Um novo olhar para o alto padrão
Arte
28/04/2026
A arquiteta Ticiane Lima faz sucesso em São Paulo e define: “A ostentação envelhece rápido. A experiência bem construída permanece”
Para Ticiane Lima, arquitetura é construção de pensamento e de sensibilidade. Inspirada pela força estrutural de Paulo Mendes da Rocha, pelo silêncio e pela luz de Tadao Ando e pela inteligência social de Lina Bo Bardi, a arquiteta desenvolveu uma linguagem que equilibra minimalismo, acolhimento e requinte, sempre orientada pela escuta e pelo entendimento dos rituais cotidianos. Em um cenário em que o luxo se desloca da ostentação para a experiência, ela defende espaços que priorizam bem-estar, permanência estética e responsabilidade, integrando sustentabilidade, tecnologia e branding de forma orgânica e silenciosa. Para ela, o legado da arquitetura está menos na forma que impressiona e mais na sensação que permanece.
Formada pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Ticiane abriu seu escritório próprio em 2014. É reconhecida por valorizar o essencial e o humano, combinando materiais nobres, iluminação precisa e composições harmônicas que revelam o equilíbrio entre arte e técnica — seja no conforto de uma residência, na atmosfera de um restaurante ou na identidade de uma marca.
Sua trajetória é marcada pela pluralidade. Seu escritório atua em projetos residenciais e comerciais de alto padrão, além de espaços corporativos e mostras de decoração. Sua presença em edições consecutivas da CASACOR São Paulo revela domínio em traduzir tendências com elegância atemporal e apelo sensorial.
Nos últimos anos, Ticiane tem se destacado também na arquitetura gastronômica paulistana, assinando projetos de restaurantes de alto padrão, como o Makoto Cidade Jardim, e os futuros Tasca e Kaspia, ambos em fase de obras. A arquiteta também desenhou as lojas Enjoy House em São Paulo — incluindo as unidades do D&D Shopping, da Alameda Gabriel Monteiro da Silva e, mais recentemente, de Alphaville.
THE PRESIDENT _ Quais arquitetos, designers e estilos mais lhe inspiram?
Ticiane Lima – Minha inspiração vem de arquitetos que compreendem a arquitetura como construção de pensamento e de sensibilidade. Me inspiro profundamente em Paulo Mendes da Rocha, pela força estrutural aliada à clareza conceitual, e em Tadao Ando, pela forma como trabalha o silêncio, a luz e o vazio como elementos protagonistas do espaço. Também admiro a inteligência humana e social de Lina Bo Bardi e a poesia do gesto de Oscar Niemeyer.
Mas, além das referências formais, eu me inspiro muito na natureza, na arte e na observação do cotidiano, porque acredito que a verdadeira arquitetura nasce da escuta atenta e da capacidade de transformar matéria em experiência.
O mercado começou a valorizar, de fato, a dimensão emocional e sensorial dos espaços. Como isso impactou sua forma de projetar?
Essa virada se tornou mais evidente quando as pessoas passaram a viver mais intensamente seus próprios espaços, sobretudo após períodos de maior introspecção coletiva, como a pandemia. O mercado começou a entender que conforto, acolhimento e bem-estar não são supérfluos. São essenciais.
Para mim, isso apenas reforçou algo que sempre esteve presente no meu processo: projetar pensando nas sensações, nos rituais e na vida real que acontece ali. Hoje, essa abordagem deixou de ser diferencial e passou a ser uma necessidade.
O que, na sua visão, define o luxo contemporâneo — e por que ele hoje está mais ligado à experiência do que à ostentação?
O luxo contemporâneo está no tempo, no silêncio, na qualidade do espaço e na forma como ele faz você se sentir. Ele não grita; ele acolhe. Mais do que materiais caros, luxo hoje é ter um ambiente que respeita o ritmo das pessoas, que oferece conforto emocional e uma estética que atravessa o tempo. A ostentação envelhece rápido. A experiência bem construída permanece.

Em projetos residenciais, comerciais e corporativos, nota-se uma busca pelo essencial. Essa depuração estética é uma tendência de mercado ou uma resposta a um mundo cada vez mais saturado de estímulos?
É uma resposta. Vivemos cercados de excesso de informação, imagens, ruídos. A arquitetura surge quase como um contraponto, um lugar de pausa. A depuração estética não é sobre tirar, mas sobre escolher melhor. É criar espaços que respiram, que organizam a vida e permitem presença. Isso não é modismo. É consciência.
Na arquitetura gastronômica, como o espaço pode traduzir a identidade de um chef e se tornar parte indissociável da experiência culinária?
O espaço precisa conversar com a cozinha. Ele deve amplificar a narrativa do chef, não competir com ela. Texturas, iluminação, escala e fluxo têm um papel fundamental em preparar o cliente para a experiência gastronômica. Quando o ambiente é bem pensado, ele se torna parte do prato invisível, mas indispensável.
Como a arquitetura passou a funcionar como uma extensão do branding — e não apenas como cenário?
Hoje, marcas são vividas antes de serem explicadas. A arquitetura se tornou um dos principais pontos de contato entre marca e público. Quando projeto para uma marca, busco traduzir seus valores em espaço: materiais, proporções, atmosfera. Não é cenário, é identidade construída em três dimensões.
A sustentabilidade aparece de forma mais integrada nos seus projetos. De que forma isso vem acontecendo no mercado de alto padrão?
A sustentabilidade deixou de ser um discurso isolado e passou a ser parte do projeto como um todo. Ela aparece na escolha consciente de materiais, na durabilidade, na eficiência dos espaços e na forma como projetamos para o longo prazo. Sustentável, hoje, é aquilo que faz sentido, que dura e que respeita recursos — inclusive os emocionais.

Tecnologia, automação e inteligência artificial têm avançado rapidamente. Como incorporar essas ferramentas de forma discreta, sem comprometer a sensibilidade, a atmosfera e o caráter humano dos espaços?
A tecnologia deve ser silenciosa. Ela existe para servir, não para se impor. Automação, inteligência artificial e sistemas inteligentes funcionam melhor quando não são percebidos, quando apenas melhoram a experiência cotidiana. O desafio é equilibrar inovação com humanidade e isso só é possível quando o projeto vem antes da tecnologia.
Você percebe uma mudança no comportamento dos clientes em relação à forma de morar, trabalhar e consumir espaços — especialmente no que diz respeito a bem-estar, tempo e qualidade de vida?
Sem dúvida. As pessoas estão mais conscientes sobre como querem viver, trabalhar e consumir espaços. Existe uma busca clara por bem-estar, por ambientes que tragam calma, funcionalidade e qualidade de vida. O espaço deixou de ser apenas status e passou a ser extensão do cuidado consigo mesmo.
Olhando para a próxima década, que tipo de arquitetura você acredita que será relevante — e que valores você considera essenciais para construir um legado que vá além da forma?
Será uma arquitetura mais humana, sensível e responsável. Relevante será aquilo que atravessa o tempo com coerência, que respeita o contexto, as pessoas e o planeta. Mais do que formas icônicas, acredito em valores sólidos: ética, sensibilidade, escuta e propósito. É isso que constrói legado.