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Como o empresário paulistano Nick Salussolia se tornou produtor de vinhos na Toscana com uma estrutura de enoturismo.

Retratos Claus Lehmann

Até os 40 anos , o paulis tano Nick Salussolia não havia sequer experimentado vinho, ainda que tenha nascido em família de origem italiana. “Sempre fui da outra ala: cervejeiro, uisqueiro”, dispara o empresário do ramo financeiro, hoje com 57 anos. “Depois você vai aumentando a qualidade de vida, vai se apaixonando por vinho”, explica. No caso dele, além de tardiamente, a paixão aconteceu de modo não convencional.
Uma viagem de negócios à Toscana, há 15 anos, acabou provocando essa reviravolta em sua vida.
Foi quando conheceu o borgo Casole d’Elsa, entre San Gimignano e Volterra. O vilarejo fica a 30 minutos de Siena e a uma hora de Florença.
O objetivo era apenas intermediar uma transação de venda para um cliente. Mas Salussolia se apaixonou pela propriedade, de quase três séculos e distribuída por 50 hectares. Era uma vinícola abandonada e inativa.
A decisão de investir nela foi rápida, e o lugar não seria mais o mesmo. Tampouco a vida do empresário.
Nascia naquele pedaço da Toscana um viticultor curioso, que, de uma vez por todas, se renderia ao mundo do vinho.
A vinícola foi reformada e reestruturada ao longo de seis anos. Durante esse período, Salussolia já havia se tornado o proprietário, atravessando os anos com a mão na massa, ao pé da letra. “Veja as minhas mãos”, ele as mostra. “Participo da colheita, da poda. Porque para saber mandar é preciso saber fazer.
Mesmo 15 anos depois, há muito o que aprender.” Hoje, depois de muito trabalho e denominada de Luminosità, a vinícola produz três rótulos: os Supertoscanos IGT InSSieme e AluSSinante, elaborados com Sangiovese, Merlot e Cabernet Franc, e um tinto de entrada, Podere Scaparzi, produzido com as mesmas castas, exceto a Cabernet Franc. A produção média anual é de 20 mil a 25 mil garrafas, exportadas sobretudo para o Brasil, mas também para a Bélgica, a Inglaterra e o Paraguai.
A atividade na vinícola, com a recuperação das vinhas e a elaboração de tintos, abriu caminho para outros negócios, como o agriturismo de luxo: a Villa Due SS, que divide espaço com a vinícola dentro da propriedade, acomoda três casas tipicamente toscanas. A hospedagem é pontuada por experiências como degustações de vinhos e azeites, conduzidas pelo próprio Salussolia, além de visitas às instalações da vinícola, caminhadas pelas vinhas, piscina e churrasqueira, entre outras comodidades.

THE PRESIDENT -Você é um empresário paulistano de ascendência italiana. Seus pais são naturais de quais regiões da Itália?

Nick SalussoliaAmbos do norte do país. Meu pai é de Turim e minha mãe, já falecida, nasceu em Bolonha. A grande paixão da família pelo vinho começou há muitos anos, com meu pai, na Itália, passando fome após a Segunda Guerra. A família cultivava e comia uvas, produ- zia o vinho de casa. No Brasil, ele tentou fazer o vinho naturalmente. Meu pai chegou pelo porto de Santos (SP) no período pós-guerra, sem falar português e sem dinheiro. Acabou se estabelecendo em São Paulo e, como muitos italianos, foi trabalhar na rede da família Matarazzo. Só 12 anos depois, abriu a própria empresa.

Sendo de origem italiana, você se lembra da sua primeira experiência com vinho?

Lembro claramente. Foi difícil dar o primeiro gole. Eu tinha uns 40 anos. Antes disso, o contato era com os vinhos de casa, que eram artesanais, sem estrutura e amarravam na boca. Eu era um grande cervejeiro, depois um grande uisqueiro e hoje sou 100% vinho. Você começa com o mais simples, vai se aperfeiçoando e voltar atrás é um problema sério.

Então, você já havia tomado vinho antes.

Na verdade, comecei com 24 anos, mas era um vinho bem artesanal, feito em casa. Ficava difícil… Morávamos no bairro da Mooca e depois nos mudamos para o Planalto Paulista. Meu pai ia ao Ceasa (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) comprar as uvas. A vinificação era feita no porão de casa, espremendo as uvas Santa Isabel na máquina. Um vinho de mesa, nada sofisticado.

Quando você, de fato, passou a se interessar pelo assunto?

Há 15 anos. Fui para a Itália intermediar a venda de uma propriedade para uma pessoa no Brasil. Era uma vinícola abandonada há 25 anos. Acabei me tornando sócio-investidor da propriedade nos primeiros quatro anos.

Depois, comprei a segunda parte e, após dois anos, adquiri a terceira. Foram seis anos de reforma para estruturá-la, até se transformar em vinícola butique, que ganhou o nome Luminosità, que significa “alegria, claridade, transparência”. E também porque tem o S do meu sobrenome.

O que o motivou a investir?

Eu já era apaixonado por vinho quando conheci a vinícola. Então me deparei com um viale dei cipressi (uma longa alameda formada por cipres- tes) de 540 m de extensão. Imagine: árvores com 80 anos, em média, de 8 a 10 m de altura, bem estruturadas. Tudo abandonado, assim como as vinhas. Isso me chamou a atenção e trouxe uma enorme motivação.

 

A propriedade tem construções históricas, vinhas bem cuidadas e um bocado de charme

Como aconteceu a retomada da produção de vinhos?

 cepas estavam abandonadas e foram todas extirpadas. Tivemos de refazê-la se esperar seis anos até a primeira produção. Comigo, está um grande enólogo, Paolo Marchi, um dos grandes conselheiros do vinho Guado al Tasso (produzido pela prestigiada vinícola Antinori, tam- bém na Toscana). Tenho comigo o agrônomo Gerardo Lotrecchiano, um grande cantineiro, e Gabriele Vagno- ni, que trabalha com isso há 27 anos. Se você começa a trabalhar na terra, no vinho, e a fazer algo de que gosta, tem mais prazer ainda. E não é porque meus vinhos – tanto o de entrada, Podere Scaparzi, como o AluSSinante e o InSSieme – são excelentes. Nunca vou fazer algo que não seja excelente, porque o maior consumidor sou eu.

Seus vinhos hoje são produzidos essencialmente com Sangiovese, merlot e Cabernet franc?

Sim. Um dos meus sócios na época da reforma escolheu essas cepas – ele entendia mais do que eu. É esse o blend que usamos hoje nos dois Supertoscanos e no vinho de entrada (este, sem Cabernet Franc). No AluSSinante, descansamos o vinho por 12 meses em barricas grandes de carvalho francês de primeiro e segundo usos. No InSSieme, há a passagem de 16 meses em barrica pequena de carvalho francês de segundo e terceiro usos. Depois disso, os vinhos são filtrados e ainda descansam em garrafa por três anos, quando só então seguem para o mercado. Hoje, por exemplo, está no mercado o vinho de 2016. E nossa produção é pequena: de 20 mil a 25 mil garrafas por ano.

Em todas as safras?

Somente nas consideradas boas pelo meu enólogo e pelo meu agrônomo. Em 2017, a safra foi muito ruim e vendi as uvas. No ano passado, a mesma coisa.

Como vem sendo a aceitação dos vinhos?

Tenho uma experiência muito legal para contar: foi feita uma degusta- ção às cegas na Fisar (Federação Italiana de Sommeliers), com seis Supertoscanos, em um jantar maravilhoso. Foram servidos Solaia, Sassicaia, Tignanello, Guado al Tasso, Ornellaia e o meu vinho. Éramos 14 pessoas, sendo quatro sommeliers e quatro enólogos. Meu enólogo e meu agrônomo também estavam presentes. Ninguém mexia na garrafa, somente os garçons, para o serviço. Em primeiro lugar, ficou um vinho em que eu realmente me espelho, o Guado al Tasso. E em segundo, o meu.

 

Qual foi a classificação geral?

Em terceiro ficou o Solaia; em quarto, o Ornellaia, em quinto, o Sassicaia, e em sexto, o Tignanello. Há outros reconhecimentos: no ano passado, o Raffaele Vecchione, um conhecido crítico italiano, nos deu 94 pontos. E já tive pontuações na Decanter, James Suckling e Jancis Robinson.

E o agriturismo? Começou a fazer parte do negócio quando?

Tivemos de esperar praticamente seis anos para a primeira produção.

Enquanto isso, fomos nos estrutu- rando em outras coisas. Criamos o agriturismo de luxo na propriedade, que hoje oferece oito suítes. Fazemos questão de alugar a propriedade para um único grupo, no mínimo por uma semana, com café da manhã incluído e limpeza diária nos quartos.

Para acomodar um grupo grande, não? São quantas casas?

Há uma casa principal e outras duas menores, muito próximas, a 20 m uma da outra. O complexo tem piscina, churrasqueira, sala de degustação e mais uma parte de vinificação acessível aos hóspedes. Decidimos alugar apenas para um grupo no intuito de preservar a privacidade, não juntar pessoas diferentes. Como é tudo muito próximo, um coloca música, outro fuma charuto, e alguém não gosta. Enfim, pode haver atritos. Então, hospeda-se uma única família num único grupo. Sempre com, no mínimo, seis pessoas e no máximo 16.

Também alugamos a propriedade para casamentos. Vários famosos brasileiros se casaram lá antes da pandemia: jogadores de futebol, cantores sertanejos. Um público predominantemente brasileiro.

Quais experiências você destacaria?

 Os hóspedes têm a degustação de cortesia. Para quem não está hospe- dado, mas quer fazer degustação, basta ir ao site e marcar data ou entrar em contato conosco. Na degustação, servimos o azeite da propriedade, queijo pecorino ou parmigiano reggiano e, abundante- mente, nossos vinhos. Entram os vinhos que produzimos. Não é uma degustação, mas uma garrafa de vinho para cada duas ou três pessoas.

“O Raffaele Vecchione, um conhecido crítico italiano, nos deu 94 pontos em sua avaliação”

Como você se divide entre o Brasil e a Itália?

Passo seis meses aqui, no Brasil, e seis meses lá. Vou para a Itália trabalhar e fico até novembro, depois das duas colheitas.  Só então, retorno.   



Paisagens bucólicas na vinícola perfeitas para o descanso  e o deleite