Maternidade e carreira: relatos de executivas brasileiras
Negócios
10/05/2026
Três líderes compartilham os desafios reais de equilibrar filhos e carreira, e explicam como a experiência materna impactou na forma de trabalhar e liderar
Por Redação
A maioria das mulheres encontram um dos maiores desafios no mercado de trabalho ao se tornar mãe e ter de equilibrar a rotina profissional com a maternidade. Entre reuniões, decisões, prazos e compromissos familiares, as mães que ocupam cargos de liderança precisam administrar muita coisa (e, às vezes, lidar com a culpa e a cobrança em todas as frentes).
Dados do IBGE, divulgados no estudo ‘Estatística de Gênero 2024′, mostram que as brasileiras dedicam, médica, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto homens dedicam 11,7 horas.
Essa diferença mostra que, mesmo inseridas no mercado de trabalho e em posições de liderança, muitas mulheres acabam acumulando uma segunda jornada dentro de casa. Esse número revela que existe um desequilíbrio estrutural, mas mais do que isso: ajuda a dimensionar a habilidade que muitas mulheres desenvolvem ao transitar entre esses dois mundos.
“Fui moldando minha carreira para ser mãe”
Talita Salles, cofundadora e Chief Growth Office da Biologix, conta que a maternidade se tornou um vetor de desenvolvimento de competências como empatia, escuta ativa, praticidade e inteligência emocional. A trajetória dela sempre teve a maternidade como horizonte: “Desde cedo eu sabia que queria construir uma carreira sólida e também ser mãe. E a maternidade me trouxe mais empatia, paciência e escuta. Você aprende que comunicar não é apenas falar, mas entender como o outro recebe a mensagem”.
Ela lembra que a experiência materna transformou profundamente a sua forma de liderar. Para Talita, conviver com crianças ensina que comunicar é entender como o outro recebe a mensagem e isso a ajudou a se aproximar da sua equipe.
Ao falar sobre o maior desafio dessa dupla jornada, Talita é direta ao apontar a ‘culpa’ como o principal obstáculo, já que a sensação de não estar 100% em nenhum dos lados aparece com frequência.

Para lidar com isso, ela recorre a uma metáfora: “Vejo a vida como vários pratos girando ao mesmo tempo. Em alguns momentos, a carreira exige mais atenção. Em outros, a família precisa ser prioridade. O segredo está em perceber qual prato precisa de mais cuidado naquele momento e ajustar a energia para isso”.
Flexibilidade e novos modelos ampliam a presença feminina
Simone Gasperin, sócia e head de Marketing e Growth na BPool e da Ollo, também concilia a maternidade com a liderança. Para ela, a evolução dos modelos de contratação tem papel direto na inclusão de mais mulheres no mercado (especialmente as mães).
“O avanço de modelos de contratação flexíveis em que empresas recrutam profissionais qualificados para projetos ou demandas específicas, permite que o trabalho se adapte melhor à rotina das pessoas. Para muitas mães, isso significa continuar em projetos relevantes sem precisar abrir mão da carreira”, pontua.
Segundo a executiva, esse formato também amplia o acesso das empresas a talentos qualificados, pois ao trabalhar com “comunidades de profissionais e estruturas mais flexíveis, as empresas conseguem incluir perfis que, em modelos tradicionais, muitas vezes ficariam de fora. É uma mudança que combina eficiência e inclusão”.
Conciliação de prioridades que impacta nas relações
Conciliar a carreira e a maternidade ainda acaba esbarrando em estruturas pouco adaptadas à realidade das mulheres. Joyce Romanelli, cofundadora e sócia da Fluxus, avalia que foi preciso passar por um ‘processo de ajuste, rever o ritmo, prioridades e limites’ depois que virou mãe.
“Mudou a forma como eu trabalho e, principalmente, como eu lidero. Hoje, isso é parte de quem eu sou. Eu me apresento dizendo que sou a mãe do Tito, porque isso não está separado da minha trajetória, está dentro dela, organiza a forma como eu vejo o mundo e como tomo decisões”, afirma.
Assim como Talita e Simone, Joyce também acredita que a maternidade fez com que ela olhasse de outro jeito para o trabalho e para a sua equipe: “A experiência do cuidado trouxe uma escuta diferente, mais presente, mais disponível para o outro. E isso impacta diretamente na forma como eu conduzo relações e decisões”.
“A maternidade também escancara o quanto o modelo de trabalho ainda está baseado na ideia de disponibilidade irrestrita. Conciliar esses dois mundos exige escolhas o tempo todo, e nem sempre elas cabem nas estruturas que existem hoje”, finaliza.
Conseguir encontrar um equilíbrio entre maternidade e carreira expõe um movimento em curso no mercado de trabalho: a necessidade de modelos adaptáveis que considerem diferentes realidades de vida. Nesse contexto, as trajetórias dessas lideranças ajudam a deslocar a discussão da ideia de equilíbrio perfeito para uma lógica mais realista.