Educação para os pets

Pet World

08/07/2026

Educação para os pets

Adestrar um cão é a melhor maneira de torná-lo apto a conviver numa boa com os humanos

Por Cris Berger

Com a mudança no formato das famílias contemporâneas, falar de adestramento canino é atual e necessário. Segundo o IBGE de 2015, há mais animais de estimação nos lares brasileiros do que crianças. São os “novos filhos”. Neste contexto, o papel dos adestradores cresce de importância — e também em faturamento. Segundo o Getninjas (o maior aplicativo de contratação de serviços da América Latina), na primeira quinzena de julho de 2025, houve um aumento de 28% na procura por adestradores. 

Pois é, os tempos mudaram.

Um estudo publicado em junho de 2022, na tradicional revista britânica Nature, fundada em 1869, afirma que os cães vêm dos lobos eurasianos. A domesticação deles aconteceu ao se aproximarem de povos nômades atraídos por restos de comida.

Pulamos do final da última Era do Gelo para algumas décadas atrás, quando os cães ainda dormiam nos quintais das casas. Pausa. Hoje o sofá das casas é deles. Agora eles usam roupas de grife e têm nome e sobrenome. Pois é, os tempos mudaram. Vamos além: os pets também fazem parte do café da manhã de domingo na padaria gourmet da Vila Nova Conceição e no almoço do restaurante conceituado dos Jardins, em São Paulo. E, claro, viajam para a praia.

O Itapemar, em Ilhabela, considerado um dos melhores hotéis da ilha paulista, aceita pets desde 2020. Com o passar do tempo, serviços extras como o lounge pet na piscina do rooftop e a piscina pet foram acrescentados. “Hoje temos 20 apartamentos pet friendly”, relata Simone de Alice, proprietária do Itapemar, que cobrava diárias a partir de R$ 1.200 em fevereiro e taxa pet no valor de R$ 250 por estadia. “O público pet representa 15% do nosso faturamento e faz diferença nos meses de baixa temporada. São hóspedes recorrentes.” 

A golden retriever Benta tem presença confirmada nas viagens da fisioterapeuta Grasiani Breggue Pires. Até nas internacionais. Em 2024, Grasiani foi de carro de São Paulo até Bariloche, na Argentina. “Resolvi contratar um adestrador porque queria ter o benefício de ir para qualquer lugar com a certeza de que a pet saberia se comportar”, relata. Para isso, investiu R$ 15 mil em aulas. 

Educação para os pets por Cris Berger

São Paulo e Rio lideram

Acompanhando o movimento internacional, o movimento pet friendly atingiu o Brasil inteiro com força. De qualquer maneira, capitais de São Paulo e Rio de Janeiro mostram-se mais preparadas para receber este novo público de quatro patas. No Rio, a lei que proibia cães na praia foi reformulada. Hoje eles pisam suas patinhas nas areias cariocas de cabeça erguida e rabos abanando. 

O novo adestramento

No passado, os cães eram adestrados para executarem atividades de combate, patrulha e caça. No final da Segunda Guerra Mundial, apareceram como suporte emocional dos soldados. Hoje frequentam o mesmo restaurante que você. 

O adestrador não existe apenas para resolver problemas comportamentais como xixis fora do lugar, pulos nas visitas, latidos que atrapalham os vizinhos ou móveis roídos. Eles são contratados para que os cães atinjam um nível de educação que os permita conviver em sociedade com os humanos. É verdade que nem todos os tutores de pets entendem essa importância — e é neste momento que os problemas surgem. 

Suíça, modelo a ser seguido

A Suíça é um ótimo país para nos espelharmos. Embora o treinamento obrigatório nacional para tutores de cães tenha sido suspenso em 2016, alguns cantões mantiveram ou recriaram exigências próprias após o aumento de problemas comportamentais. Em Zurique, por exemplo, tutores devem realizar cursos teóricos e práticos. Outros cantões também adotam algum tipo de formação obrigatória. Além disso, microchipagem e registro são obrigatórios. Os tutores ainda precisam pagar um imposto anual sobre o animal. A legislação suíça de bem-estar animal também é rígida: deixar um cão sozinho por tempo excessivo pode ser considerado negligência ou maus-tratos. 

O adestramento pela ciência

A ciência do comportamento estuda como os cães agem, aprendem e se comunicam por meio das ações, avaliação do ambiente e genética do cão. Baseado nesses dados, o adestramento cria mecanismos para modificar comportamentos indesejados. 

Dentro do universo do adestramento há diferentes filosofias sobre como aplicar os manejos e quais ferramentas devem ser utilizadas. Há profissionais que baseiam seus ensinamentos apenas em gratificar os comportamentos esperados e outros mesclam recompensas por ações acertadas com alguns desconfortos. Obviamente, que o uso de um ou de outro, depende do caso de cada cão e do problema a ser enfrentado.

Problemas da atualidade

Uma das confusões é que as pessoas estão usando a psique humana para entender seus cães e esquecendo que eles, apesar de serem de fato parte da família, são da espécie canídeos e reagem como animais. “O cachorro não foi vingativo porque ele fez xixi no lugar errado. Isso é uma interpretação humana”, explica o médico-veterinário Daniel Svevo. “Quando um cachorro está inseguro e faz xixi dentro de casa pode ser uma forma de criar um ambiente mais seguro e cheiroso para ele.”

O adestrador Paulo Serrati discorre sobre outro ponto muito falado dentro do universo pet: a humanização. “Existem cães vivendo em ambientes esteticamente perfeitos, mas emocionalmente pobres. Há cachorros obesos, cronicamente ansiosos e superprotegidos. Não há rotina e autonomia. A necessidade de espécie não está sendo atendida.”

Cães educados

A grande vantagem de construir e manter um cão educado é que ele ganhará o prêmio máximo, que é estar ao lado da sua família humana por mais tempo. O cão que não tem educação vai latir em excesso, fazer xixi fora do lugar e até morder o pé do garçom. Isso fará com que no próximo passeio não seja incluído.  A culpa se torna dele quando, na verdade, é do tutor que não ensinou o certo e não impôs limites. 

“A bagunça foi normatizada. Quando alguém vê um cão educado, estranha”, comenta Serrati que alerta que agitação não quer dizer felicidade e pontua: “Em um mundo que trata o cão como filho, a gente deveria tratar o médico-veterinário como pediatra e o adestrador como professor e psicólogo”. 

Svevo, por sua vez, compara o cachorro a um bebê e alerta: “O bebê tem livre demanda. Quando chora, é atendido. As pessoas tratam os cães como bebês e esquecem que eles precisam aprender a se frustrar”.