, preservando sua estética e ampliando os intervalos de manutenção.
Na Montana, costumamos dizer que “a sustentabilidade da madeira começa pela sua durabilidade.” Uma estrutura que permanece em serviço por décadas é aquela que entrega o verdadeiro valor ambiental, econômico e técnico desse recurso.
Preservação não é uma etapa complementar. É parte da inteligência do projeto. Quando corretamente especificada, tratada, protegida e mantida, a madeira se consolida como um dos materiais mais sustentáveis da construção civil, capaz de armazenar carbono, reduzir impactos ambientais e contribuir para sistemas construtivos mais industrializados, eficientes e alinhados à economia de baixo carbono.
TP_A busca por construções mais sustentáveis tem levado empresas a substituir materiais tradicionais por alternativas de menor impacto ambiental. Como a madeira tratada contribui para as metas de descarbonização da construção civil?
A construção civil ocupa uma posição central na agenda climática global, e isso faz com que a escolha dos materiais passe a ser uma decisão cada vez mais estratégica.
Quando falamos sobre construções em madeira, é importante compreender que a sustentabilidade desse sistema começa muito antes da obra. Ela se inicia nas florestas plantadas, manejadas de forma responsável para a produção de uma matéria-prima renovável, capaz de combinar benefícios ambientais, sociais e econômicos.
A madeira possui uma característica única: além de ser renovável, funciona como um reservatório de carbono ao longo de sua vida útil. Afirmo sempre que “uma construção em madeira funciona como um verdadeiro cofre de armazenamento de carbono.” Durante o crescimento das árvores, o dióxido de carbono é capturado da atmosfera por meio da fotossíntese e transformado em biomassa. Quando essa madeira é utilizada em uma edificação, parte desse carbono permanece armazenada durante décadas.
As florestas plantadas que abastecem a cadeia da madeira engenheirada continuam exercendo um papel ambiental importante, absorvendo carbono e liberando oxigênio para a atmosfera durante seu ciclo de crescimento. Além disso, contribuem para reduzir a pressão sobre florestas nativas e fortalecer uma cadeia produtiva baseada em recursos renováveis.
Projetos como a unidade sustentável do McDonald’s Paraíso, em São Paulo, ajudam a ampliar a visibilidade dessa discussão e demonstram como a escolha dos materiais passa a integrar estratégias mais amplas de sustentabilidade e redução de impacto ambiental.
Outro aspecto relevante é que a produção da madeira demanda significativamente menos energia quando comparada a materiais tradicionais como aço, concreto e alumínio, resultando em menores emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo de vida da construção.
Mas existe um ponto fundamental: “sustentabilidade só gera valor quando pode ser medida.” E, no caso da madeira, isso está diretamente relacionado à durabilidade. Quanto mais tempo uma estrutura permanece em serviço, maior é sua contribuição para o armazenamento de carbono, para a redução do consumo de recursos e para a captura efetiva dos benefícios ambientais associados ao material.
Por isso, a madeira tratada desempenha um papel estratégico na agenda de descarbonização. Preservar bem significa ampliar a vida útil das estruturas, evitar substituições prematuras e garantir que o carbono capturado pelas florestas permaneça armazenado pelo maior tempo possível.
A construção em madeira representa, portanto, a integração entre floresta, indústria, tecnologia e sustentabilidade. Mais do que um material, ela oferece uma oportunidade de desenvolvimento alinhada aos desafios climáticos do nosso tempo, capaz de gerar valor econômico, fortalecer cadeias produtivas renováveis e contribuir para uma economia de baixo carbono.
TP_Projetos desenvolvidos em madeira mostram uma crescente industrialização da construção. Como essa tendência influencia a demanda por soluções de proteção e acabamento?
A industrialização está redefinindo a construção civil, trazendo ganhos significativos de produtividade, qualidade, previsibilidade e sustentabilidade. Nesse cenário, sistemas construtivos como Wood Frame, CLT e madeira engenheirada ganham cada vez mais espaço, elevando também o nível de exigência em relação ao desempenho dos materiais utilizados.
Quando a madeira passa a integrar processos industrializados, cada componente precisa apresentar características previsíveis, qualidade padronizada e elevada vida útil. Por isso, preservação, proteção e acabamento deixam de ser apenas etapas complementares e passam a integrar a própria concepção do projeto, contribuindo diretamente para a longevidade, a segurança e a confiabilidade da construção.
Essa evolução reflete um movimento maior de profissionalização do setor. À medida que a construção em madeira ganha escala, aumenta também a importância da padronização, da rastreabilidade, do controle de qualidade e da previsibilidade de desempenho ao longo do ciclo de vida das edificações.
Nesse contexto, a preservação industrial da madeira assume um papel estratégico. Em um país com as características climáticas do Brasil, onde fungos, cupins e outros agentes biológicos encontram condições favoráveis para se desenvolver, o tratamento preservativo é essencial para proteger o investimento realizado, reduzir custos de manutenção e assegurar o desempenho das estruturas ao longo de décadas.
Os sistemas de acabamento acompanham essa evolução. O mercado demanda soluções capazes de combinar proteção, estética, facilidade de manutenção e desempenho consistente, contribuindo para preservar tanto a aparência quanto a integridade da madeira ao longo do tempo.
À medida que a construção industrializada avança, cresce também a compreensão de que a durabilidade não é um diferencial, mas um requisito. E a preservação da madeira é um dos pilares que sustentam essa evolução.
No futuro, a competitividade da construção em madeira estará cada vez mais associada à sua capacidade de combinar industrialização, longevidade e sustentabilidade, consolidando-se como uma solução alinhada às exigências da construção civil moderna.
TP_O Brasil possui uma das maiores bases florestais plantadas do mundo. O país reúne condições para se tornar uma referência global em construção em madeira? O que ainda precisa avançar?
O Brasil tem todas as condições para se tornar uma referência global em construção em madeira.
Poucos países reúnem simultaneamente uma ampla base florestal plantada, elevada produtividade florestal, conhecimento silvicultural avançado e uma indústria capaz de agregar valor a essa matéria-prima. Temos uma vantagem competitiva importante: nossas florestas de pinus e eucalipto apresentam ciclos de crescimento mais curtos e elevada produtividade, criando condições muito favoráveis para o desenvolvimento de uma cadeia construtiva baseada em recursos renováveis.
Além disso, o país já começa a demonstrar sua capacidade de avançar para aplicações cada vez mais sofisticadas. Empreendimentos como o Arvoredo1 mostram que a madeira engenheirada está conquistando espaço em projetos de maior complexidade, ampliando sua visibilidade e reforçando sua credibilidade como sistema construtivo de alto desempenho.
Talvez o aspecto mais positivo seja perceber que o debate já mudou de natureza. Há alguns anos discutíamos se a madeira poderia ou não atender aplicações mais complexas. Hoje discutimos como ampliar sua adoção. Isso demonstra o amadurecimento do mercado e o avanço da confiança dos especificadores, investidores e construtores.
Na minha visão, “a construção em madeira já venceu a etapa da validação técnica.” O setor passou anos construindo conhecimento, formando profissionais, desenvolvendo normas e demonstrando desempenho em aplicações reais. O que estamos vivendo agora é uma fase de aceleração.
Mas liderança exige mais do que disponibilidade de matéria-prima. Precisamos ampliar a formação de arquitetos, engenheiros e especificadores, fortalecer a cultura da construção em madeira desde a universidade, continuar evoluindo na normalização técnica e acelerar a industrialização da cadeia produtiva.
Também será fundamental ampliar o acesso. A madeira não pode estar presente apenas em projetos emblemáticos ou de alto padrão. O próximo passo será expandir sua utilização para empreendimentos de maior volume, habitação de padrão médio, equipamentos urbanos, obras públicas e programas voltados à construção de baixo carbono.
Outro ponto importante é ampliar a integração entre setor florestal, indústria, academia, mercado imobiliário e políticas públicas. Os países que hoje lideram a construção em madeira avançaram porque conseguiram construir ecossistemas colaborativos, capazes de transformar potencial técnico em escala de mercado.
Nesse contexto, a Montana acredita que tem um papel importante a desempenhar. Há décadas contribuímos para o desenvolvimento do mercado de madeira no Brasil, participando da evolução das tecnologias de preservação, da disseminação de conhecimento técnico e da construção de boas práticas que ajudam a elevar a confiança e a durabilidade das aplicações em madeira.
Por isso, acredito que o grande desafio do Brasil não é provar que possui recursos ou tecnologia. O desafio é transformar sua extraordinária vocação florestal em uma cadeia construtiva moderna, industrializada e amplamente acessível.
“O desafio deixou de ser provar que a madeira funciona. O desafio passa a ser ampliar escala, acesso e competitividade.”
TP_Além das grandes estruturas, quais são as principais tendências para o uso da madeira em ambientes residenciais, comerciais e de hospitalidade nos próximos anos?
Acredito que veremos um crescimento consistente do uso da madeira em diferentes segmentos, impulsionado por três grandes tendências: a busca por construções de baixo carbono, a industrialização dos sistemas construtivos e a valorização de ambientes mais humanos, acolhedores e conectados à natureza.
No segmento residencial, a madeira tende a ganhar espaço tanto em sistemas construtivos industrializados, como Wood Frame, CLT, MLC e outras soluções em madeira engenheirada, quanto em aplicações aparentes, acabamentos naturais e conceitos arquitetônicos mais orgânicos, que reforçam conforto, autenticidade e bem-estar.
Nos empreendimentos comerciais, corporativos e de hospitalidade, a madeira deixa de ser apenas um elemento decorativo e passa a integrar a própria experiência dos espaços. Hotéis, restaurantes, parques, lojas conceito, clubes e espaços de lazer buscam cada vez mais criar ambientes memoráveis, capazes de gerar identidade, permanência e conexão emocional com as pessoas.
Projetos como a Dengo Chocolates, na Faria Lima, e o restaurante Torra, no Cacau Park, em Itu-SP, demonstram como a madeira pode ser protagonista na construção de experiências, contribuindo para a narrativa arquitetônica, para a identidade da marca e para a relação entre as pessoas e os ambientes.
Também observamos uma crescente adoção da madeira em áreas de convivência, parques, mobiliário urbano, equipamentos públicos e projetos voltados à qualidade de vida. Essa tendência está diretamente associada aos conceitos de biofilia e bem-estar, que valorizam a presença de elementos naturais no ambiente construído.
Nesse aspecto, a madeira ocupa uma posição única: combina desempenho técnico, renovabilidade, armazenamento de carbono e uma experiência sensorial que poucos materiais conseguem entregar com a mesma naturalidade.
Quanto mais as pessoas convivem com aplicações bem executadas da madeira — seja em uma residência, um escritório, um hotel, um restaurante ou um espaço público — maior se torna a familiaridade, a confiança e a valorização desse material. Por isso, acredito que a madeira deixará de ser vista apenas como alternativa e passará a ser reconhecida como uma das principais soluções para a arquitetura e a construção do futuro.
TP_Quais percepções equivocadas sobre a madeira ainda precisam ser superadas?
Ainda existem algumas percepções que limitam a expansão da construção em madeira. Muitas delas foram construídas em um contexto muito diferente do atual e não refletem a realidade tecnológica, normativa e industrial da construção em madeira contemporânea.
É comum ouvirmos afirmações como “madeira estraga”, “madeira pega fogo”, “madeira é cara” ou a associação automática entre o uso da madeira e o desmatamento. Curiosamente, os principais questionamentos sobre a madeira já possuem respostas técnicas consolidadas pela engenharia, pelas normas e pela própria evolução da indústria.
Talvez a preocupação mais frequente esteja relacionada à durabilidade. De fato, a madeira exige cuidados específicos, especialmente em um país tropical como o Brasil. Mas hoje contamos com conceitos consolidados de durabilidade pelo projeto, correta especificação das espécies, preservação industrial e sistemas de proteção que permitem que estruturas em madeira alcancem vidas úteis de várias décadas com elevado nível de segurança e desempenho.
O mesmo acontece em relação ao fogo. Muitas pessoas ainda associam a madeira a uma condição de maior vulnerabilidade. No entanto, a engenharia moderna demonstra que seu comportamento em situações de incêndio é amplamente estudado, previsível e normatizado. Projetos adequados, dimensionamento estrutural específico e tecnologias complementares permitem que estruturas em madeira atendam rigorosos requisitos de segurança.
Também existe a percepção de que a madeira é necessariamente mais cara. Mas mercados maduros aprendem a avaliar valor e não apenas custo inicial. Quando analisamos produtividade, velocidade de execução, redução de resíduos, manutenção, desempenho e custo ao longo do ciclo de vida da edificação, a discussão se torna muito mais ampla.
Vejo algo semelhante ao que aconteceu em outras transformações industriais. Em um primeiro momento, a discussão costuma ficar concentrada no investimento inicial. Com o amadurecimento do mercado, a análise passa a considerar eficiência, durabilidade, sustentabilidade e geração de valor ao longo do tempo.
Outro equívoco recorrente é acreditar que a madeira limita a criatividade arquitetônica ou se aplica apenas a construções de pequeno porte. A evolução da madeira engenheirada permite vencer grandes vãos, construir edifícios de múltiplos pavimentos e desenvolver projetos arquitetônicos extremamente sofisticados. Hoje, alguns dos empreendimentos mais inovadores do mundo utilizam a madeira como elemento estrutural principal.
Mas talvez o maior equívoco seja associar o uso da madeira ao desmatamento. A construção em madeira moderna está baseada em florestas plantadas, manejo responsável, certificação e rastreabilidade. E novamente, “uma construção em madeira funciona como um verdadeiro cofre de armazenamento de carbono”, contribuindo para manter esse carbono estocado durante décadas. Além disso, as florestas plantadas que abastecem essa cadeia continuam capturando carbono e gerando matéria-prima renovável de forma contínua.
No fundo, o desafio não é provar que a madeira possui limitações. Todo material construtivo possui desafios específicos. O que mudou foi a capacidade da engenharia, da indústria e das normas técnicas de oferecer soluções eficazes para cada um deles.
Por isso, acredito que a principal ferramenta para superar preconceitos continua sendo a informação. Mercados amadurecem quando decisões passam a ser tomadas com base em evidências, resultados e conhecimento técnico, e não em percepções construídas no passado.