Sob medida: Cida Gomes, sócia da GSS Segurança

Entrevista

12/08/2026

Sob medida: Cida Gomes, sócia da GSS Segurança

Cida Gomes, sócia da GSS, propõe serviços de segurança pessoal e patrimonial absolutamente customizados

Por Walterson Sardenberg Sº

Retratos Gustavo Lacerda

O roteiro da vida da empresária Maria Aparecida Gomes, a Cida Gomes, 62 anos, é improvável. Hoje sócia majoritária da próspera GSS Segurança, companhia com sede em São Paulo, especializada em segurança pessoal e patrimonial customizada, ela teve um passado no mínimo folhetinesco.

A mulher pequena e empoderada, de 1m62, nascida na diminuta Centenário do Sul, no Paraná, comanda com pulso firme uma empresa com mais de mil funcionários entre São Paulo e Rio de Janeiro. Mas não tem receio de contar que, aos 5 anos, foi vendida pelos pais, para trabalhar em outra família, como escravizada — ou quase isso. Aliás, ela narrou essa história repleta de reviravoltas no livro recém-lançado Cida Gomes Sem Filtro.

O enredo passa pelo episódio do resgate empreendido a cavalo por um tio, Sebastião, para livrá-la da privação de liberdade, envereda pelo casamento prematuro com um rapaz violento, avança por Maringá e Curitiba e por diversos anos pegando duro no batente como doméstica — sempre procurando ler e aprender, com uma inabalável sede de conhecimento.

Por fim, em São Paulo, cozinheira de um restaurante no bairro do Itaim Bibi, passou a galgar outras funções, como caixa. Ali, o dono do estabelecimento a indicou para trabalhar com um freguês da casa, que precisava de alguém no escritório de uma empresa dinamarquesa que investia em segurança, a International Service System.

Cida não se esquece da data: 11 de novembro de 1987. Era o início de uma carreira que, agora, a coloca à frente de sua própria empresa, com faturamento mensal de R$ 7 milhões e dedicação especial a cada cliente.

THE PRESIDENT _ Como foi contar a sua história em livro, Cida?

Cida Gomes –  Ai, foi um parto! (risos) Sentei numa sala de reuniões aqui mesmo e passei a falar e chorar, falar e chorar. Gravaram tudo. Eu falei pra Denise, minha ghostwriter: “Olha, não quero papo de novela, quero a minha história nua e crua”. Ela topou na hora e entendeu o recado. Difícil? Muito. Mas valeu cada lágrima. 

TP_A que você atribui essa resiliência, mesmo tendo uma infância tão abandonada e sofrida?

Fé em Deus e uma teimosia danada de não desistir (risos). Desde pequena aprendi que tinha que ser dura na queda. Com 5 anos eu já estava na casa de gente estranha, trabalhando. Não tinha manual de instruções, eu tive que aprender a me virar sozinha, no susto mesmo.

TP_Sua mãe foi bastante cruel com você.

Foi mesmo, viu. Ela cruzava comigo e fingia nem me conhecer. Quando eu tentava conversar sobre isso, ela ainda soltava um “ah, vou me matar!” pra cortar o assunto. Mesmo assim levei ela pra morar comigo. Só saiu de lá quando comprei um apartamento pra ela. Aí ela vendeu o apartamento e foi embora pra Londrina, imagina só. Já meu pai, que também sumiu na minha infância, um dia bateu na minha porta dizendo que não tinha onde cair morto. Cuidei dele até o fim.

TP_Era para você guardar muitos ressentimentos.

Pois é, mas olha que ironia: acho que, no fundo, minha mãe até me fez um favor sem querer. Ela me ensinou, do jeito mais duro possível, que eu tinha que me proteger sozinha. E isso virou força. Hoje não é qualquer coisinha que me abala, não sou casca grossa mesmo.

TP_Como você entrou na área de segurança, até se tornar uma expert no assunto?

Comecei no escritório do Grupo ISS e fiquei sabendo que eles queriam entrar em segurança no Brasil. Só que, pela lei, precisavam de um sócio brasileiro. Entrou o Peter Graber, dono da Graber, empresa de alarmes. Nasceu ali a ISS Security System, e eu fui embarcando nessa onda conforme a empresa crescia.

TP_Como foi, na prática?

Foi tipo assim: “Alguém precisa desenvolver os uniformes”. “Eu faço.” “Tem que montar planilha de custo.” “Eu faço.” “Precisa calcular composição de custo pra venda.” “Eu faço.” “E o pagamento dos funcionários?” “Também faço!” (risos) Fui pegando gosto pela coisa. Comecei a estudar a Lei 7.102 sozinha, só pra entender direito o que era segurança de verdade. Até treinamento eu dava. Começou assim, no improviso que virou profissão.

TP_Você não teve uma educação formal. Estudou até que ano?

Só até a quinta série. Engravidei muito jovem da minha filha Tabatha e tive que largar tudo pra cuidar dela. Nunca mais voltei pra escola formalmente. Mas sempre fui bicho de leitura, viu, disso ninguém me tira. Fiz todo curso que a empresa oferecia e depois corri atrás por conta própria. Reparei que o chão de fábrica lembrava muito a área operacional da segurança, então fui fazer cursos de produção industrial e adaptei tudo pro meu mundo.

TP_Explique melhor.

Eu cheguei com uma cabeça diferente: a empresa tem que entregar o produto pronto, não um pedacinho pro cliente se virar sozinho com o resto. Isso foi decisivo lá na Graber, que comprou de vez a parte dos dinamarqueses. Enquanto a concorrência ainda fazia segurança do jeito antigo, a gente já estava na frente. Um dia o Pierre, o presidente, chegou e falou: “Precisamos da ISO 9000”. Eu respondi: “Deixa comigo” e nunca tinha nem ouvido falar naquilo (risos). Fui atrás, treinei a equipe todinha, e a Graber virou a primeira empresa do Brasil certificada pela ISO 9000. Chique, né?

TP_Você subia cada vez mais profissionalmente. Superou de vez as agruras do passado?

Olha, eu tinha muita dificuldade de confiar em gente, de fazer amizade. Era osso. Comecei a fazer curso de autoajuda, e mais recentemente entrei em terapia. Tem me ajudado pra caramba, confesso.

TP_Por que você saiu da Graber?

Eu e o Pierre nos dávamos súper bem, e foi ele quem me indicou pra CEO quando um dos sócios, o Lars, se aposentou. Cheguei a administrar 8.500 vigilantes espalhados por São Paulo, Brasília, Paraná, Rio, Minas, além de financeiro, departamento pessoal, tudo. Só que aí o Pierre também se aposentou e entrou o Cruz. E não rolou química nenhuma entre a gente. Na frente do Conselho ele me tratava como rainha, mas no dia a dia fazia da minha vida um inferno e eu retribuía na mesma moeda (risos). No fim, decidi sair.

TP_Que idade você tinha a essa altura?

42 anos. Foi ali que nasceu a GSS.

TP_Você pensou, com desalento: “poxa vida, vou ter de começar tudo de novo”.

Nem um pouco! Vários grupos grandes me chamaram bem discretamente, “vem bater um papo”, sem falar que era entrevista. Só que um dia eu passei em frente a um prédio, perto de onde eu morava, na Giovanni Gronchi, e vi uma placa de “aluga-se”. Bateu um estalo e resolvi alugar ali mesmo.
Foi assim, meio de impulso, que a
GSS nasceu.

TP_Você controlava mais de 8.500 funcionários. Passou a ter quantos?

Zero! Comecei do absoluto zero. Quando a reforma do prédio ficou pronta, arregacei as mangas e fiz faxina eu mesma, de cima a baixo. O primeiro cliente foi uma escola de gastronomia de uma filha do Antônio Ermírio de Moraes, nos Jardins, que precisava de dois porteiros. Entrevistei os candidatos como se fosse uma empresa gigante. Eles acreditaram e acho que até hoje não sabem que foram os dois primeiros funcionários da história da GSS (risos).

TP_Vinte anos depois, são quantos funcionários e qual é o faturamento?

Hoje somos cerca de mil funcionários, faturando uns R$ 7 milhões por mês. Atuamos em São Paulo e no Rio, em segurança pessoal e patrimonial. Também tenho uma área de serviços em paralelo — recepcionista, controle de acesso, administrativo, limpeza e às vezes entrego tudo junto, num projeto unificado. Pra treinamento, só contrato ex-militar: Marinha, Exército, Aeronáutica. Gente que já vem com disciplina no sangue e que fala a língua do vigilante.

TP_Por que um condomínio grande, ou uma empresa deve escolher a GSS para fazer a segurança?

Porque a gente customiza cada cliente, ponto. Nada de pacote pronto. Eu vou lá, analiso a necessidade, e só depois monto o projeto: “Ah, seu muro tá baixo, vamos subir um pouquinho, colocar concertina, sensor de luz, câmera boa”. Hoje câmera tá baratinha, nem precisa de central de monitoramento. Um vigilante de olho na tela já resolve. Projeto que não é pensado pro cliente específico simplesmente não funciona.

TP_Cada caso é um caso.

Exatamente, é sob medida mesmo. Às vezes, o vigilante tá numa guarita no meio do pasto, perto de uma antena. O problema dele é invasão. De que adianta eu dar curso de atendimento ao público pra esse profissional? Não faz sentido. A GSS não trata cliente como número de carteirinha. Ele tem liberdade de falar com nossa equipe 24 horas, e comigo também, se precisar. Eu nunca desligo o celular. Numa emergência, o cliente me liga direto. E não é discurso de parede bonita, não: fizemos até nossos vigilantes estudarem pra concluir o ensino fundamental, demos notebook, material, tudo. Hoje todo mundo lá tem o fundamental completo. A única que não tem sou eu (risos).

TP_Como vocês lidam com atualização de tecnologia para segurança?

Fico antenada o tempo todo, vendo o que rola lá fora, tipo drone de última geração. A gente já usa drone até pra fazer análise de risco.

TP_Vocês estão preparados, por exemplo, para um incêndio?

Olha, isso é assunto sério e complexo. O bombeiro precisa de treinamento de salvamento em altura, resgate em espaço confinado, equipamento de primeiros socorros de verdade. Se o cliente não tem, a gente já orienta a comprar. Dependendo do tamanho da equipe, até desfibrilador entra na conta e o bombeiro tem que saber operar tudo isso.

TP_Como você posiciona a GSS no mercado?

Somos das mais inovadoras, mas não a maior. E olha que nunca quis ser. A GSS é de nicho: não vamos atender uma rede gigante de supermercado. Nosso lugar é com empresas menores, mas de alto valor agregado, que entendem por que vale a pena pagar por uma segurança diferenciada.

TP_Uma joalheria, por exemplo?

Isso, uma joalheria, um site de logística, um condomínio comercial. É esse o nosso norte: continuar crescendo dentro desses nichos, entregando cada vez mais especialização.

TP_Por força do ofício, a GSS tem muito contato com violência urbana?

Não muito, na real. Segurança patrimonial e pessoal ficam meio de fora desse circuito do dia a dia — o assalto na rua, no ônibus, isso é outra frente.

TP_Ficou mais complicado invadir uma empresa para roubar?

Eu sempre oriento: nada de posto bancário ou caixa eletrônico dentro da empresa, isso é convite pra assaltante. Fora isso, vigilância bem equipada e muitíssimo bem treinada resolve. Treinamento nunca é exagero, esse é meu lema.

TP_A área de segurança é predominantemente masculina. Você teve algum problema nesse sentido? Por exemplo, alguém ralhar: “Quem é essa mulherzinha que manda em 8.500 pessoas?”.

Ah, teve sim! Lembro de uma vez no sindicato patronal, um bando de “dinossauros” batendo papo, e um deles solta: “Poxa, a Graber mandou a secretária em vez de um executivo?” Não fiquei quieta, não: “Sabe quem eu sou? Sou a Cida, da Graber. Me respeite, por favor!” Durante um bom tempo fui só “a Cida da Graber”. Hoje sou Cida Gomes e respeito, viu, não me falta mais (risos).

TP_É verdade que você tem uma adega de vinhos com 450 rótulos?

É verdade! Fui trazendo de viagem em viagem. E, pra não perder o costume de sempre estar estudando alguma coisa, fiz curso de Wine Spirit na Le Cordon Bleu só pra aprender a harmonizar direitinho.

TP_Qual é a maior preciosidade desta adega?

Um Pêra-Manca português, de uma safra rara, poucas garrafas no mundo.

TP_Quais são os novos planos?

A meta é crescer 30% este ano, e estamos no caminho certo. Depois começo a passar o bastão: em um ano, o comando das operações vai pro Diogo, filho do meu sócio Aldair. Meus filhos nunca quiseram saber do cargo, e tudo bem.

TP_Só então você bebericará aquele Pêra-Manca?

Aí sim! (risos) Acho que mereço, né?