Saúde mental entra na rotina com novas abordagens

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25/03/2026

Saúde mental entra na rotina com novas abordagens

Psiquiatra e neurocientista Diogo Lara analisa o avanço de novas abordagens e a integração da saúde mental à rotina

Por Amélia Whitaker

Durante muito tempo, falar sobre saúde mental era quase sempre associado a momentos de crise. Hoje, o cenário mudou. Cuidar da mente passou a fazer parte da rotina de quem busca viver com mais equilíbrio em um mundo cada vez mais acelerado, marcado por excesso de estímulos, pressão por desempenho e pouco espaço para pausas reais.

Nos últimos anos, o tema deixou de ser restrito aos consultórios e ganhou lugar nas conversas do dia a dia. Ansiedade, estresse crônico e esgotamento emocional tornaram-se experiências cada vez mais presentes, e isso fez com que muitas pessoas passassem a olhar para o bem-estar psicológico com a mesma atenção dedicada à saúde física.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, milhões de pessoas no mundo convivem com sintomas de ansiedade e depressão. No Brasil, o cenário não é diferente. A combinação entre ritmo acelerado de vida, hiperconectividade e expectativas sociais elevadas tem ampliado a sensação de sobrecarga mental, além de despertar uma busca crescente por novas formas de cuidado.

Nesse contexto, a ciência tem ampliado a compreensão sobre como emoções, memórias e experiências vividas influenciam diretamente o funcionamento do cérebro. Pesquisas recentes indicam que o sofrimento emocional muitas vezes está ligado não apenas a pensamentos conscientes, mas também a registros mais profundos que permanecem ativos no corpo e na memória afetiva.

Essa mudança de perspectiva tem impulsionado o surgimento de abordagens terapêuticas que procuram atuar na origem das emoções, e não apenas na redução de sintomas. Conhecida por alguns especialistas como a chamada “terceira onda da psiquiatria”, essa nova fase reúne métodos que combinam conhecimento neurocientífico com práticas que estimulam consciência emocional, flexibilidade mental e reorganização de experiências passadas.

O Brasil também participa dessa conversa global. Pesquisadores e profissionais da área da saúde mental vêm investigando caminhos que conectam ciência, autoconhecimento e novas tecnologias terapêuticas.

Entre eles está o psiquiatra e neurocientista Dr. Diogo Lara, que desenvolve pesquisas e abordagens voltadas para a integração entre cérebro, emoções e memória. Com mais de duas décadas de atuação científica e clínica, ele é autor de mais de 160 artigos na área de neurociências do comportamento e integra o grupo dos cientistas mais citados do mundo em sua especialidade.

Uma das propostas desenvolvidas por ele é o INSIDELIC, método criado para acessar conteúdos emocionais que permanecem ativos no organismo e influenciam comportamentos no presente. A técnica combina estímulos auditivos, percepção corporal e condução emocional estruturada para facilitar a reorganização de experiências registradas ao longo da vida.

“Quando a mente encontra um caminho para processar aquilo que ficou suspenso no tempo, o organismo passa a responder ao presente com mais clareza”, explica o médico.

O interesse por abordagens que integram ciência e experiência subjetiva tem crescido em diferentes partes do mundo. O INSIDELIC, por exemplo, foi apresentado no Wonder Summit, encontro que reúne nomes relevantes da saúde mental internacional. A repercussão levou ao convite para a primeira formação do método nos Estados Unidos, prevista para acontecer em 2026.

Essa mudança reflete uma transformação mais profunda no modo como as pessoas entendem o próprio bem-estar. Cuidar da saúde mental deixou de ser um tema distante ou restrito a momentos de crise e passou a integrar o cotidiano de quem busca viver com mais presença, equilíbrio e consciência emocional.

Em um tempo marcado por incertezas e excesso de estímulos, aprender que cuidar da mente também é uma forma essencial de cuidar da vida passou a fazer parte da experiência contemporânea.