São Miguel dos Milagres: o destino para o ano todo
Turismo
20/10/2026
Destino alagoano diversifica experiências e amplia o impacto do turismo na economia local
Por Julia Paiva
Conhecida pelas praias e piscinas naturais, São Miguel dos Milagres, na Rota Ecológica de Alagoas, vem ampliando sua oferta turística com casamentos, gastronomia, novos meios de hospedagem e eventos que atraem visitantes em diferentes épocas do ano. A diversificação dos motivos de viagem também prolonga a permanência dos turistas e movimenta setores como hotelaria, alimentação, transporte e produção de eventos, tornando-o perfeito para visitar em qualquer época.
O movimento acompanha o interesse dos brasileiros por viagens nacionais mais curtas e experiências ligadas à cultura e à gastronomia. Pesquisa encomendada pela Booking.com e realizada em janeiro de 2026 com 32,8 mil viajantes de 34 países, incluindo o Brasil, apontou que 62% dos brasileiros pretendiam fazer mais viagens nacionais de fim de semana naquele ano. Outros 49% planejavam aumentar o número de viagens curtas pelo país, enquanto 41% pretendiam realizar viagens de até uma semana. A pesquisa também identificou que 90% dos brasileiros ouvidos queriam explorar a cultura e a gastronomia dos destinos visitados.
Alagoas acompanha esse cenário. Dados da Amadeus publicados na Revista Tendências do Turismo 2026 indicam crescimento de 19% nas reservas de passagens aéreas domésticas para o estado em comparação com 2025, colocando-o entre as unidades da Federação com maior avanço nesse indicador.
Hotelaria e gastronomia ampliam a oferta


Praias e natureza seguem como os principais atrativos de São Miguel dos Milagres, mas a estrutura turística da região ganhou novas opções nos últimos anos. Um estudo realizado em 2020 pelo ONU-Habitat em parceria com o Governo de Alagoas já destacava a qualidade das águas e a gastronomia entre os pontos positivos do destino. Na ocasião, 89% dos entrevistados afirmaram que recomendariam a região a amigos ou parentes, e 80% disseram que pretendiam retornar nos dois anos seguintes.
A expansão da hotelaria contribuiu para ampliar as experiências disponíveis aos visitantes, inclusive na gastronomia. No NANNAI Milagres, o restaurante TiaTê, aberto também ao público externo, tem cozinha conduzida pelo chef executivo Fernando Pavan. No Mahré Hotel & Spa, o chef Rafa Gomes assina o menu do Tahí, que também recebe clientes mediante reserva. Já na Pousada Zaya, o Zaya Bistrô é comandado pelo chef João Lacerda.
A gastronomia também integra a programação de grandes eventos da região. Wanderson Medeiros, conhecido como Picuí e premiado duas vezes pela revista Prazeres da Mesa como melhor chef do Brasil, assina o bufê da virada no Réveillon dos Milagres.
O interesse pela culinária local acompanha uma tendência nacional. Outro levantamento da Booking.com, divulgado em julho de 2026, mostrou que 90% dos viajantes brasileiros consideram experimentar a gastronomia local uma motivação importante para viajar. Entre os que pretendem incluir programas gastronômicos nos roteiros, 52% querem conhecer estabelecimentos locais pouco frequentados por turistas, e 54% desejam provar pratos pelos quais os destinos são reconhecidos.
Réveillon movimenta a região por vários dias
A atuação da produtora Tamo Junto ajuda a contar parte dessa transformação. Fundada por Maurício Vasconcelos, a empresa iniciou sua relação com São Miguel dos Milagres em 2011, quando ele organizou uma viagem de fim de ano para amigos da faculdade. A primeira edição do Réveillon dos Milagres reuniu cerca de 700 pessoas e, ao longo dos anos, passou a atrair visitantes de diferentes estados.
Quinze anos depois, a atuação da Tamo Junto abrange eventos, casamentos, hospitalidade e projetos socioambientais. A programação do Réveillon também se diversificou: além das festas noturnas, passou a incluir atividades realizadas em diferentes horários, como corrida, ioga, treinamento funcional, beach tennis e futevôlei.
Segundo dados da produtora, as últimas edições das festas reuniram, em média, 3 mil pessoas. Considerando também as demais atividades realizadas durante o período, o público chegou a 6,7 mil participantes. Cerca de 90% dos visitantes vêm de fora de Alagoas, e a faixa etária predominante está entre 30 e 35 anos.
O formato estimula a permanência por vários dias, com circulação entre praias, restaurantes, pousadas e atividades esportivas. Dessa forma, o impacto do evento se estende para além das festas e alcança outros negócios da região.
Casamentos atraem visitantes fora da alta temporada
Os destination weddings também passaram a integrar o calendário turístico de São Miguel dos Milagres. Em 2016, Maurício Vasconcelos e Ramona Zanon construíram a Capela dos Milagres, na Praia do Marceneiro, para celebrar o próprio casamento. Depois da cerimônia, o espaço começou a receber casais de outras partes do país. Em dez anos, mais de 400 casamentos foram realizados no local.
Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em agosto de 2026, com base em estimativas de empresários locais, apontou que São Miguel dos Milagres recebe entre 60 e 70 casamentos por ano. Segundo profissionais ouvidos pelo jornal, os convidados costumam chegar dois ou três dias antes das cerimônias e prolongar a estadia, movimentando hotéis, restaurantes, transporte e fornecedores.

Além de atrair visitantes fora das tradicionais férias de verão, os casamentos mobilizam uma cadeia de serviços que inclui produção, alimentação, decoração e logística. A presença de convidados por vários dias amplia o consumo local e distribui os efeitos econômicos da atividade entre diferentes negócios.
Turismo e geração de renda na comunidade
A ampliação do calendário turístico também tem reflexos na economia local. De acordo com dados de Business Intelligence da Tamo Junto, os projetos da empresa atraem mais de 20 mil pessoas por ano à Rota Ecológica dos Milagres e movimentam aproximadamente R$ 200 milhões anuais, com cerca de 2,9 mil moradores impactados direta e indiretamente.
Mais de 80% da mão de obra empregada nos eventos é formada por profissionais da região, e 68% desse contingente é composto por mulheres. A atividade alcança pousadas, casas de temporada, restaurantes, motoristas, fornecedores e equipes responsáveis pela organização de eventos e casamentos.
O crescimento, porém, também exige atenção à infraestrutura e à preservação ambiental. O estudo do ONU-Habitat e do Governo de Alagoas, realizado em 2020, identificou desafios relacionados à conservação dos espaços públicos, ao transporte e à mobilidade urbana. O levantamento ressaltou a importância de conciliar o desenvolvimento turístico com a preservação das características naturais que atraem visitantes à região.
Nesse contexto, a Tamo Junto criou, em 2016, o Instituto Tamo Junto, voltado à formação profissional, à geração de renda e ao desenvolvimento de projetos comunitários. Segundo a organização, mais de 3 mil moradores já participaram de treinamentos e capacitações, com impacto direto sobre mais de 2,5 mil pessoas.


Entre as iniciativas está o AMAR, projeto de casamento comunitário realizado na Capela dos Milagres. Em cinco edições, mais de 80 casais da região oficializaram suas uniões no espaço.
A diversificação da oferta turística posiciona São Miguel dos Milagres para além das viagens concentradas no verão. Casamentos, eventos, gastronomia e hospedagem ampliam as razões para visitar a região ao longo do ano e reforçam a importância de integrar o crescimento do turismo à infraestrutura local e à preservação ambiental.