Mercado bilionário

Pet World

08/07/2026

Mercado bilionário

Com a humanização dos pets, conquistam espaço no segmento os planos de saúde,  a indústria farmacêutica e até transportes aéreos 

Por Cris Berger

Para entender o mercado pet é preciso esquecer a ideia de que cães e gatos são apenas animais de estimação. Eles ocupam o lugar de filhos, netos e irmãos dentro das famílias e é justamente essa humanização que mantém aquecido um setor que segue crescendo mesmo diante de inflação persistente, juros altos e desaceleração econômica. A explicação passa menos pela economia e mais pelo afeto. Farmacêuticas como a MSD, planos de saúde como a Petlove e agências especializadas em transporte aéreo de pets como a Sonho e Magia Viagens continuam vendo a demanda avançar em um país onde o tutor corta gastos pessoais, mas hesita antes de economizar com o próprio animal. 

Plano de saúde

Com a humanização dos pets, conquistam espaço no segmento os planos de saúde,  a indústria farmacêutica e até transportes aéreos 

Na Suécia, para ter um pet é obrigatória a contratação de um plano de saúde. O resultado é impressionante: 90% dos tutores têm cobertura veterinária privada. No Brasil, esse número ainda gira em torno de 2%.

A diferença ajuda a explicar o tamanho do potencial brasileiro. Enquanto o país escandinavo tem 10 milhões de habitantes, um milhão de cães e 1,4 milhão de gatos, o Brasil abriga cerca de 100 milhões de pets entre cães e gatos em uma população de 220 milhões de pessoas.

Outro ponto curioso é o tempo de maturidade do setor. Na Suécia, os planos existem desde 1924. No Brasil, começaram a ganhar força apenas a partir de 2008.

Os Estados Unidos também são novos no segmento. A adesão dos norte-americanos é de 5%, em um país com 348 milhões de habitantes. No Reino Unido, o número de tutores com planos de saúde sobe para 30%. Olhando essa movimentação mundial, Fabiano Lima, CEO da divisão de saúde da Petlove&Co, que faturou R$ 2,4 bilhões em 2025, afirma: “É plausível achar que vamos chegar a 15 milhões de usuários”. 

O que há em comum entre Brasil, Estados Unidos e Europa? O amor pelos pets e o desejo genuíno de cuidar deles e prolongar ao máximo a expectativa de vida, que costuma ser de 8 a 15 anos. Nos EUA, os planos trabalham por reembolso. No Brasil, é por rede credenciada, justamente porque o poder aquisitivo médio do brasileiro é menor.

Hoje, o plano de saúde da Petlove é o maior do país. Em 2018, ela atuava no varejo on-line e havia comprado a DogHero, mas queria ser um ecossistema completo, onde o tutor encontraria tudo o que fosse necessário para cuidar do seu filho-pet. “Sempre fizemos muitas pesquisas. Quando perguntamos para os tutores qual é o maior desafio, a resposta sempre esteve relacionada com cuidar da saúde do pet”, salienta Lima. 

Com a humanização dos pets, conquistam espaço no segmento os planos de saúde,  a indústria farmacêutica e até transportes aéreos 
Fabiano Lima – Foto: Divulgação

Sendo assim, em 2018, a Petlove deu um passo importante. Na realidade, dois: ela comprou os planos de saúde da Nofaro, fundada no sul do Brasil, e a Porto Pet (antiga Health for Pets), da Porto Seguro, que também detém 13,5% da operação.

Segundo Lima, a ideia foi fazer um plano de saúde simples de entender e que coubesse no bolso do brasileiro. “Democratizar o acesso à saúde sem limite de idade, raça ou situação de saúde. Não perguntamos se o pet tem uma comorbidade. Depois de 120 dias é possível fazer qualquer cirurgia.” 

No momento, o plano está disponível em 25 das 27 capitais brasileiras com 8 mil credenciados e um quadro total de colaboradores de 2.300 pessoas. Os planos começam em R$ 15 e vão até R$ 519 por mês, dependendo da cidade. O valor de entrada dá direito a vacinas e consultas veterinárias. “Uma pessoa de poder aquisitivo menor, com R$ 45, consegue consultar um médico veterinário”, explica Lima, antes de completar: “O amor não tem faixa de renda”. 

Os planos mais vendidos ficam entre R$ 35 e R$ 95. Os premium, que representam menos de 10% da escolha dos usuários, estão disponíveis para quem mora em São Paulo e Rio de Janeiro. Neles, estão incluídas internações em hospitais, que se autointitulam “Einsteins” dos pets, e procedimentos complexos.

O plano pode ser adquirido pelo site com suporte de consultores on-line, nas clínicas veterinárias cadastradas e por intermédio dos 40 mil corretores da Porto Seguro. Bancos, administradoras de condomínios, clubes de fidelidade e empresas estão incluindo planos de saúde para os pets nos benefícios oferecidos a clientes e funcionários. Colgate, Philips, Andrade Gutierrez e P&G são alguns exemplos de empresas que entenderam que o pet ocupa hoje o lugar de um novo filho dentro das famílias.

Indústria farmacêutica

O diretor da Unidade de Negócios de Animais de Companhia da MSD Saúde Animal no Brasil, José Pereira Júnior, comenta: “A taxa de crescimento no ano passado foi menor em comparação a 2021, mas segue crescendo”.

A empresa, fundada em 1891 em Nova Jersey, nos EUA, produz medicamentos humanos, vacinas e tem uma divisão de saúde animal, cuja Unidade de Negócios de Animais de Companhia (CABU) representa 23% do faturamento total, que, em 2025, atingiu globalmente US$ 65 bilhões.

José Pereira, diretor da Unidade de Negócios de Animais de Companhia da MSD Saúde Animal no Brasil

A MSD Saúde Animal, com o antiparasitário Bravecto, é uma das líderes na prevenção de pulgas e carrapatos e compete com Zoetis, Elanco e Boehringer Ingelheim em um setor que movimenta cerca de US$ 1,1 bilhão por ano no Brasil.

O vento sopra a favor do segmento, já que o comportamento do consumidor é cada vez mais parental: ele não economiza para garantir o bem-estar do filho pet. Outro dado surpreendente, divulgado pelo Sindan, é que apenas 22% dos tutores administram antiparasitário nos seus cães, o que mostra que ainda existe uma fatia imensa de consumidores a ser conquistada. Em suma: há demanda, mas também concorrência. “Cada vez mais players entram nesse mercado”, pontua Pereira. “A excelência na execução é um ponto primordial e um dos pilares fundamentais da nossa estratégia.”

Para 2026, a empresa aposta suas fichas no Numelvi, indicado para cães com dermatite atópica, e está animada: afinal, o principal motivo das idas ao veterinário está relacionado às coceiras.

O Brasil ocupa um lugar importante na estratégia farmacêutica, já que está em primeiro lugar entre os países emergentes. Diferentemente da Europa, onde a prescrição veterinária é obrigatória, por aqui não é necessário passar por consulta para adquirir antiparasitários, o que permite um diálogo direto com o consumidor final. “Essa é a beleza deste mercado”, comemora Pereira, revelando que os produtos estão presentes em 80 mil pontos de venda, incluindo pequenos pet shops e grandes redes.

No ramo farmacêutico, o mercado norte-americano é, de longe, o mais forte. “Os Estados Unidos são uma liga, e o resto do mundo, outra dimensão, devido ao alto poder aquisitivo, ao nível de conscientização e à elevada taxa de medicalização. O tutor americano gasta sete vezes mais com o pet do que o brasileiro.”

Transporte aéreo pet

O transporte aéreo de animais inclui o trabalho de agências de viagem, transporte aéreo, documentação, logística, embarque, quarentena e concierge. A soma desses serviços movimentou, em 2024, US$ 2,4 bilhões no mundo.

Como se pode imaginar, a humanização dos pets aumentou o número de viagens pet friendly. Porém há muito dinheiro deixado em “cima do balcão”, pois o limite de tamanho dos animais aceito nas companhias aéreas, tanto do Brasil quanto no exterior, restringe de forma expressiva quais animais estão aptos a viajar. 

O os números não mentem: há cerca de 45 milhões de cães de médio e grande porte, que não têm o direito de viajar na cabine do avião. Qual tutor, no papel de “pai de pet”, vai transportar seu filho no porão da aeronave, ao lado de malas? As companhias aéreas ainda não entenderam o potencial desse mercado, mostram-se preguiçosas nos estudos para modificar as condições de voo e são alvos constantes da opinião pública, que se mostra indignada diante dos casos de mortes nas aeronaves e cães perdidos nos aeroportos. 

A agente de viagens Ana Lechugo, da Sonho e Magia Viagens, já embarcou 3 mil cães e gatos e reflete: “Considerando que cada processo de transporte internacional entre taxas de embarque, documentação sanitária e assessoria especializada movimenta entre R$ 3 mil e R$ 15 mil por animal, estamos diante de um mercado que movimenta centenas de milhões de reais por ano e que ainda está longe do seu teto”.

Com a humanização dos pets, conquistam espaço no segmento os planos de saúde,  a indústria farmacêutica e até transportes aéreos 
Agente de viagens da Sonho e Magia Viagens, Ana Lechug

Atualmente, o público-alvo da Sonho e Magia Viagens é de famílias, que estão mudando de país por motivo profissional. Segundo estimativas, há 4,9 milhões de brasileiros no exterior com moradia fixa. Seguem-se aqueles que não se sentem seguros para viajar por turismo e deixar seu filho-pet em um hotel para cães, não têm rede de apoio para cuidar dele e acima de tudo: não querem ficar separados do pet. 

As informações de como embarcar um cão no avião, seja na cabine ou no porão, estão disponíveis nos sites das companhias aéreas, mas é justamente o que está nas entrelinhas e as constantes mudanças de regras que fazem com que a agência da Ana Lechugo seja contratada. Diz ela: “Meus clientes tratam o pet como membro da família e não estão dispostos a arriscar um erro documental, que pode resultar em recusa de embarque ou até na retenção do animal no aeroporto”