Sucesso internacional
Entrevista
16/04/2026
A Artefacto, de Paulo Bacchi, completa 50 anos com muito a comemorar. Incluindo a ampla clientela nos Estados Unidos
Por Silviane Neno
Aos 58 anos, Paulo Bacchi está em sua melhor forma. O shape de atleta é mantido com o atual hobby esportivo: a bicicleta. Seja na Fazenda Boa Vista, refúgio de descanso da família quando está no Brasil, ou nas ruas de Miami, onde mora há 25 anos, é no pedal que ele produz adrenalina. Já foi do triatlo, campeão no tênis, entre outros esportes, mas a melhor performance, sem dúvida, foi transformar a empresa criada pelo pai, Albino Bacchi, em uma potência internacional.
No ano em que a Artefacto completa 50 anos, Paulo Bacchi comemora o sucesso da marca de fábrica e comércio de móveis construída com inovação no design, responsabilidade ambiental e sobretudo credibilidade em qualidade e sofisticação. Há mesmo muito o que festejar: a ampliação da flagship da rua Haddock Lobo, em São Paulo, que dobrou de tamanho, a abertura de uma loja em Nova York, no coração da Madison Avenue, e a recente entrada no mercado imobiliário. Já são 12 prédios residenciais assinados pela Artefacto no Brasil inteiro.
Nesta conversa com THE PRESIDENT, Paulo Bacchi também fala do forte aquecimento do Real Estate em Miami, um mercado que vive um novo ciclo de valorização, atraindo novos, e poderosos, residentes como Mark Zuckerberg (Meta) e Jeff Bezos (Amazon). “Miami já não é apenas Estados Unidos”, proclama.
“Tornou-se um hub internacional. A cidade cresceu e se consolidou como um dos melhores lugares do mundo para se viver.” Enquanto isso, Bacchi prepara a sua saída estratégica da empresa. Daqui a dois anos, passará o bastão para os filhos, Pietro e Bruno, que já estão à frente da loja e da operação da Artefacto em Nova York.
THE PRESIDENT – O ano de 2026 é importante para a Artefacto?
Paulo Bacchi – Sim, é o ano que celebramos os 50 anos da empresa, um ano de várias realizações.
Como foi a preparação para os festejos?
Planejei uma expansão muito grande para a Artefacto. Começando por dobrar a nossa flagship da Haddock Lobo, em São Paulo, reinaugurada em 5 de março. No primeiro semestre de 2026, aumentaremos também a nossa loja do Rio de Janeiro, a de Florianópolis, e também a de Balneário Camboriú. Mas o marco principal foi a abertura da nossa loja da Madison Avenue, em Nova York.
Como está a loja de Nova York?
A loja faz muito sucesso. Meus filhos, Pietro e Bruno, lideram o projeto. Foi a última coisa que o meu pai viu, na parte de business. Ele entrou lá na loja, cumprimentou e viu os netos deles abrindo uma loja na capital do mundo. A loja que ele sempre quis ter, a loja de Nova York.
Como seus filhos foram preparados para esse desafio?
Eles são preparados desde que nasceram. Meu pai falou: “Solta, que eles estão bons”. Desde que a loja abriu, em setembro de 2024, fui somente duas vezes para Nova York.
É um mercado bastante competitivo. Como tem sido a resposta?
Em outubro do ano passado eles me chamaram para uma reunião na qual me informaram o desempenho da loja no primeiro ano. Tiveram lucro no mercado mais competitivo do mundo. Isso é resultado de muitos anos de treinamento, muitos anos de conversa. Eles me viram trabalhar, viram o avô trabalhar. Então, me deu muita satisfação. Somos italianos, né? Choramos, abraçamos os filhos, etcetera e tal.
Bruno e Pietro são gêmeos idênticos. Os talentos também são?
Eles têm características distintas. O Pietro tem muito talento na área de vendas, de marketing, de produto. Já o Bruno na parte de estratégia, de logística, de finanças. Os dois se completam. Eles foram para Miami com 5 anos, há 25 anos.
Você tem planos de sair da empresa, como fez o seu pai?
Daqui dois anos eu vou sair da empresa, vou completar 60 anos e passarei o dia a dia pros dois, eles serão co-CEOs. Ficarei no Conselho, passando um pouco da minha experiência.
Seu pai também se retirou aos 60?
Sim, aos 60.
Qual a importância dessa renovação?
É muito importante uma geração nova entrar na empresa, porque ela se relaciona melhor com a geração atual. Fui importante para a Artefacto, atualizei a empresa. Sou de uma geração ainda da era analógica, eles já vieram da geração digital.
E a entrada da Artefacto no mercado imobiliário, como aconteceu?
Eu vi esse movimento acontecendo em Miami, as pessoas convidando Porsche, Armani e Fendi para assinar projetos imobiliários. Por que não a Artefacto? Somos a única dessas empresas que está na atividade de design de interiores. Fizemos a primeira experiência em Balneário Camboriú, a Artefacto Towers by CK, na Praia Brava, com 230 unidades, vendidas em 30 dias. Aí entendi a força da marca. As pessoas sabem que a assinatura Artefacto remete a qualidade, atemporalidade, responsabilidade e elegância.
Qual é o diferencial de comprar um apartamento Artefacto?
Muitas pessoas que compram um prédio por catálogo, quando vão receber ficam desapontadas. Nosso comprometimento é que seja entregue como foi prometido, porque nosso nome está ali, que é a coisa mais importante que a gente tem. Eu utilizo meu exército de designers e decoradores, e eles vendem os apartamentos Artefacto para os seus clientes. Antes de a gente lançar no mercado, fazemos um Family and Friends, onde os arquitetos apresentam para os seus clientes o novo prédio Artefacto, com um preço especial.
Os arquitetos ajudam a vender?
Eles vendem esses apartamentos para os seus clientes habituais. Então, é um in situation. A Artefacto tem muito sucesso há 50 anos por uma coisa que se chama credibilidade. Você nunca vai ver uma pessoa falando mal da empresa porque atrasou, porque não foi correto, deu um problema, não arrumou.

Vocês têm saído na frente da concorrência nos EUA porque conseguem entregar em menos tempo, certo?
Quando abri a Artefacto em Miami, há 24 anos, fiz uma pesquisa de mercado para entender como é que eu poderia ser diferente dos meus concorrentes locais. Eles levavam três, quatro meses pra entregar. Vou oferecer também os móveis. Quando estava abrindo a primeira loja, em Coral Gables, multipliquei o showroom por cinco e aumentei o depósito. A Artefacto aumentou o depósito para realizar entrega em duas semanas. Inaugurei com a frase: “Two weeks delivery, elegance in stock”. Desde o primeiro mês foi um sucesso.
Vocês têm depósitos em Nova York também?
Eu uso o de Miami. É a distância entre São Paulo e Salvador. Entrego de um dia para o outro. Saquei que a nossa concorrência não tinha como mobiliar apartamentos e casas prontos com a mesma qualidade e rapidez.
A ideia é vender casas e apartamentos já decorados nos EUA?
Os investidores fazem um acordo com a Artefacto, a gente entra com um trio de designers para fazer toda a decoração da residência, entra com os móveis e os produtos. Tivemos mais de 7 mil casas e apartamentos vendidos nos últimos 15 anos nesse sistema, que chamamos de staging. É um espetáculo, porque o cliente olha, fica apaixonado e fala assim: “bora que dá pra dormir aqui ainda hoje”.
Tornou-se uma tendência de mercado?
No marketing de luxo, cada vez as pessoas estão com menos tempo, todo mundo é atarefado. Entre comprar um apartamento branco, sem piso, elas acabam adquirindo um inteiramente acabado, mobiliado pela Artefacto. É um sucesso, principalmente em Miami e Nova York. No Brasil a gente está entrando com esse modelo em Curitiba. Já fizemos oito apartamentos de 400 metros quadrados, vendidos em apenas um mês.
Qual é a maior diferença entre o público brasileiro e o americano?
Não vejo muitas. O nível cultural hoje das pessoas está muito similar. A internet trouxe isso. Talvez não a escolaridade, mas trouxe a informação. As pessoas sabem o que é bacana em Paris, em Nova York, com um toque de botão. Antigamente você tinha que ter dinheiro para viajar, ter a experiência ao vivo. Hoje qualquer pessoa — mais curiosa sobre decoração de interiores contemporâneos — tem uma vasta biblioteca digital pra ver o que que é atual.
O bom gosto se globalizou?
Sim, e o mau gosto também. Mas o mais importante é que a informação foi globalizada. Antigamente se falava que indiano tem um gosto, americano tem outro, brasileiro idem. Hoje, ficou tudo muito parecido. A pessoa entende o que é legal em lifestyle, que engloba moda, decoração, música, arte contemporânea. As diferenças hoje são basicamente geográficas. Nova York tem um clima de neve, um clima mais complicado, o Brasil um clima tropical. Além disso, tem apartamentos menores. As diferenças são mais geográficas do que culturais. Em Nova York, opta-se por cores mais escuras. Tem a ver com o cinza do tempo. Em Miami e no Rio de Janeiro é uma geografia de céu azul, que combina com cores mais claras.
Como define o DNA da marca e qual foi a principal mudança nesses 50 anos?
Acho que o nosso DNA vem da história da sartoria, do fatto a mano, do artefato, né, aquela coisa que a gente precisa do artesão para o produto sair. A Artefacto começou há 50 anos fazendo móveis de fibras naturais, que precisavam de artesãos que fabricavam esses móveis de vime, ratan, na Índia. O estilo e os produtos mudaram. Lógico, com a tecnologia, hoje você corta o tecido com mais rapidez, faz as estruturas em menos tempo, mas no final depende da qualidade de um bom artesão, como um bom alfaiate, para você dar os acabamentos no sofá, na poltrona, na cadeira. Não é nada diferente de fazer um terno. A Artefacto manteve o DNA, mas foi evoluindo com o mundo.
Como você contribuiu para essa evolução?
Meu pai criou a empresa em 1976. Tinha um estilo que era a cultura dele na época, um pouco mais clássico. Eu cheguei com uma pegada mais contemporânea, porque era a minha formação. É por isso que eu faço questão de passar o bastão para os meninos, porque eles vão colocar na empresa a nova informação da nova geração, mais atualizada. Senão a empresa fica velha. Queremos a empresa sempre jovial.
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A sustentabilidade é uma preocupação da marca?
Lógico, muito. Temos um trabalho muito bonito na fábrica, não usamos mais plástico. A embalagem é toda de papel, um produto mais facilmente reciclado, menos agressivo. As nossas madeiras eram de floresta. Hoje são 100% de reflorestamento. Mas o mais importante é que a gente faz um trabalho de plantio de árvores. Plantamos mais de 10 milhões de árvores nesses últimos 30 anos. Além disso, a Artefacto se tornou, em outubro de 2024, a primeira empresa do mundo no segmento de mobiliário e decoração a receber o Selo de Biodiversidade do Green Building Council (GBC) Brasil.
Em que momento a Artefacto deixou de ser uma empresa de mobiliário e passou a ser uma plataforma de lifestyle?
Quando abrimos em Miami. Logo que comecei a receber informações globalizadas fui passando para as nossas lojas do Brasil. Miami é um centro de compras da América Latina inteira e, também, um hub para a Europa.
E essa experiência de viver fora, você se sente em casa?
Desde o primeiro dia em que passei a morar em Miami eu me senti em casa. É uma cidade internacional. Está dentro dos EUA, mas não segue uma cultura americana. A noite pertence aos franceses, aos italianos. A arte vem dos ingleses, das galerias de arte. Depois da Art Basel, Miami deixou de ser um balneário para se tornar, talvez, a cidade mais interessante de morar no mundo hoje. Nos últimos seis meses, os grandes donos de empresa de tecnologia se mudaram para Miami. O Marc Zuckerberg, da Meta, acabou de se mudar para lá.
Quem mais?
O Jeff Bezos, já há mais de dois anos, os donos do Google. Já o Mark Zuckerberg comprou uma casa de US$ 200 milhões. A Flórida é um estado muito proativo, muito pró-empresário. Os estados democratas americanos infelizmente têm uma cultura que é contra o desenvolvimento. Querem taxar os bilionários, os grandes fazedores de empregos. Esses bilionários, por sua vez, saem de Nova York, de Chicago e da Califórnia. Vêm morar na Flórida. Miami tem agora centenas de casas de US$ 100 milhões.
Um mercado aquecido para quem vende móveis de luxo…
Quem movimenta o grande negócio não é o bilionário. Este movimenta um terreno, uma casa. Acontece que os bilionários mudam o quartel-general deles para Flórida e trazem 30 ou 40 grandes executivos, que não são bilionários, mas são milionários. São eles que giram a economia. Eles põem os filhos na escola, compram uma casa legal, criam um mercado de residente, que realmente aumenta a economia.
Em que região da Flórida esses novos moradores têm se instalado?
Uma região muito forte é Coral Gables, onde abri a primeira loja. A maioria foi para lá por causa das escolas. Esse pessoal de tecnologia é todo jovem e tem filhos pequenos. O Jeff Bezos, o Mark Zuckerberg, e o pessoal da Google, todos foram pra uma ilha privada que se chama Indian Creek, perto do Bal Harbour, por causa da privacidade e exclusividade do lugar.
Qual é o grande marco da Artefacto nesses 50 anos?
Foi ter levado uma marca brasileira de ponta para o exterior e provar que a gente está no mesmo nível ou melhor que os nossos concorrentes italianos. Fomos para Flórida, o maior mercado de bio state dos EUA, e viramos o mercado. Nosso faturamento hoje é igual ou superior a todos os italianos juntos. Isso é o grande marco, levar o nome de uma marca brasileira para fora, provar que isso pode ser feito. Depois da Artefacto, muitos seguiram nosso caminho. Foi muito importante para o mercado brasileiro e do design.
O Brasil era muito relevante no que se refere a arquitetura, por causa dos arquitetos modernistas, do Oscar Niemeyer, entre outros. De uns anos para cá, o Brasil também se tornou referência mundial no design de produtos — e muito dessa conquista se deve à Artefacto. Nós ajudamos o design brasileiro a se tornar mais respeitado.