Desbravando mercados com uma estratégia voltada a ampliar o conceito dos vinhos por meio da aclamada dieta mediterrânea, a Casa Mediterranea comemora um ano de sucesso, lança marca própria e mira popularizar a bebida no país
Por Ney Ayres
Os avós do paulistano Cristiano Calamonaci imigraram da Itália para o Brasil após as agruras da Segunda Guerra Mundial. Vieram da Sicília, na Itália, deixando para trás parte da família, que mantinha plantações de uvas viníferas. Desde garoto, Calamonaci ouviu, embevecido, histórias sobre essa produção. Aos 19 anos, decidiu conhecer suas raízes e viajou para a ilha, onde encontrou um primo entusiasmado, que continuava ligado ao mundo do vinho. Juntos, eles fizeram um projeto para trazer vinhos da Itália para o Brasil. Era um sonho.
O sonho ficou adormecido e, nesse período, Calamonaci se formou em publicidade e se especializou em globalização da comunicação pela Universidad de Las Américas, no Chile, desenvolvendo uma bem-sucedida carreira na área. Tornou-se sócio, nas últimas décadas, da jornalista Regiane Monteiro, sua parceira de negócios na agência Tino Comunicação, especializada no segmento de saúde e farmacêutico. O sonho de trabalhar com vinhos, a tradição da família, porém, jamais foi abandonado.
Há pouco mais de um ano, Calamonaci e sua sócia criaram a Casa Mediterranea, importadora de vinhos europeus, que vem crescendo de maneira exponencial. E, do sonho, a companhia caminha para uma realidade, cada vez mais centrada em ampliar e popularizar o mercado e o consumo de vinhos por aqui, usando estratégias de negócios e comunicação inovadoras. Tudo isso para a doce alegria do garoto que ouvia as histórias sobre o cultivo de uvas e a produção de vinhos relatados pelos avós.
Cristiano Calamonaci – Essa história começa há mais de 130 anos, com meus antepassados na Sicília. Eles cultivavam uvas para as vinícolas e tinham até uma boa produção. Acontece que, na Segunda Guerra Mundial, a Itália praticamente faliu, sobretudo a Sicília, uma região mais pobre. Foi nesse período que meus avós e seus filhos, incluindo o meu pai, vieram para o Brasil. Uma típica história da imigração. Nesse período, bastante desafiador, meus parentes que ficaram na Itália continuaram na produção de uvas. Meus avós jamais perderam o contato com eles. Mantiveram os laços até morrerem, no Brasil, com quase 90 anos.
Eu me formei em publicidade e essa foi minha profissão ao longo de décadas. No fim da faculdade, acabei dando continuidade à ligação da minha nonna com os parentes na Itália. Aos 19 anos, viajei pela primeira vez para lá e me apaixonei pelo estilo de vida, pela cultura e pela enogastronomia. Eu tinha na época a alternativa de uma bolsa de estudos no Canadá, mas preferi viajar para a Itália e conhecer as minhas raízes. Eu sempre fui muito ligado à família. Fiquei dois meses na Itália, onde construí uma grande amizade com um primo, Fabio, engenheiro agrônomo, que atualmente leva adiante 45 hectares de uvas plantadas com diversas variedades nativas e internacionais. Na época, ainda jovem, ele se tornou um engenheiro agrônomo muito bem-sucedido e criamos um vínculo forte. Tanto é que meu filho se chama Fábio em sua homenagem. Em um primeiro momento, pensamos em desenvolver uma ponte entre a Sicília e o Brasil para trazer produtos de lá para cá. Trabalhando na agência com a minha sócia, somos especializados na área de saúde, também fiquei muito entusiasmado com a ideia de desenvolver aqui o conceito da chamada dieta mediterrânea, que mistura hábitos de vida e de bem-estar, com ótima alimentação e menos estresse, típicos das chamadas “zonas azuis”, locais chamados assim porque neles as pessoas têm mais chances de chegar aos 100 anos. Na época, nomeamos essa ideia de Casa Mediterranea. Ela ficou guardada até o momento mais propício para a construção da ponte. Estamos começando com os vinhos, mas a meta é expandir para todos os mercados correlatos que compõem a dieta mediterrânea.
Fui sócio por nove anos do grupo de comunicação Full Jazz. Antes já havia construído o primeiro e-commerce da época. Era uma plataforma que agregava diversas micro e pequenas empresas no Brasil. Batizamos de Cielo, sigla para Comunidade Internacional das Empresas Latinas Online. A American Online gostou e acabou aportando investimentos na iniciativa. Após essa primeira experiência, fui convidado a trabalhar em diversas agências multinacionais. Só então entrei na Full Jazz. No primeiro ano, me convidaram para a sociedade, devido a meu expertise na área digital. Enfim, atuei nos primórdios do ramo digital da publicidade e fundei, com outros nove empreendedores, a primeira associação das agências brasileiras digitais.
Sim. De qualquer maneira, o grupo Full Jazz foi um divisor de águas na minha vida, pois sempre desenvolvemos projetos de comunicação com consciência e valorização do ser humano. Nessa caminhada, descobri que os melhores resultados ocorrem em parcerias. E, no mundo da publicidade, até então extremamente machista, minhas parcerias sempre foram com mulheres. Considero muita sorte ter tido sócias. Nesse percurso, conheci minha sócia, Regiane Monteiro, jornalista de formação. E nosso negócio de sucesso já dura 18 anos. Juntos construímos uma grande agência com foco no mercado de healthcare e qualidade de vida, a Tino Comunicação, que atende preferencialmente clientes do mercado farmacêutico e de consumo na área de saúde, incluindo marcas como AstraZeneca e Moderna. Tudo isso contribuiu para que, no momento certo, a ideia da Casa Mediterranea ganhasse um contorno completamente diferente: não somos mais uma importadora de vinhos, mas uma startup que está construindo um hub de importação, distribuição e comunicação de produtos do Mediterrâneo.
Foi logo depois do pós-pandemia. Eu já vinha pensando em colocar o projeto de pé. Por coincidência, meu primo Fabio entrou em contato comigo com o mesmo objetivo. Era a hora de realizar a ponte que pensávamos em construir quando tínhamos menos de 20 anos. Fui para a Sicília e, por intermédio dele, conheci Sebastiano Di Bella, proprietário da vinícola de mesmo nome, que foi, por duas vezes, secretário-geral da Sicília (um cargo semelhante a governador). Uma pessoa muito experiente, com profunda cultura e conhecimento, que produz vinhos de excelência. Esse tipo de relacionamento nos ajudou a construir um projeto de negócios diferente, em que a Casa Mediterranea é praticamente uma extensão do produtor no Brasil, trabalhando não apenas com as vendas, mas também com sua marca.
A Casa Mediterranea é uma extensão do produtor no Brasil. Não nos limitamos às vendas. Trabalhamos as marcas
Cristiano Calamonaci
Sim, porque mostrei ao produtor que vou cuidar da marca dele como se fosse a minha. Tenho conhecimento publicitário e de comunicação. Minha sócia é jornalista e trabalha também com estratégias de public relations. Isso é relevante. Estudamos como as importadoras se posicionavam no Brasil e resolvemos atuar como uma startup. Nossa estrutura operacional é extremamente enxuta. Entregamos produtos butique de qualidade com preço competitivo. Garimpamos os melhores produtos com ótima relação custo/benefício e a menor despesa operacional possível. Por enquanto, atuamos apenas em São Paulo, mas já estamos nos preparando para entrar em outros estados.
Começamos com seis rótulos exclusivos da vinícola Di Bella e um trabalho de comunicação para a marca, ampliando o conhecimento do público brasileiro sobre as uvas pouco exploradas dos vinhos italianos. O brasileiro é muito aberto ao mundo dos vinhos e quer conhecer mais. Fizemos diversos eventos para o consumidor final e os profissionais do setor. Apostamos na degustação junto aos formadores de opinião e em um público com que já trabalhamos na nossa agência: os médicos enófilos. Sempre pensando que o nosso melhor marketing era o próprio produto. No momento, estamos com 25 rótulos exclusivos, só da Itália. São vinhos e espumantes de sete vinícolas butique de quatro regiões: Vêneto, Abruzzo, Sicília e Campânia. Há outros dez rótulos, entre espanhóis e portugueses. Trabalhamos dos espumantes aos tintos. Atendemos mais de 80 pontos de venda em São Paulo e estamos ampliando o segmento B2C, também com foco no crescimento do mercado brasileiro de vinhos.
Eu, pessoalmente, procuro vinícolas butique, que não têm grandes produções. Isso gera exclusividade. E estamos em um momento muito oportuno, pois as vinícolas também estão passando por uma transição de geração. Os jovens que estão assumindo os negócios da família querem exportar os produtos e desbravar novos mercados, já que, muitas vezes, seus familiares não tiveram a oportunidade. Faço com que tenham confiança no seu parceiro no Brasil. Mostro que não sou um mero importador. Pretendo também trazer a história do vinho, focar no brand da marca e no marketing, aproveitando essa tradição. E quero manter também um olhar mais moderno para o negócio.
Continuo muito ligado à família. Sabe quem é o nosso melhor vendedor? Meu pai, Salvatore Calamonaci, aos 79 anos. Ele já vendeu, por exemplo, em um único pedido, 2 mil garrafas para um restaurante. Um sucesso. Resultados como esse me animaram a ir de novo para a Itália e garimpar outros produtores com o mesmo perfil. Precisamos lembrar que agora, num mundo totalmente digital, mesmo as vinícolas tradicionais acreditam nos investimentos em comunicação. Não esperam mais apenas o desdobramento das relações de amizade. Acreditam que vale a pena exportar, que existem projetos importantíssimos da Comunidade Europeia e das câmaras.
Sim. A marca Mediterraneo vai chegar ao Brasil em janeiro. E vamos trazer dois tipos de uva: barbera (tinto) e coda di volpe (branco), que não estão entre os mais conhecidos do portfólio dos brasileiros. São espetaculares. Os rótulos ficaram lindíssimos, fazendo alusão ao Vesúvio, a região que será a nossa fornecedora. São vinhos extremamente fáceis de consumir. Nossa ideia sempre foi pensar em vinhos para todos os dias e ocasiões. Queremos fomentar a dieta mediterrânea e garantir o foco no bem-estar. Na Europa, por exemplo, o vinho é classificado como alimento. Aqui ainda temos um caminho a perseguir. Por isso, pensamos em vinhos que agradem a um público amplo. E muito vinho branco, que se adapta ao clima brasileiro. Por todos esses motivos, vamos lançar também nossa segunda marca, com um foco maior no B2C: a VinoPop. Vamos popularizar os vinhos do Mediterrâneo. A verdade é que ainda consumimos pouco vinho no Brasil. Há cada vez mais gente interessada, mas nem sempre com todas as condições para comprar o melhor vinho. E não é só pelo preço. Muitas vezes estão em dúvida sobre quais são os melhores rótulo e E uva para o próprio paladar. Falta esse conhecimento. Vamos investir nesse mercado, com vinhos de qualidade e custo mais acessível.
A VinoPop será, em 2024, uma marca da Casa Mediterranea para difundir os vinhos dessas regiões acessíveis ao consumidor final. Os rótulos vão custar, no máximo, 90 reais e acredito que serão um sucesso. A Casa Mediterranea está no caminho certo. Trata-se de uma empresa nova, com um ano, que atingiu resultados financeiros muito expressivos.
Na Europa, mesmo os vinhos mais acessíveis obedecem a rígidos controles de qualidade. Há, por exemplo, uma lei que obriga o vinho a ter uma menor quantidade de sulfito, um conservante que não faz bem à saúde. Com menos sulfito, você tem menos chances de sofrer com dores de cabeça e passar mal, por exemplo. Nossa ideia é vender o vinho também como um conceito de saúde. Há diversos estudos clínicos comprovando que um bom vinho faz bem, por exemplo, para o coração.
Vale lembrar que nosso objetivo é levar ao consumidor produtos que fa- çam parte da dieta mediterrânea. Não só o vinho, mas outros alimentos também. No final das contas, queremos que o consumidor obtenha produtos em sua mesa que possibilitem mais qualidade de vida e maior longevidade.
Teremos canais digitais que vão conversar diretamente com o consumidor final. Aulas em vídeo, por exemplo, ensinando como aderir à dieta mediterrânea, como ter em mãos os produtos que provoquem a mudança para hábitos saudáveis. Estamos falando de uma cultura que implica estar mais presente com a família, praticar exercícios físicos, diminuir o estresse e se alimentar melhor. Vamos desenvolver as zonas azuis digitais, entregando o melhor ao consumidor com as ferramentas adequadas, para municiá-lo. Será possível? Temos a convicção de que sim.