Proprietário de Parte da CNN Brasil, sócio de diversas rádios e fundador de uma empresa que promove o diálogo entre empresários e políticos, João Camargo é o nome conciliador na lista de contatos de brasileiros influentes
Por Nina Gattis
Retratos Germano Lüders
Há quem possa afirmar ter nascido com veia política. O empresário João Camargo, 62 anos, pode ir além: também nasceu com sangue político. O quanto isso pode impactar a trajetória de vida de uma pessoa? Depende das escolhas de cada um. No caso de Camargo, muito.
Filho de José Camargo, um deputado influente do século passado, ele foi, entre os irmãos, a criança que mais se encantou pelo trabalho do pai. Rodeado por parlamentares desde a infância, pôde ver de perto os bastidores do poder. Apesar de não ter seguido exatamente os passos do pai, seu cérebro empreendedor disputa espaço com o coração, que bombeia sangue político. Camargo é um articulador nato. Não à toa, tornou-se sócio de grandes veículos de comunicação, com destaque para a CNN Brasil – da qual ele revela, nesta entrevista, ser dono de uma generosa fatia. Também é fundador da Esfera Brasil, um think tank esculpido à sua imagem – representa os geradores de emprego e renda na interlocução com os tomadores de decisão da República.
João Camargo – Quando eu nasci, meu pai já era político, assessor do senador Lino de Mattos e, depois, foi secretário de Assuntos Jurídicos de Osasco (SP). Em 1970, quando eu tinha 9 anos, ele se candidatou a deputado federal pelo MDB, o partido que ajudou a fundar e representava a oposição. Ganhou. Eu era vidrado no meu pai. Acompanhava, nos fins de semana, as visitas dele pela região de Osasco, Carapicuíba, Itapevi, Jandira e Barueri. Às vezes, ele nem queria me levar, mas eu me escondia na parte de trás do carro, no assoalho do Opala quatro portas que ele tinha. Eu só saía do esconderijo quando a gente já estava em Osasco. Foi com ele que eu vi como, no mundo político, é preciso ouvir muito. O Congresso Nacional é uma pluralidade de ideias. São várias propostas, e a que tem a aprovação da maioria dos parlamentares sai vitoriosa. Outras personalidades políticas, além do seu pai, faziam parte do seu dia a dia? Muitos deputados frequentavam a minha casa. Quando meu pai ia à casa de Ulysses Guimarães aqui, em São Paulo, eu adorava ir junto. Achava Ulysses uma figura muito respeitosa. Ele era conhecido por defender eleições diretas e foi considerado o fiador da redemocratização do país. Em 1974, quando eu tinha 13 anos, Orestes Quércia se elegeu senador. Eu me encantava quando ele dizia que municípios mais fortes teriam um desenvolvimento melhor, já que a arrecadação de impostos ia principalmente para a União e, ainda que menos, para os estados, enquanto os municípios continuavam muito carentes. Quando ele se elegeu, em 1974, foi uma vitória pessoal para mim.
Meu pai fundou a primeira rádio em 1984. Tinha 57 anos e ainda atuava na política. Na época, ele concorreu, no Ministério das Comunicações, a uma licitação para uma rádio de ondas médias em Osasco. Não era nem FM. A partir daí, passou a adquirir rádios, seja por compra, seja por meio de concessão, e fundamos a 89 FM, que é a rádio rock, a Alpha FM e a Nativa FM. Recentemente, compramos a Rádio Disney. E somos sócios da família Saad na BandNews FM. Assim foi crescendo esse grupo de comunicação, que chamamos de GC2, Grupo Camargo 2. Quanto ao número, vou dizer que eu sou muito ligado a essas coisas cabalísticas. O número 8 representa o infinito, e o número 9, muita energia. Como a 89 foi a primeira rádio FM que a gente teve, esse número acompanha a vida da família. As rádios são uma herança deixada pelo meu pai. Sou apenas sócio dos meus irmãos. Como eu nunca quis trabalhar diretamente nesse ramo, montei meus próprios negócios e fiz um Family Office, a 89 Investimentos, mantendo o número, que hoje é gerida pelo meu filho, João Pedro.
Antes de participar da campanha de Jânio Quadros, depois que eu terminei a faculdade de Administração e Negócios, montei a Pool Agência de Viagens, que era um naming right do Jeans Pool, marca da Riachuelo, do meu amigo Flávio Rocha. Ele fazia uma grande campanha para a marca em 1984 e 1985. Para você ter uma noção, na época, eu trouxe o presidente da República, o General João Figueiredo, para inaugurar minha agência no Hotel Ca’d’Oro. Naquele mesmo ano, comecei a fazer a campanha de Jânio para prefeito de São Paulo. Como eu era muito ativo – chegava à casa dele às 4h30 da manhã e saía às 22 –, ele sempre me perguntava: “Qual papel você quer exercer?”. Eu dizia que tinha uma agência de turismo e era apaixonado pela Paulistur. Jânio disputava a eleição com Fernando Henrique e acabou ganhando. Uma vez eleito, extinguiu a Paulistur. Achava que era um cabide de empregos – e era mesmo. Em substituição, criou a Anhembi, bem mais enxuta, e começou a escolher seu secretariado. Meu nome não saiu como secretário do Turismo, e pensei: “Bom, normal. Foi uma desilusão política”. Na hora de anunciar seu último secretário, o principal, o secretário de governo, ele me convidou. Jânio tomou posse no dia 1o de janeiro. Na madrugada, tive uma forte crise de bruxismo e quebrei os dentes de tanta ansiedade. Mas foi uma grande experiência. Não fiquei até o fim do mandato. Saí com dois anos. Depois, o Quércia, já como governador, me chamou para ser vice-presidente da Viação Aérea São Paulo, a VASP.
Em 1988, eu me casei com a Aninha, minha esposa até hoje. O pai dela é Dilson Funaro, ministro da Fazenda durante o governo Sarney. Em 1989, participei ativamente da campanha de Fernando Collor contra Lula. Eu era presidente do MJB, o Movimento da Juventude Brasileira. Abri um comitê grande para Collor na Avenida Brasil, em São Paulo, e fizemos uma campanha intensa. Isso me aproximou da economista da campanha do Collor, Zélia Cardoso de Mello, que havia trabalhado com o Funaro. Nós tínhamos um respeito e um carinho grandes por ela. Eu estava com 28 anos, mas já conhecia muitos empresários. Levei a Zélia para conhecer os presidentes da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), do Bradesco, do Itaú. Ela foi escolhida para o Ministério da Fazenda e me convidou para ser seu assessor parlamentar. Fiquei até o fim de sua gestão. Depois da Zélia, durante 28 anos, de 1991 a 2019, fui fazer meus voos solos e empreender.
Eu já tinha o plano de fazer alguma coisa pelo Brasil, mas, quando meu pai morreu, em janeiro de 2020, isso se tornou uma missão. Trabalhei muito na construção da Esfera, que ganhou o tamanho que merece ter. Só não pensava que em menos de três anos tomaria essa proporção. Eu imaginava que isso demoraria uns 15 anos. Já temos muito respeito entre as autoridades. Quando peço uma audiência com o ministro Fernando Haddad ou ligo para ele, ele me atende. Sabe que vou levar sempre alguma coisa pensando no desenvolvimento do Brasil. O mesmo acontecia com o governo anterior. Tivemos a credibilidade, por exemplo, do ministro Paulo Guedes, e seguimos tendo até hoje a confiança do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e dos presidentes Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, da Câmara e do Senado.
Sim, e eu acho isso bom e ruim ao mesmo tempo. Mas uma coisa é fato: a Esfera vai perdurar mesmo sem mim. Afinal, a luta do Brasil já dura 500 anos e vai continuar existindo. Torço para que a Esfera se perpetue como um elo entre os empresários e o governo, para buscarmos caminhos alternativos e melhores para o país. Precisamos de muita transparência, credibilidade, relevância e, o mais importante, muito trabalho. Eu trabalho 18 ou 19 horas por dia. Mas isso não bastaria se não soubesse me comunicar. Aprendi com Jânio que um líder não pode falar com o consciente das pessoas. O certo é falar para o inconsciente. É o trabalho de decifrar, ouvir, perceber insights, dizer algo que prenda a atenção do interlocutor. Na Esfera, esse tato é uma das etapas mais importantes. Imagine que um jantar fechado da Esfera chega a reunir 20 dos maiores empresários do país. É preciso talento até para decidir como dispor os lugares na mesa. Isso é arte.
Deixa eu explicar, porque talvez as pessoas não entendam a minha relação com a CNN. Eu comprei 30% da CNN Brasil. Sou sócio do Rubens Menin, o principal shareholder, que tem os outros 70% e é um parceiro sensacional. Quando ele quis trazer a CNN, não entendi, porque exigia muito trabalho e o Rubens tinha outras companhias muito bem-sucedidas e lucrativas, como a construtora MRV e o Banco Inter. Ele me explicou: “João, eu sinto que devo alguma coisa ao meu país. Como faço muita filantropia, agora também quero prover às pessoas que tomam decisões, aos microempresários, boas informações, e não fake news”. É por isso que eu prezo tanto a CNN.
É difícil. É uma experiência que me consome muito. São 19 horas ao vivo todos os dias, o que demanda muita atenção e tempo. Sou o Executive Chairman. Tenho uma rotina diária de trabalho presencial. Mas vale a pena porque a CNN é séria, relevante, e está conseguindo crescer em uma mandala gigante. Somando todas as plataformas, falamos com 45 milhões de pessoas por mês. São quase 17 milhões mensalmente só pelo YouTube. Desde que você assumiu como Chairman, surgiram novidades no canal, como o lançamento do sinal aberto, a maior dedicação aos bastidores de Brasília e os acordos com grandes empresas. Essas mudanças melhoraram os negócios? Com certeza. O negócio hoje é saudável, e a CNN está presente em todas as mídias. É fato que demos uma relevância muito maior a Brasília, tanto que reduzimos colaboradores em São Paulo e aumentamos o número de pessoas trabalhando na capital do país. Lá, passamos a receber muito mais entrevistados ao vivo por dia. Além disso, lançamos o primeiro jornal diário ancorado em Brasília, o Bastidores CNN. Quanto aos negócios, tenho que mostrar aos empresários como é relevante associar suas marcas à CNN. Temos alguns concorrentes de hard news que se posicionam bem mais à esquerda ou bem mais à direita, enquanto a CNN é imparcial e, portanto, a melhor opção para os anunciantes.
O importante não é só evitar a informação errada. Também é combater as fake news. A CNN é o único canal de imprensa no Brasil que tem tripla checagem. Além de ouvirmos os dois lados da notícia, também fiscalizamos se demos o mesmo tempo de tela a ambos. Isso traz mais custo, mas também agrega imparcialidade e credibilidade. Desde a fundação no Brasil, a CNN não teve sequer um caso de divulgação de fake news.
Camila não foi a escolhida por ser minha filha. Ela tem vocação para esse trabalho. Acredito que a esfera, nas mãos dela, vai superar o que eu teria feito. Ela tem muita facilidade para se comunicar, mais do que eu. Camila se atualiza com facilidade. Assumiu o cargo porque está preparada para o desafio. É melhor do que eu no que faz. Assim como João Pedro, meu filho, que já demonstrou ser melhor do que eu para a 89 Investimentos. No fim do dia, só fiscalizo as contas e não me meto na estratégia deles.
Lula ajudou muito. Ele está preocupado com a floresta amazônica, com a descarbonização, com a crise climática. Voltei recentemente de Paris, onde fizemos o primeiro Fórum Esfera Internacional, e é impressionante como todo mundo voltou a falar bem do Brasil. O governo anterior não cuidava da nossa imagem. Cheguei a ter problemas para realizar o evento na França, porque o presidente Macron teve sua mulher ofendida pelo ex-presidente. Vejo que o ministro Haddad está impondo uma segurança relevante no eixo chamado de “Faria Lima”, que compreende toda a classe produtiva do Brasil. Ele tem sido muito técnico e construtivo. Sentimos confiança para continuar investindo.
Com essa reforma tributária aprovada, alcançaremos o que a gente quer: crescer. Não importa se o governo é progressista ou liberal, vamos finalmente tirar um nó de crescimento gigante. E teremos de fazer a reforma administrativa e a reforma política. Não tem jeito. Apesar de Lula não querer, vou estimular que o Congresso Nacional faça um projeto de lei da reforma administrativa. Não podemos ter, por exemplo, professores de escolas municipais que não sejam reciclados. Acho um absurdo. É ruim para o profissional e a população. Tenho conversado com Rodrigo Pacheco e dito que, depois da tributária, a Esfera vai empenhar a bandeira da reforma administrativa e depois a bandeira da reforma política. É preciso ter no máximo de cinco a oito partidos. É impossível fazer um acordo com 28 líderes para dar celeridade a votações importantes. Quanto às outras fases da reforma tributária, como a reforma da renda, podem ficar para depois da aprovação dessas três. Para mim, a ordem de importância é: reforma tributária do consumo, reforma administrativa, reforma política e, em quarto lugar, reforma tributária da renda.
A minha relação com o presidente é de total transparência e imparcialidade. Eu me dou muito bem com os integrantes do governo. Eles sabem das minhas boas intenções. Assim como também me dou bem com figuras não alinhadas ao atual governo, como o senador Ciro Nogueira e o governador Tarcísio de Freitas. Eu sou pró-Brasil.
Não tenho nenhuma aspiração a cargo público. Prefiro continuar unindo o privado e o público para melhorar o Brasil.