O futuro da mobilidade está na experiência
Artigos
04/09/2026
A nova mobilidade chinesa aproxima automóveis, tecnologia e serviços para criar uma experiência de consumo cada vez mais integrada
Por Lutti Colautto*
Vim à China para olhar para carros, acompanhando uma imersão de um cliente do setor no ecossistema automotivo chinês, com visitas a fábricas, centros de inovação e novos produtos. Mas, depois de alguns dias entre Guangzhou e Liuzhou, percebi que seria um desperdício olhar para essa experiência apenas pela ótica do automóvel. O que está acontecendo aqui diz respeito a algo maior, a transformação da relação entre tecnologia, marcas e consumidores.
A China não está simplesmente eletrificando o carro, está reposicionando o automóvel dentro da vida das pessoas. Uma das imagens que mais me chamou a atenção foi encontrar carros expostos dentro de lojas de tecnologia, ao lado de smartphones, televisores e soluções para casas conectadas. Não é apenas uma mudança de endereço. É uma mudança de jornada.
Quando o carro sai da concessionária e entra no ambiente cotidiano do consumidor, a relação com o produto começa antes da intenção de compra. O automóvel passa a ser descoberto durante um passeio, enquanto alguém conhece um novo celular ou uma tecnologia para a casa. A fronteira entre automóvel e tecnologia desaparece e o carro deixa de ser uma categoria isolada e passa a fazer parte de um ecossistema.
Essa transformação ajuda a entender por que empresas de tecnologia estão avançando sobre a mobilidade. Companhias como Xiaomi e Huawei construíram sua relação com o consumidor a partir de dispositivos conectados e agora ampliam essa presença para outros momentos da vida. O celular é uma peça, a casa conectada é outra, a inteligência artificial é outra e o carro passa a ser mais uma interface. É uma lógica que remete ao que Steve Jobs e a Apple compreenderam, o valor de um produto também está na experiência integrada que ele proporciona quando conversa com outros produtos, serviços e conteúdos.
O carro passa a ser um dispositivo conectado sobre rodas e isso muda a definição de concorrência. No futuro, talvez uma montadora não dispute apenas espaço com outra montadora, mas a relação com o consumidor com empresas de tecnologia e plataformas que já fazem parte de sua rotina digital.
Para o marketing, essa mudança é especialmente relevante. A próxima fronteira da indústria parece estar na capacidade de transformar atributos como conectividade e eletrificação em uma experiência contínua em que o consumidor não quer necessariamente mais tecnologia, ele quer menos fricção e que o carro converse com seus dispositivos, integre seus serviços e torne sua vida mais simples. E é essa integração é o que transforma tecnologia em experiência.
Talvez esse seja um dos grandes aprendizados da China, onde a tecnologia parece menos associada ao luxo ou ao diferencial e mais próxima da ideia de infraestrutura. A gente vê isso presente no pagamento, no transporte, no comércio, na comunicação, na casa e, cada vez mais, na mobilidade.
Durante décadas, associamos a China à fábrica do mundo e à produção em escala. Hoje, essa visão já não é suficiente. A China que conheci nesta viagem é também uma China de engenharia, design, inteligência artificial, software, baterias e experiência de consumo. Existe uma diferença enorme entre produzir aquilo que alguém desenhou e começar a desenhar aquilo que outras pessoas poderão desejar.
Alguns dos veículos que conhecemos chegarão ao Brasil e junto com eles, provavelmente chegará uma nova expectativa do consumidor. Depois de experimentar um automóvel integrado à sua vida digital, será cada vez mais difícil convencê-lo de que conectividade é apenas um opcional. Depois de experimentar uma jornada de compra mais fluida, será difícil fazê-lo aceitar processos excessivamente burocráticos.
É assim que os mercados mudam, não necessariamente quando uma nova tecnologia aparece, mas quando uma nova experiência se torna o padrão esperado. Por isso, talvez estejamos fazendo a pergunta errada ao discutir o carro do futuro. Em vez de perguntar apenas “como será o carro?”, deveríamos perguntar em qual ecossistema esse carro vai existir e qual papel ele terá na vida do consumidor? Essa é uma das principais provocações desta viagem.
A China não está apenas tentando construir o carro do futuro, ela vai além ao construir o ecossistema no qual esse carro vai existir. E, se essa visão se consolidar, a transformação poderá mudar a maneira como compramos, nos deslocamos, consumimos tecnologia e nos relacionamos com marcas.
* Lutti Colautto é publicitário, empreendedor e CEO da lampada.ag