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na casa dos trilhões

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Na casa dos trilhões

Nuno Lopes Alves, country manager da Visa no Brasil, fala das inovações que levaram os cartões de pagamento a movimentarem 1 trilhão de reais por trimestre no país

Por Luiz Maciel

Retratos Germano Lüders

Cinco anos atrás, as transações digitais respondiam por cerca de um terço dos pagamentos no país. Hoje, elas são responsáveis por 60% de todas as operações de compra e venda, destaca Nuno Lopes Alves, comandante das operações da Visa. “O Brasil é um dos líderes em inovação e um dos mercados mais maduros do setor de pagamentos digitais no mundo”, afirma. Ou seja, estamos muito bem conectados à tendência global, que aponta para o fim da circulação do papel-moeda num futuro nem tão distante. Aos 47 anos, Nuno Lopes Alves construiu uma sólida carreira no mundo executivo, incluindo passagens por empresas como Accenture e Barclays. Ele correu o mundo antes de voltar ao Brasil, em 2021, como country manager da Visa – chegou a viver em cinco países e trabalhar em outros oito, em quatro continentes. Lopes costuma acordar às 5 horas da manhã para ter tempo de fazer exercícios e levar os filhos para a escola antes de ir para o escritório. De segunda a sexta, ele aproveita o horário de almoço para encontros de negócios e encerra o expediente às 20 horas. Nos fins de semana, porém, sua prioridade é o convívio familiar, aproveitando todas as brechas do calendário para viajar, uma paixão que cultiva desde jovem.

THE PRESIDENT _ Comandar a Visa no Brasil é o seu maior desafio profissional?

Nuno Lopes Alves – Sem dúvida. Como líder global em pagamentos, a Visa tem a responsabilidade de conectar o mundo por meio da rede mais inovadora, conveniente, confiável e segura. No Brasil, a nossa estratégia de crescimento é facilitar as transações digitais e criar produtos e soluções que atendam as necessidades de nossos clientes com tecnologias de alto valor agregado.

O uso do cartão de crédito segue em ascensão? 

Para ter uma ideia, o uso de cartões de crédito, débito e pré-pago no Brasil era de 37% há cinco anos. Hoje esse número saltou para quase 60% do consumo. No último trimestre de 2023, os cartões alcançaram pela primeira vez o montante de 1 trilhão de reais em pagamentos, dos quais 664 bilhões com cartões de crédito. 

O mercado de pagamentos tem se tornado cada vez mais competitivo, com a digitalização crescente do público e o aumento de novos entrantes, o que enxergamos como novas oportunidades. O PIX, por exemplo, foi uma inovação muito importante para a inclusão digital, permitindo que muitos brasileiros “desbancarizados” pudessem ter acesso a serviços bancários básicos e a outros cartões. A geração Z, dos nascidos entre 1995 e 2010, usa mais ou menos cartão de crédito do que as gerações anteriores?

Usa mais, até porque cresceu conectada e acostumada a experiências rápidas, como fazer compras pela internet com poucos cliques. É um público muito aberto a inovações e disposto a experimentar. Em um estudo recente que fizemos aqui, na Visa, vimos que 75% dos jovens na América Latina e no Caribe usam aplicativos digitais para fazer transações financeiras, por exemplo. A geração Z também valoriza muito a questão da personalização, demandando que as marcas com as quais se relacionam conheçam seus hábitos e ofereçam as opções que mais se adequam a suas necessidades e desejos específicos. Como empresa de tecnologia, o nosso objetivo na Visa é apoiar esses negócios para que ofereçam formas variadas de meios de pagamento a seus públicos, permitindo que eles tenham a liberdade de escolher sua forma de pagamento de preferência a cada transação. 

O que a Visa faz para atender as expectativas dos consumidores mais novos?  

A chave para se conectar com as gerações mais novas é a autenticidade. Esse público demanda que as marcas conheçam a fundo suas dores e seus anseios e se mobilizem para atendê-los em conjunto. A indústria de games é um excelente exemplo. Temos investido em compreender como o público jovem se comporta nesse cenário, como consome e como transaciona, de acordo com o que ele valoriza. Anunciamos recentemente o patrocínio do time brasileiro de Valorant, da Team Liquid, uma liga internacional de e-sports profissionais, como parte dos nossos esforços de aproximação de gerações mais jovens. Descobrimos que 53% desse público na América Latina e no Caribe está mais predisposto a negociar com uma marca que conheceu em um jogo. Os esportes, por sinal, são uma grande parte da nossa estratégia no mundo, porque acreditamos que é uma ferramenta de aproximação com diversos públicos. A Visa patrocina os Jogos Olímpicos e Paralímpicos há quase 40 anos, além da Fifa, da liga de futebol americano NFL, do Inter Miami FC, da União Argentina de Rúgbi e o Pumas, da seleção argentina de rúgbi, do Miami Sharks e das equipes de Fórmula 1 Visa Cash App RB e do Oracle Red Bull Racing. Mais recentemente, apoiamos também um dos jogos da NFL no Brasil.

Oferecer salas VIP em aeroportos – como o novo Visa Infinite Lounge no aeroporto internacional de Guarulhos – também é estratégico?

Estar presente em mais de 200 países e territórios possibilita um ambiente de muita troca, mas cada mercado tem autonomia para buscar e oferecer benefícios que façam mais sentido em sua região. Observamos, por exemplo, o aumento de 40% nas transações realizadas com credenciais do público de alta renda no Brasil entre 2022 e 2023, e identificamos que esse público valoriza muito os benefícios e serviços de viagem. Nessa mesma análise, vimos que 80% dos benefícios mais usados do Visa Infinite em 2023 foram relacionados a salas VIP em aeroportos e ao Visa Concierge. Por isso, intensificamos nossos investimentos na experiência desse nicho estratégico, com iniciativas como a expansão em 40% da área do Visa Infinite Lounge, a primeira sala proprietária da marca no mundo, localizada no Terminal 3 do Aeroporto Internacional de São Paulo. Também atualizamos constantemente nosso portfólio de benefícios, aprimorando a experiência da jornada dos viajantes em todas as suas etapas e em todos os lugares do mundo. Em março de 2024, atingimos a marca de 1.250 lounges ao redor do planeta. Em julho de 2024, lançamos o Visa Infinite Fast Pass no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, um benefício que oferece acesso a uma fila exclusiva para a verificação de segurança, a dos raios X. Esse serviço já ultrapassou a marca de 1 milhão de acessos no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Os viajantes que compram passagens aéreas com cartões Visa também recebem mensagens ao longo de sua jornada, lembrando-os de benefícios como Seguro Viagem, Visa Concierge e acesso a lounges via Visa Airport Companion, entre outros.

O programa Elas Prosperam tem conseguido bons resultados com o público feminino?

Sim, ele é uma parceria vitoriosa de cinco anos da Visa com a Rede Mulher Empreendedora, que apoia micro e pequenas empreendedoras negras de todo o país, com foco na diversidade, incluindo mulheres negras cis e trans. Esse apoio se dá por meio de ciclos de capacitação e mentoria, que as ajudam a aprimorar a gestão de seus negócios em diversas frentes. Ao final de cada edição, cinco participantes são premiadas com um capital semente de 10 mil reais para investir. Desde 2020, as cinco edições já impactaram 1.104 empreendedoras. Acreditamos que a inclusão e a educação financeiras colaboram com o desenvolvimento da sociedade como um todo. Por isso, temos iniciativas para atingir os mais diversos públicos.

“Desenvolvemos soluções de convergência. A simplificação dos pagamentos B2B é uma grande oportunidade. Trata-se de um mercado de 200 trilhões de dólares”

Quais são as peculiaridades dos brasileiros no uso do cartão de crédito? 

O Brasil é referência na adoção de pagamentos digitais, a ponto de desenvolver diversas inovações que são exportadas para outros países. As compras parceladas no crédito, por exemplo, vieram para substituir o cheque pré-datado, que era um hábito arraigado do brasileiro. O pagamento por aproximação no Brasil, lançado em 2008, também seguiu um ritmo muito mais rápido do que em outros países e já representa mais de 60% das transações presenciais.

Como você vê o uso dos pagamentos digitais nos próximos anos? Quem deve desaparecer primeiro: o cartão de plástico ou o dinheiro em papel?

Apesar da migração dos pagamentos para novos dispositivos, como celulares, relógios e até anéis inteligentes com tecnologia de aproximação, o cartão físico não vai deixar de existir. Acreditamos no poder dos pagamentos digitais para impulsionar a “bancarização” da população e trabalhamos para entender qual é a experiência desejada pelas pessoas. Em agosto deste ano, lançamos em parceria com o Parabank um cartão com funcionalidade tátil, que possui um corte em formato de meia-lua em uma das bordas para permitir que pessoas com deficiência visual o identifiquem pelo toque. Nosso foco é continuar inovando para todos e em todos os lugares, desenvolvendo soluções que facilitem o uso, promovam a inclusão financeira e digital e tragam resultados positivos para todo o ecossistema.

Quais inovações tecnológicas estão por vir? 

No mundo, já existem diversos projetos de pagamento por biometria, como reconhecimento facial, da palma da mão e até da íris. A Visa, inclusive, foi pioneira no desenvolvimento de alguns desses casos. No Brasil, porém, o maior avanço no uso de biometria associada a pagamentos está relacionado à evolução das tecnologias de cibersegurança e gestão de risco. Ao vincular a comprovação de identidade a características físicas e padrões de comportamento, dificultamos o acesso de fraudadores aos sistemas, garantindo transações mais seguras. Enxergamos uma oportunidade significativa e ainda pouco explorada ao simplificar a experiência de pagamentos B2B, que hoje é antiquada, lenta e pouco transparente. Uma das nossas áreas de atuação inclui o desenvolvimento de soluções em prol de uma convergência entre a conveniência das finanças pessoais e os sistemas financeiros corporativos. Queremos que essas soluções sejam ágeis, acessíveis, transparentes e eficientes, semelhantes à praticidade a que estamos acostumados na gestão financeira pessoal. É uma oportunidade global de 200 trilhões de dólares para digitalizar tais fluxos de pagamento. Somente na América Latina, há a oportunidade de mercado de 12 trilhões de dólares. 

“O Brasil é referência em pagamentos digitais. Desenvolve inovações que são aplicadas em outros países”

Quais são os progressos na área de segurança para evitar as invasões em contas?

A segurança é um dos pilares da estratégia da Visa, por isso investimos globalmente mais de 10 bilhões de dólares nos últimos cinco anos para reforçar a segurança e reduzir as fraudes. Somente em 2023, a Visa ajudou a bloquear 40 bilhões de dólares em fraudes. Em 1993, fomos a primeira rede a utilizar modelos de inteligência artificial para a segurança de pagamentos em mais de 100 produtos. Nos últimos dez anos, a Visa investiu mais de 3 bilhões de dólares em IA e infraestrutura de dados, a fim de tornar a movimentação de fundos mais segura e identificar fraudes de forma eficiente. Outra grande aposta do mercado para a segurança é a “tokenização”, que substitui dados sensíveis dos portadores, como o número das credenciais, por um código encriptado exclusivo, o token. Essa tecnologia oferece transações mais ágeis e muito mais seguras, podendo reduzir o índice de fraudes em até cinco vezes. Hoje mais de 60% das transações online brasileiras realizadas com credenciais Visa são tokenizadas. A tokenização gerou mais de 40 bilhões de dólares em receita no comércio eletrônico para empresas em todo o mundo no último ano fiscal, evitando ações fraudulentas no total de 650 milhões de dólares.Essa tecnologia, inclusive, é a base de uma das principais inovações do mercado de pagamentos, o Click to Pay, uma solução que torna a jornada de pagamentos no e-commerce mais fluida e segura. 

Como funciona o Click to Pay?

É uma ferramenta que conta com a tokenização, que substitui os 16 dígitos do cartão por um token único para cada dispositivo, site ou app de compras e armazena esses dados com segurança. Dessa forma, as informações ficam mais protegidas e o consumidor não precisa mais inserir seus dados em cada compra. Basta um clique para finalizar o checkout. O Click to Pay da Visa já está em uso por grandes varejistas no Brasil, como a Renner, a startup Daki e a plataforma de ingressos Ingresse, entre outras. 

Na primeira compra com o Click to Pay, a credencial tokenizada é vinculada ao dispositivo para garantir que é o consumidor de fato que está realizando a transação. Essa camada adicional de segurança é conhecida como Visa Cloud Token e ela reforça a proteção nos pagamentos digitais, tornando as transações mais seguras ao incluir esse componente dinâmico em cada transação.  A partir de julho de 2024, as credenciais Visa emitidas por diversos parceiros também passaram a ter o Click to Pay pré-ativado como uma funcionalidade embutida, chegando aos portadores prontas para serem utilizadas com a solução.

O público brasileiro está aprendendo a evitar os altos juros dos cartões? O que as operadoras podem fazer para ajudar os consumidores a não acumular dívidas impagáveis?

É importante esclarecer que a Visa não é responsável pelo crédito ofertado aos consumidores. Esse papel é exercido pelos emissores, que têm estratégias distintas de concessão de crédito. Na indústria de pagamentos, temos usado tecnologias como a IA Generativa e análise de dados para desenvolver scores de pontuação, que podem ser aplicados pelos emissores em suas estratégias para realizar essa definição de forma mais assertiva, com ofertas de crédito com melhor aderência ao perfil e às necessidades de cada consumidor. Além de desenvolver ferramentas de análise de risco, como mencionei, também estamos comprometidos em colaborar com a estabilidade e o bem-estar financeiros da população, atuando proativamente em prol da educação financeira por meio de diversas iniciativas. Um exemplo é a peça de teatro de rua Quem Prospera Sempre Alcança, que apresenta conceitos fundamentais de educação financeira de maneira lúdica. Em cartaz desde 2019, a obra está em sua quarta temporada e impactou mais de 36 mil espectadores, em 39 cidades, de 18 estados, disseminando a importância do planejamento e da organização como passos para a concretização
de sonhos.