Um paraíso da pilotagem

Motor

20/03/2026

Um paraíso da pilotagem

O Raceville Speed Club é um parque de diversões do universo motor, que mistura velocidade e lazer para a família

Por Mário Sérgio Venditti

O empresário Cacá Clauset é um amante da velocidade. Seu vasto currículo de piloto — uma de suas paixões — ostenta participações em importantes competições do calendário mundial, como os ralis dos Sertões e Dakar. No entanto, ele teve de pisar no freio antes de transformar um sonho antigo em realidade: construir um autódromo não para corridas oficiais, mas destinado aos diletantes que quisessem passar algumas horas na pista acelerando suas máquinas. 

Cacá diz que bateu na trave ao inaugurar, em 2022, o Motor Park Haras Tuiuti, um campo de provas multiuso. Mas ele desejava algo maior, um autódromo “de verdade”, um plano ambicioso todo elaborado em sua cabeça. “Eu não tinha recursos para bancar um empreendimento tão grande e seria difícil captar tanto dinheiro para construir um autódromo no Brasil”, afirma.

Durante uma expedição ao Jalapão, em Tocantins, no período pós-pandemia, veio a luz. Cacá assistia a uma apresentação sobre a instalação de piscinas de ondas artificiais em clubes e hotéis quando teve uma sacada: “É isso! Um complexo com conceito de clube, para receber toda a família no fim de semana, com experiências que conectam automobilismo, hospedagem, lazer e a boa gastronomia”.

Começava a nascer naquele momento o embrião do Raceville Speed Club — “um clube dentro de um autódromo ou o contrário”, brinca Cacá, que iniciou uma corrida frenética em busca de sócios e parcerias. Numa conta de padaria, como gosta de falar, mostrou sua ideia ao empresário e investidor Sylvio de Barros, um aventureiro de carteirinha, daqueles que praticam surfe na pororoca do rio Amazonas. “Isso é bom, estou dentro”, respondeu, de imediato. Infelizmente, um dos maiores entusiastas do projeto não viu a obra concluída. Em maio do ano passado, às vésperas da inauguração, Barros morreu após cair de uma cachoeira na cidade de Joanópolis, São Paulo.   

Aos poucos o time que abraçou o Raceville foi crescendo, com a chegada de Marcelo Chanoft, profissional de marketing e dono de um perfil mais administrativo, e a criação de uma sociedade de propósito específico (SPE), que determina as diretrizes legais para a viabilização de um empreendimento como esse. 

Para Cacá, os cálculos para colocar a ideia em pé eram simples. Cada uma das cem primeiras cotas de títulos custaria R$ 1 milhão, totalizando R$ 100 milhões, valor desembolsado para a construção. Um ajuste aqui, outro ali, e o preço partiu de R$ 440 mil. Atualmente, custa R$ 552 mil. “Toda a obra se pagará quando o clube atingir 200 filiados. Nosso limite é de 500 pessoas, mas não temos pressa. Fazemos tudo com muita calma.”

O passo seguinte era encontrar um terreno para uma obra tão ousada. Cacá era hóspede assíduo do Pousada Primavera da Serra, em Brotas, cidade com forte vocação para ecoturismo a 250 quilômetros da capital paulista. Em um fim de semana com a família, percebeu que a propriedade estava exatamente dentro de uma área bastante apropriada para o clube-autódromo. Cacá explicou o projeto ao anfitrião, Eduardo Ataliba, fã de off-road, que topou entrar como sócio envolvendo sua charmosa acomodação de 21 quartos. 

Uma coisa puxou a outra. Ataliba apresentou a Cacá seu vizinho, Edilberto Meneghetti, dono de plantações de cana-de-açúcar a perder de vista. Ressabiado, Meneghetti achou que aquele interessado por suas terras poderia se tornar um latifundiário concorrente. Quando soube das reais intenções, não só se deslumbrou com a ideia como sugeriu entrar de sócio em troca de 35 alqueires. 

As obras começaram no mesmo ritmo dos carros de corrida e, em novembro de 2024, o Raceville, um colosso de 2 milhões de metros quadrados, foi inaugurado com estrutura invejável: piscinas, quadras poliesportivas, academia, brinquedoteca, restaurantes, spa, lagos, cachoeiras e trilhas off-road para veículos 4×4 e UTVs. Não há como negar, porém, que, entre tantas opções de lazer, a menina dos olhos é o autódromo de 4.500 metros — quase 200 metros a mais do que o autódromo de Interlagos — e dez boxes.

O desenho do traçado foi inspirado na lendária pista inglesa de Silverstone, onde aconteceu a primeira etapa da Fórmula 1, em 1950. Os sócios fizeram questão de preservar o relevo do local. Portanto, houve um cuidado especial ao projetar as curvas do circuito. 

Hoje, o autódromo do Raceville aguarda homologação da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), que lhe credenciaria a receber corridas oficiais. Entretanto, o dono adianta que essa não é proposta principal do clube. “Eventualmente, promovemos corridas amistosas de carros clássicos, sem perder nossa essência.”

Cerca de 55% dos 150 associados do Raceville — que, em 2026, começarão a pagar uma mensalidade de, no máximo, R$ 2.500 — moram em cidades do entorno de Brotas, como Jaú, Ribeirão Preto, Rio Claro e São Carlos, onde há o registro de 50 Ferraris emplacadas. No embalo das voltas completadas a 200 km/h, o espaço se converteu também em reduto de troca de experiências profissionais e confraternização entre os associados. 

Em pouco tempo de existência, o Raceville já chamou atenção de ilustres visitantes. O arquiteto alemão Hermann Tilke, especializado em projetar pistas de corrida, e Christian Epp, CEO do Motorspots Club of Clubs, entidade que reúne clubes de automobilismo do mundo todo, ficaram impressionados com o complexo. Não é à toa que o Raceville já foi convidado a ingressar no seleto Club of Clubs.

O ex-piloto Maurizio Sala se apaixonou tanto pelo local que virou uma espécie de inquilino. Agraciado com um título honorário, ele realiza clínicas de pilotagem a cada 15 dias para os aprendizes da velocidade. Com a autoridade de 25 anos de carreira como piloto, Sala identificou em Raceville algumas características de vários autódromos internacionais, principalmente as curvas de Silverstone e a famosa Eau Rouge, de Spa Francorchamps (Bélgica). “A pista é uma síntese dos melhores circuitos do mundo. É uma Disneylândia do motor”, define.

O corretor de seguros e conselheiro de empresas Paulo Kalassa conheceu Raceville ainda na fase do projeto, na Pousada Primavera da Serra. Uma vez por mês, ele sai de São Paulo com a família para curtir esse legítimo parque de diversões. Um dos passatempos preferidos é o “banho de lama” provocado pelo percurso de UTV. 

Dono de um Alfa Romeo GTV, Kalassa elogia o circuito: “Conheço alguns autódromos no Brasil e no exterior e posso dizer que a pista do Raceville é técnica e, ao mesmo tempo, divertida. Atende desde o principiante até quem já possui muita experiência”. O sonho de Cacá, como se vê, chegou ao degrau mais alto do pódio.