Uma ideia brilhante
Entrevista
16/06/2026
A dinâmica paulistana Heidi Pohlmann, da Küchendesign, está trazendo para o Brasil luminárias europeias de apurado desenho
Por Walterson Sardenberg Sº
Retratos de Anna Carolina Negri
Heidi (pronuncia-se Reaidi) Pohlmann é uma pessoa solar — embora more metade do ano em uma cidade fria, Frankfurt, na Alemanha. Dinâmica, risonha, extrovertida, esta paulistana de 44 anos, advogada de formação, é a feliz CEO da próspera Küchendesign, importadora e distribuidora que fundou há dez anos.
Poliglota, Heidi estudou na Suíça, na França e na Inglaterra e fala com fluência cinco idiomas (incluindo o alemão e o mandarim). Não é de admirar que também tenha residido na Índia, em Hong Kong e nos Emirados Árabes. Para completar o tamanho multinacionalismo, é casada com um italiano de Salerno, o também simpático Bruno Cataldo, de 46 anos.
O traço cosmopolita Heidi herdou dos pais, alemães, que a incentivaram, desde pequena, a nutrir uma sadia independência. “Agradeço muito a eles”, resume. Disso resultou, também, a facilidade de trafegar entre dois continentes.
À frente da Küchendesign, a paulistana está trazendo para o Brasil e para a América Latina os produtos de duas antenadas fábricas de luminárias e similares: a alemã Sompex e a dinamarquesa Piffany. A qualidade das peças vem alicerçando a rápida evolução das encomendas por aqui. Mas há outros fatores, pessoais, garantindo o sucesso. Sobretudo o desembaraço de Heidi, aliado a uma sólida formação cultural e, em especial, a um pleno entusiasmo. “Sou a maior vendedora que você vai conhecer”, diverte-se.

THE PRESIDENT — Você vem de uma família alemã, é isso?
Heidi Pohlmann – Sim, eu tenho pais alemães, sou filha única, adotada. Meus pais vieram para o Brasil expandindo a marca de relógios de parede Kienzle, que está na família desde 1822. Chegaram aqui em 1969. Meu pai, de início, pretendia ficar apenas um ano. Mas se apaixonou pelo Brasil e foi ficando. Morreu em São Paulo, há dois anos. Sou uma brasileira alemã que, desde os seis anos, sabe que é adotada. Meus pais me contaram. Hoje sou cada vez mais alemã por estar trabalhando com produtos alemães maravilhosos.
Você estudou advocacia na Suíça, certo?
Exato. Depois tive uma passagem pela Sorbonne, na França, e finalmente estudei na London School of Economics, na Inglaterra, onde fiz geopolítica. Acima de tudo, acho que sou a maior vendedora que você vai conhecer. Adoro o que faço, adoro vender, apresentar produtos. Faço tudo com muita paixão. Não faço nada que não goste.
Gostou de morar na Índia?
Muito! Aos 22 anos, eu cursava a universidade, mas não estava feliz. Não gostava de estudar Direito. Meu pai falou: “Tudo o que se começa tem que terminar”. Então tranquei a matrícula e negociei com ele viajar por seis meses, para ver o que eu queria fazer da vida. Fui parar no ashram do guru Bhagwan Rajneesh, o Osho, na Índia. Meu pai não sabia quem era, nunca deu um Google, graças a Deus. Assim pude aproveitar bem esse momento na vida.
Saiu da Suíça e foi parar na Índia, que é, de certa forma, o oposto da Suíça. Sofreu com o choque cultural?
Sou uma pessoa que se adapta. A Índia é muito parecida com o Brasil, no sentido da desorganização, de desigualdade social. Mas, para mim, foi muito bom. Se eu for escolher as melhores partes da minha vida, diria que são hoje, com meu marido Bruno, e, antes dele, na Índia e em Hong Kong, onde vivi dois anos e meio, trabalhando na Kienzle.
Você fala cantonês, o idioma principal de Hong Kong?
Falo mandarim. Quando eu tinha 13 anos, meu pai me disse: “Além do inglês, você precisa aprender mandarim, porque é o futuro”. Ele era um visionário, que já fazia negócios com a China havia décadas. A Kienzle teve uma fábrica na China até dois anos atrás.
Você fala alemão, inglês, mandarim…
No todo, são seis idiomas. Também falo francês e espanhol. Não posso reclamar. Meus pais me incentivaram muito.
Seus pais incentivaram sua independência?
Desde pequena, sempre. Sou filha única e, mesmo assim, para eles, foi muito importante eu ter a minha independência. Meu pai sempre falou: “Se existe uma coisa que ninguém pode lhe tirar, é o conhecimento. Você pode perder todo o dinheiro que tem no banco, mas o que você aprendeu, os seus diplomas, as línguas que você fala e o que estudou ninguém pode tirar”. Ele dizia que pessoas com conhecimentos sempre vão achar trabalho, sempre vão poder se sustentar. Foi assim, uma sacada muito legal dos meus pais. Fui criada para o mundo.
O que a Índia e Hong Kong lhe deram para o resto da vida?
A Índia me trouxe aquele momento introspectivo de vida, de decidir o que eu queria. Hoje, graças à Índia, às meditações, ao que eu vivi, sei o que eu quero e o que eu não quero na vida. Já Hong Kong me deu as asas, a coragem que necessito para enfrentar o dia a dia.
Você vive uma parte do tempo no Brasil e outra parte na Alemanha?
Eu vivia mais em Frankfurt, na Alemanha, com meu marido, o Bruno. Mas agora nosso tempo está dividido. São três semanas em Frankfurt e outras três em São Paulo, por conta dos negócios. Uma correria danada. Estou trazendo para a América Latina os produtos de algumas ótimas empresas europeias que fabricam luminárias e similares. São a Sompex e a Piffany. Na verdade, represento um pool de marcas. Minha empresa, a Küchendesign, fundada em 2016, é importadora e distribuidora.
E os relógios Kienzle?
Fechamos a companhia, mas a marca continua. É minha. Ter uma marca poderosa é o mais importante, todo mundo sabe. Fabricamos aqui no Brasil. Fazemos, por exemplo, muitos relógios de parede promocionais, com a logotipia dos clientes. Já criamos para a Campari, Velho Barreiro, Unilever, Nestlé, entre outros. Há os mais comuns, de plástico, mas também os de aço escovado.
Que empresas europeias são estas que você está trazendo para o Brasil?
São duas, a Piffany e a Sompex. A Piffany é dinamarquesa. Tem oito anos de vida. A outra é a alemã Sompex, criada em 1949. É a maior companhia de luminárias LED do mundo.

Como são esses produtos?
As luminárias Sompex são lindas, práticas, chiquérrimas, tanto para a casa como para hotéis e restaurantes. Sabe os hotéis Hyatt e Hilton? Pois eles usam luminárias Sompex no mundo todo. Uma das grandes vantagens é que não precisam recorrer o tempo todo à rede elétrica. Contam com bateria facilmente recarregável. Basta recarregar com um cabo USB. É super prático. A carga dura 180 horas. Você vai ter luz sempre. Nunca vai faltar. E é totalmente autossustentável. A Zafferano, nossa maior concorrente, compra da fábrica da Sompex.
O catálogo da Sompex é grande?
Imenso! São mais de 180 luminárias diferentes, de vários tamanhos, estilos e usos. A Sompex é um guarda-chuva de muitas marcas. Tem a Villeroy & Boch, Newdes, Leonardo e Silwy, e assim por diante. A mais nova é a cooperação com a revista Elle Decor.
E a Piffany?
As luminárias da Piffany são LED, mas parecem uma vela natural. Sou suspeita, porque gosto muito de luz indireta. Acho que dá um ar quente ao ambiente, além da sensação de que é uma vela real. Até quando você pega, tem a textura da vela. São perfeitas, por exemplo, para forjar um ambiente romântico de casa ou barzinho.
E os preços desses produtos, sejam da Sompex quanto da Piffany?
Vamos lá. A luminária mais em conta sai por R$ 280. A mais cara, por 5 mil euros. Depende muito do que você procura. As mais caras são aquelas luminárias enormes, de teto, ótimas para hotéis e restaurantes. Mas também temos produtos bem exclusivos para a casa que muitos decoradores adoram, seja na Europa ou nos Estados Unidos. Aqui ainda não, porque não conhecem. Vão adorar também. Sem contar as coleções maravilhosas de Natal.
Você trabalha em dois mercados bem diferentes: o europeu e o brasileiro. Quais são as diferenças de ter uma empresa na Alemanha e no Brasil, em relação às questões tributárias, por exemplo?
A gente costuma ouvir que ter uma empresa na Europa é muito mais fácil. Não é por aí. Você paga muitos tributos também. Com a Suíça eu não faço negócios, porque é um dos países mais caros do mundo, embora tenha morado lá e a qualidade de vida seja enorme. A Alemanha é um país mais acessível, inclusive para as empresas. O melhor da Europa é a questão da segurança. Você não esquenta a cabeça. Você se sente livre.
A Sompex e a Piffany são empresas grandes? Quantos funcionários têm?
A Sompex é uma empresa de um amigo meu e eu sou a distribuidora dele na América Latina. Trabalho com eles há algum tempo. Fiz todo o trabalho de expansão da marca em Dubai, nos Emirados Árabes, por exemplo. A companhia tem 660 funcionários, incluindo Alemanha e China. Já a Piffany conta com 1.680 funcionários, porque tem fábricas nos Estados Unidos, na Turquia e na China. A Küchendesign, minha empresa, tem 12 funcionários, fora os representantes comerciais.
A sede é em São Paulo ou em Frankfurt?
São Paulo. Mas facilita muito a minha vida e a do Bruno estarmos boa parte do tempo em Frankfurt. De lá para a Dinamarca, sede da Piffany, é rápido. Para ir de Frankfurt para Colônia, onde fica a Sompex, são só duas horas de carro. Claro que converso também com os fornecedores de maneira virtual. Mas, pessoalmente, é mais decisivo.
Quais são as perspectivas de crescimento?
As mais otimistas. Fechei o contrato com a Sompex em outubro do ano passado e os primeiros produtos chegaram em abril. É o começo, mas já temos, por exemplo, parceria com o MasterChef no Brasil. O primeiro restaurante aberto no mundo com a marca MasterChef fica em Sorocaba, no interior de São Paulo, e usa as nossas lâmpadas. Inclusive, vai vender as nossas lâmpadas também. Acabamos de fechar também com a rede de restaurantes de cozinha argentina Corrientes 348, em São Paulo. Muitas outras casas estão negociando conosco. Meu trabalho é tornar as marcas superconhecidas em toda a América Latina.
Quais são as metas numéricas?
No Brasil, as empresas sempre falam em metas. Sempre. Quer saber? Nenhuma dessas empresas europeias me deu ou impôs meta. Só falaram assim: “Heidi, a gente confia em você. Nos ajude, por favor, a expandir os negócios na América Latina”. Adorei. Espero não decepcionar.
Você fará vendas on-line?
Sim, claro. Queremos vender não só para empresas, mas para compradores avulsos que desejam apenas uma unidade. O nosso on-line já está ativo no site kuchendesignbrasil.com.br.
O trabalho de divulgação está sendo amplo. Há uma empresa de Business Intelligence nos apoiando nesse processo. Tem a questão das redes sociais, que são a nossa vitrine, o canal em que mostraremos os produtos. E tem os contatos mesmo, tanto no mercado quanto de parcerias que estamos fazendo, para posicionar a marca.
Além de distribuir, você pensa em ter suas próprias lojas físicas?
Nunca na vida! É muito complicado ter muitos empregados no Brasil. Traz problemas trabalhistas. Prefiro a segurança de uma estrutura enxuta. Mas quero ver todo mundo ganhando dinheiro. Se você conhece alguém que tem um restaurante, um hotel, uma loja e está interessado em luminárias novas, por favor, me indique. Se o negócio for fechado, você ganhará 10% de comissão. Uma ótima comissão. Quando todo mundo está ganhando dinheiro, todo mundo está feliz.
Você é uma pessoa muito extrovertida, espontânea, cheia de vida. Não pensa em ser a divulgadora da própria marca nas redes?
Sim. Posso estar em qualquer reunião, grupo de amigos, eu posso estar com uma pessoa humilde e posso estar com a mais alta socialite desse mundo. Você pode ter uma certeza: serei sempre a mesma pessoa. Tanto faz, porque para mim todo mundo é igual. Espero que logo mais a imprensa esteja batendo na minha porta. Sou autêntica, e isso conta. Sou uma pessoa muito empolgada com a vida. Amo viver. Acho que a vida é muito curta e tem de ser vivida na plenitude.

Como você conheceu o seu marido?
Foi em uma noite em que eu tinha comprado um monte de coisas da Ikea e precisava de ajuda para levá-las para casa. Porque ninguém ajuda na Alemanha, e sou super mimada nesse sentido; sou brasileira e estamos acostumados a comprar e receber as coisas em casa. Eu morava no segundo andar de um prédio sem elevador. Prédios assim, antigos, são comuns em Frankfurt. Aí o Bruno despontou e me ajudou a carregar. Foi muito solícito. Resultado: nos apaixonamos e, dois anos depois, estamos casados. Foi o destino, claro.
A Küchendesign vai se limitar aos relógios Kienzle e às importações de produtos Sompex e Piffany, ou tem ambições ainda maiores?
Estou de olho em mais três empresas que gostaria muito de representar no Brasil e na América Latina. Não posso falar muito porque não assinei os contratos ainda. Mas posso adiantar que são todas da mesma linha, da mesma área, voltadas para decoração, hotéis, restaurantes e casas. Preciso continuar nesse viés, saber focar. Sou geminiana, mas não consigo me dividir. Melhor assim.