Susana Kakuta, empreendedora e sócia-fundadora da Startup Academy sobre os desafios de converter educação em PIB
Por Redação
A produtividade no Brasil enfrenta desafios críticos, especialmente no setor de serviços, que constitui um terço do nosso PIB. Entre 2010 e 2023, a produtividade por hora trabalhada cresceu apenas 0,3% ao ano. No setor de serviços, essa taxa chegou a cair 0,3%, refletindo um cenário preocupante para um país que levanta a bandeira do crescimento econômico sustentável.
Entendo que a chave para reverter essa situação está na educação com foco na qualificação tecnológica da nossa força de trabalho. O aumento da eficiência e da competitividade depende fortemente da capacidade dos trabalhadores de utilizar tecnologias avançadas e de inovar continuamente: para isto ser uma verdade, a educação no Brasil tem que evoluir. Um estudo realizado pela Universidade de Stanford, em 2022, indica que se os países da América Latina garantissem que todos os estudantes alcançassem o nível básico de proficiência no Pisa, os ganhos em PIB para a região ao longo do século XXI somariam US$ 76 trilhões.
Esta situação se repete nos diferentes setores econômicos. Empresas de tecnologia, que são predominantes no setor de serviços, necessitam de profissionais altamente qualificados para desenvolver soluções inovadoras e otimizar processos. Mas o necessário aumento da produtividade se estende aos setores tradicionais da economia brasileira, sob pena da desindustrialização ou mesmo da venda continuada de commodities no setor agro.
Se nos anos 1980 um trabalhador brasileiro alcançava 46% da produtividade de um norte-americano, hoje ele produz apenas um quarto (25,6%). Essa diferença extrema é um reflexo das ineficiências no uso de tecnologia, do ambiente de negócios e dos baixos indicadores da educação no Brasil.
Países importantes como a Alemanha se ergueram com base no ensino técnico, já a China e a Coreia apostaram fortemente no motor da educação superior. Nesse sentido, instituições educacionais devem focar em currículos que integrem tecnologias emergentes, habilidades digitais e inovação para elevar a produtividade da próxima geração de profissionais. A Inteligência Artificial, por exemplo, está promovendo uma verdadeira reconfiguração das atividades, em que mesmo as profissões mais braçais terão boa parte das tarefas repetitivas convertidas em estratégicas.
No Brasil há diferentes contingentes que estruturalmente estão excluídos da força produtiva e que, portanto, necessitam de forma urgente do resgate de sua cidadania plena: Isto impacta a produção de PIB nacional. Jovens representam cerca de 25% do total da população nacional e enfrentam a dificuldade de inserção seja pela falta de formação para o trabalho, especialmente formação técnica, seja pela baixa oferta e competição no mercado de trabalho; 5 milhões de adultos desalentados buscam emprego a mais de 2 anos sem sucesso e enfrentam o descompasso entre competências adquiridas e as novas exigências no mundo do trabalho; e aqueles de alta vulnerabilidade que, sem formação nenhuma, simplesmente já não acessam mais o mercado de trabalho e não participam da produção nacional.
A educação precisa estar alinhada com as demandas do mercado de trabalho, preparando os profissionais não apenas para ocuparem posições existentes, mas também para criarem novas oportunidades.
Investir em educação superior e qualificação tecnológica não é mais uma questão de opção política para o futuro do Brasil, trata-se de uma questão de sobrevivência no contexto global. Por isso, transformo o meu mantra em um convite a você, leitor: vamos converter educação em PIB?
*Susana Kakuta, empreendedora e sócia-fundadora da Startup Academy