Modo de ajuste

Relojoaria

07/07/2026

Modo de ajuste

Em uma edição recorde do salão Watches and Wonders, a alta relojoaria respondeu à desaceleração global com lançamentos que buscam justificar valor, reforçar identidade e sustentar desejo

Por Raphaell Calles, de Genebra

É interessante acompanhar o mercado de relojoaria em um momento em que o principal evento do mundo no setor cresce, enquanto a indústria desacelera. O Watches and Wonders chegou à edição de 2026 maior do que nunca. Foram 65 marcas ocupando o Palexpo, quase 60 mil visitantes circulando por Genebra, 1.750 jornalistas acompanhando lançamentos e cerca de 900 milhões de visualizações nas redes sociais ao longo da semana.

A cidade suíça absorveu a feira para além dos pavilhões. Hotéis, restaurantes e boutiques funcionaram como uma extensão natural do evento. A relojoaria suíça já não vive o mesmo ciclo de expansão contínua observado no pós-pandemia. O mercado fechou 2024 em queda, recuou novamente em 2025 e iniciou 2026 de forma irregular, marcado pelas tensões entre Estados Unidos e Irã e bombardeios no Oriente Médio. Em Genebra, isso produziu uma indústria mais preocupada em justificar valor.

Este esforço refletiu no desenho, acabamento e referências históricas. Os lançamentos deste ano pareciam menos voltados ao impacto imediato — muito impulsionado pelas redes sociais nos últimos anos — e mais à permanência.

Talvez seja por isso que a feira tenha crescido justamente agora. O Watches and Wonders passou a funcionar como demonstração pública de estabilidade. Em um setor movido por percepção, ampliar presença talvez seja tão importante quanto vender relógios.

No recorte local, o Brasil aparece como uma peça curiosa nesse tabuleiro. Enquanto parte do mercado global desacelera, as exportações suíças para o país cresceram 18,5% em 2025, na comparação com 2024, e avançaram mais 23,3% no primeiro trimestre deste ano, frente ao mesmo período do ano anterior. Nos relógios mecânicos, o Brasil também sustentou ticket médio superior ao de 2024, indicando um mercado menos concentrado em compras pontuais.

Talvez seja justamente aí que a edição de 2026 faça mais sentido: menos como celebração de uma indústria em alta irrestrita e mais como retrato de um mercado que tenta sustentar valor simbólico num momento em que crescer deixou de ser automático.

Aqui estão algumas estrelas do salão:

Rolex Oyster Perpetual 36

Em uma edição recorde do salão Watches and Wonders, a alta relojoaria respondeu à desaceleração global com lançamentos que buscam justificar valor, reforçar identidade e sustentar desejo
Rolex Oyster Perpetual 36 – Foto: Divulgação

No centenário da caixa Oyster, a Rolex decidiu evitar qualquer gesto solene demais. Em vez disso, apresentou uma versão do Oyster Perpetual 36 com mostrador multicolorido e motivo Jubilee, retomando o espírito do Celebration Dial lançado em 2023, mas agora de forma ainda mais gráfica. O resultado divide opiniões, mas revela uma Rolex menos interessada em parecer intocável e mais confortável em tensionar a própria linguagem estética.

Enquanto parte do mercado busca legitimidade por meio da sobriedade, a Rolex parece confortável em introduzir humor e cor sem comprometer sua posição institucional dentro da indústria.

Equipado com o calibre 3230 de corda automática, o modelo apresenta horas, minutos e segundos centrais, e cerca de 70 horas de reserva de marcha. A caixa de 36mm é feita em aço Oystersteel e oferece impermeabilidade até 100 metros. No centenário da caixa Oyster, a Rolex eleva sua certificação Superlative Chronometer ao adicionar novos testes de magnetismo, confiabilidade e durabilidade.

Santos de Cartier Chronograph

Santos de Cartier Chronograph – Foto: Divulgação

Criado por Louis Cartier para Alberto Santos-Dumont, o modelo tinha por objetivo número 1 ser lido no ar sem tirar os olhos do voo. A nova versão mantém elementos históricos, como parafusos expostos e coroa heptagonal com cabochão azul. Disponível em ouro, aço ou combinação dos dois metais, a caixa mede 39,8 mm. O mostrador carrega centro acetinado e extremidades com efeito sunray. É dotado da função cronógrafo. Uma janela de data está presente junto ao contador na porção inferior do dial. O modelo oferece cerca de 48 horas de reserva de energia e até 100 metros de estanqueidade.

Audemars Piguet Royal Oak Perpetual Calendar Bleu Nuit, Nuage 50

A Audemars Piguet retorna ao salão em 2026 com um dos seus símbolos mais poderosos em primeiro plano: Royal Oak, desenho de Gérald Genta lançado em 1972 e, desde então, um dos relógios mais determinantes da relojoaria moderna. Nesta edição, a maison reapresenta o modelo em cerâmica Bleu Nuit, Nuage 50, um azul inspirado no céu da Vallée de Joux e já associada à identidade visual da marca.

O movimento é ainda mais significativo porque a marca volta ao salão depois de seis anos de ausência, desde sua saída em 2019. Esse retorno já seria, por si só, um gesto de peso dentro do universo da alta relojoaria. Mas ele ganha outra camada de interesse: até o término deste texto, circulava a suspeita de uma colaboração inédita entre Swatch e Audemars Piguet, embora nada tivesse sido mencionado oficialmente no Watches and Wonders. 

Nesse cenário, o Royal Oak funciona como peça central de leitura, quase como uma chave para interpretar a presença da marca e a força que um modelo como este pode provocar.

Hermès H08 Squelette 

Hermès H08 Squelette – Foto: Divulgação

Ao misturar, ao mesmo tempo, o redondo e o quadrado, H08 traz, em uma caixa de 39mm em titânio, um vislumbre de sua estrutura mecânica. O novo calibre esqueletizado transforma pontes, rodas e vazios em composição, como se o tempo ganhasse arquitetura própria. Com versões em diversas cores, os modelos acompanham pulseira de borracha com trama marcada, que reforça o lado gráfico e contemporâneo.

Bulgari Octo Finissimo

Bulgari Octo Finissimo – Foto: Divulgação

Poucos relógios mudaram tanto a estética da relojoaria contemporânea nos últimos anos quanto o Octo Finissimo. O que começou como exercício radical de ultrafineza acabou se transformando numa linguagem própria dentro do segmento.

A nova versão de 37mm reduz discretamente as proporções do modelo sem alterar sua arquitetura octogonal. A mudança acompanha um movimento mais amplo da indústria. O novo calibre automático, desenvolvido ao longo de três anos, preserva a obsessão técnica da linha. Mas talvez o mais interessante no Octo Finissimo é que já não precisa provar que é moderno.

Panerai Luminor 8 Giorni Brunito PAM01733

Panerai Luminor 8 Giorni Brunito PAM01733 – Foto: Divulgação

A Panerai atualiza um de seus códigos mais reconhecíveis. O modelo se inspira nos instrumentos desenvolvidos para operações navais nas décadas de 1950 e 1960. A caixa, de 44mm, recebe o acabamento Brunito, obtido com uma camada de PVD preto aplicada ao aço e depois parcialmente desgastada à mão por escovação, criando um efeito envelhecido ligado à sua herança militar.

Equipado com o mecanismo de corda manual, a peça oferece oito dias de reserva de energia. “Reduzimos a frequência de corda e preservamos a confiabilidade e a resistência à água durante operações exigentes”, explica Alessandro Ficarelli, chief marketing officer da Panerai.

Tudor Royal Day-Date 40mm

Tudor Royal Day-Date 40mm – Foto: Divulgação

A Tudor atualizou a coleção Royal em 2026 sem alterar aquilo que sustenta o modelo desde sua reintrodução, em 2020: a combinação entre esportividade e estilo clássico.

Pela primeira vez, toda a linha Royal passa a utilizar calibres de fabricação própria. No Day-Date de 40mm, o novo MT5633 adiciona certificação COSC e cerca de 70 horas de reserva de marcha, e reposiciona uma linha historicamente mais discreta da marca

TAG Heuer Monaco Evergraph

TAG Heuer Monaco Evergraph – Foto: DIvulgação

A TAG Heuer seguiu um passo além com sua principal apresentação do ano. Monaco é um modelo imediatamente reconhecível: caixa quadrada, presença forte e um desenho clássico fiel ao ícone de 1969. A peça eleva a função cronógrafo para um novo nível. O movimento TH80-00 abandona alavancas e molas tradicionais e passa a adotar componentes flexíveis que reduzem atrito e desgaste. A TAG Heuer redesenhou o sistema para aumentar eficiência e durabilidade.

Minerva The Unveiled Crownless

Minerva The Unveiled Crownless – Foto: Divulgação

A ausência da Montblanc no Watches and Wonders chamou atenção. Nos últimos anos, a Minerva se consolidou como o principal braço de alta relojoaria da Montblanc. A resposta veio cerca de uma semana depois, em Nova York, num movimento que sugere uma Minerva cada vez mais independente dentro da marca.

O melhor exemplo disso é o novo Minerva The Unveiled Crownless. O modelo elimina completamente a coroa tradicional e transfere as funções de corda e ajuste de horas para o bisel canelado, retomando soluções desenvolvidas pela companhia ainda nos anos 1920 para relógios de pilotos. O mecanismo exigiu o desenvolvimento do novo calibre manual M15.08, produzido em Villeret, com 80 horas de reserva de marcha e acabamento executado manualmente.

Van Cleef & Arpels Midnight Jour Nuit  Phase de Lune

Van Cleef & Arpels Midnight Jour Nuit  Phase de Lune – Foto: Divulgação

Poucas marcas trabalham a relojoaria de maneira tão próxima da ideia de encantamento quanto a Van Cleef & Arpels. Em 2026, a maison amplia a coleção Jour Nuit com um relógio que transforma a passagem do tempo em cenário astronômico. Aqui, um disco de 24 horas faz o Sol desaparecer lentamente enquanto a Lua surge sobre um céu de aventurina negra. Ao mesmo tempo em que indica a passagem do dia para a noite, a Lua também revela sua fase atual por meio de um mecanismo astronômico integrado ao movimento.  

A complicação lunar acompanha o ciclo real de 29,5 dias e pode ser revelada sob demanda através de uma animação acionada por um botão lateral, que faz o mostrador girar completamente por cerca de dez segundos. O movimento foi desenvolvido ao longo de quatro anos pelos ateliês relojoeiros da marca em Genebra.

IWC Pilot’s Venturer Vertical Drive 

IWC Pilot’s Venturer Vertical Drive – Foto: Divulgação

Enquanto parte da indústria reforçava tradição e herança em Genebra, a IWC decidiu olhar para frente. Desenvolvido em parceria com a Vast, responsável pela futura estação espacial Haven-1, o novo Pilot’s Venturer Vertical Drive foi concebido para missões espaciais tripuladas.

A proposta: criar um instrumento pensado desde o início para uso em ambiente espacial. O modelo elimina a coroa convencional e transfere suas funções para um sistema rotativo integrado ao bezel, permitindo operação mesmo com luvas espaciais.

Para Christian Knoop, diretor criativo da IWC, o projeto também responde a um movimento cultural mais amplo. “Existe um novo fascínio coletivo pelo espaço”, afirma.

Construído em cerâmica branca de óxido de zircônio e Ceratanium, o relógio passou por testes de vibração, pressão e compatibilidade de materiais para uso na Haven-1. “Algo que funciona perfeitamente na Terra pode não funcionar em microgravidade”, explica Kelton Temby, senior mission manager da Vast.