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Legado de saúde e bem-estar

entrevista

Legado de saúde e bem-estar

Mariela Silveira, diretora médica do Kurotel, está à frente desse premiado spa médico, que se propõe a transformar vidas por meio da medicina preventiva e do bem-estar integral

Por Tatiana Sasaki

Retratos Germano Lüders

Filha caçula do fundador do Kurotel, Mariela Silveira assumiu a direção clínica do renomado spa médico em Gramado, na Serra Gaúcha, há quatro anos, com uma sólida bagagem profissional. Sua formação inclui nutrologia, acupuntura e terapia cognitiva, além de experiências internacionais que lhe permitiram absorver o que há de melhor em hospitalidade. Mais do que seu extenso currículo, o que impulsiona sua trajetória é um profundo compromisso com a medicina preventiva e o cuidado com o estilo de vida. Ele se reflete na busca constante por atualizações e pela incorporação de tecnologias avançadas, sempre visando o bem-estar dos pacientes. No Kurotel, os hóspedes encontram mais do que um refúgio de luxo e gastronomia refinada. Ali, as mais recentes descobertas científicas são aplicadas em tratamentos personalizados. No centro desse trabalho está o Método Kur, desenvolvido há mais de cinco décadas por Luís Carlos Silveira, pai de Mariela e pioneiro da medicina preventiva. Desde o início, o método se destacou por priorizar a promoção da saúde – e não apenas tratar doenças. Hoje isso parece ser mais relevante do que nunca, em uma sociedade que enfrenta ansiedade, burnout e estresse e busca aprender a envelhecer com qualidade. “O Kurotel procura reconectar as pessoas consigo mesmas, ajudando-as a refletir sobre suas escolhas em relação ao tempo, à alimentação e aos relacionamentos”, afirma Mariela. Para alcançar esse objetivo, uma equipe multidisciplinar realiza avaliações individuais para tratar condições como insônia, dores crônicas, irritabilidade, tabagismo e o uso excessivo de telas de computador, além de oferecer programas voltados a emagrecimento, reabilitação física e revitalização. A despeito da condição clínica, o que a família Silveira e os profissionais do Kurotel proporcionam vai além do tratamento: é um acolhimento especializado, que visa ajudar as pessoas a alcançar mais satisfação e equilíbrio. Esse é o legado que Mariela Silveira se dedica a perpetuar.

THE PRESIDENT _ O Kurotel é reconhecido como um dos melhores spas médicos da América Latina, com mais de 40 anos de história. Como ele surgiu?

Mariela Silveira – Essa história começa com meu pai, quando ainda era estudante de medicina na Universidade Católica de Pelotas. Ele percebia que muitos dos pacientes não estariam doentes se tivessem tido acesso a uma abordagem preventiva mais cedo. Essa inquietação o levou a desenvolver o Método Kur, com foco no estilo de vida e na prevenção. Em 1982, ele e minha mãe, Neusa, abriram o Kurotel, em Gramado, em um lugar muito agradável, que já tinha uma atmosfera propícia à reflexão e ao bem-estar. Meu pai era completamente dedicado à medicina, enquanto minha mãe trouxe um olhar mais empresarial, ajudando a transformar o sonho em algo estruturado.

O que o Método Kur propõe e como ele se diferencia de outras abordagens?

O Método Kur é baseado em cinco pilares: água, movimento, alimento, relaxamento e equilíbrio. Atendendo as colônias italiana e alemã em Gramado, em muitas das quais não se falava português, meu pai entrou em contato com pessoas que se tratavam na Alemanha, sobretudo com a hidroterapia. Conheceu o trabalho de Sebastian Kneipp e se aprofundou no tema por meio de viagens e especializações. Percebeu que a hidroterapia não apenas curava, mas também prevenia doenças. Assim, há mais de 50 anos, meu pai concebeu o Método Kur, que ainda se baseia nos mesmos cinco pilares. O diferencial do Kurotel é seu enfoque na prevenção, promovendo um cuidado integral à saúde e incentivando mudanças nos hábitos e no estilo de vida.

Seu pai foi um pioneiro da medicina preventiva no Brasil?

Sem dúvida. Quando criou o método, em 1971, conceitos como “medicina do estilo de vida” e “medicina preventiva” nem existiam por aqui. Foi com a Carta de Ottawa, de 1986, que se começou a falar em medicina preventiva. Ele foi, portanto, um precursor nesse campo, sempre com o olhar à frente do seu tempo.

Como foi crescer nesse ambiente? Isso influenciou a sua escolha de seguir a carreira médica?

Com certeza. Na prática, nasci dentro do Kurotel, convivendo com toda essa atmosfera. Lembro de acompanhar meu pai em palestras e eventos. Eu tinha 4 ou 5 anos, quando fizemos uma viagem aos Estados Unidos, em um momento em que saíam os primeiros estudos sobre o “stress”, quando nem havia um termo equivalente em português. Meu pai comprou aparelhos como o Biofeedback, que ajudava a monitorar a frequência cardíaca, a sudorese e outras respostas físicas ao estresse. Cresci vendo-o falar sobre prevenção e longevidade, e isso, claro, influenciou muito minha decisão de seguir a medicina.

“A genética permite personalizar as recomendações. Até porque cada corpo processa nutrientes e carboidratos de forma diferente.”

Assumir a direção de um legado tão significativo foi um desafio?

Está sendo um processo gradual e muito natural. Meus pais sempre nos incluíram no Kurotel de forma orgânica, permitindo que absorvêssemos responsabilidades ao longo dos anos. A transição segue em andamento, com o apoio de uma assessoria de governança corporativa para alinhar a família, o negócio e a gestão. Apesar de sermos uma empresa familiar, é necessário garantir uma operação profissionalizada. Há quatro anos, eu sou responsável pela parte técnica, enquanto minhas irmãs estão envolvidas em outros aspectos do negócio. A transição continua, com a presença do meu pai, que segue ativo e trabalhando.

O conceito de spa se transformou bastante, não é?

Sim, na década de 1990, o conceito de spa no Brasil estava muito ligado a emagrecimento, estética e relaxamento. Meu pai foi resistente em adotar o termo, pois sempre focamos o bem-estar de dentro para fora. A estética pode ser parte do processo, mas nosso foco sempre foi mais profundo. Hoje costumamos dizer que o Kurotel não é apenas um hotel, um spa ou uma clínica médica, mas uma combinação dos três. Curiosamente, a palavra spa tem suas raízes no latim sanum per aquam, que significa “saúde pela água”, remetendo às fontes curativas. Algo muito alinhado com o que sempre fizemos e continuamos a fazer: o uso terapêutico da água. Temos um circuito de águas, e o utilizamos como terapia para diversas condições, como questões circulatórias, edemas e dores, em banhos termais ou contrastes térmicos, sempre personalizados com as necessidades individuais de cada pessoa.

Além da água, os pilares movimento e alimento são fundamentais, certo?

A prática de exercícios físicos é essencial para combater o sedentarismo e tratar diversas condições de saúde. No caso de pessoas com déficit cognitivo, a primeira recomendação é sempre o exercício físico. E é importante que isso seja feito de maneira adequada para cada pessoa e faixa etária, combinando o fortalecimento muscular com outros treinamentos, como exercícios aeróbicos e alongamento. Hoje sabemos que os músculos desempenham um papel imenso na neuroproteção. O músculo, por ser um órgão endócrino, influencia diretamente a qualidade de vida, a cognição e a autonomia, indo muito além da questão estética. Há até estudos que relacionam a massa muscular com a expectativa de vida, destacando sua relevância para o envelhecimento saudável. A alimentação é igualmente um pilar. No Kurotel, trabalhamos com o conceito de individualidade bioquímica. Ou seja, o que funciona para uma pessoa pode não ser ideal para outra. Utilizamos o conhecimento genético para personalizar as recomendações, analisando como o corpo de cada pessoa metaboliza carboidratos, gorduras e outros nutrientes.

A medicina avança de forma impressionante. De que maneira essas descobertas são incorporadas? A genética, por exemplo, parece ser um excelente ponto de partida para explicar como vocês abrangem a ciência.

Quando começamos, o código do genoma humano ainda não havia sido mapeado. Em 1994, começamos a explorar essa área por meio de uma parceria com a equipe de geriatria da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica), que já realizava um trabalho extenso em Veranópolis, a cidade com a população mais longeva do Brasil. Ela tem mais de 40 anos de estudos sobre o estilo de vida dessa população e, há muitos anos, acompanha também a parte genética. Hoje trabalhamos com diversos laboratórios, tanto no Brasil quanto no exterior. Acreditamos na importância de entender que cada pessoa funciona de maneira única. Por exemplo, se me perguntarem qual é a melhor dieta – carnívora, vegana ou vegetariana –, minha resposta será: depende. Temos à disposição tecnologias que nos permitem avaliar o que é mais adequado para cada indivíduo. Um exemplo é o avanço no diagnóstico de sensibilidades alimentares. Não é todo mundo que deve evitar glúten ou lactose. Algumas pessoas se beneficiam, e outras não.

Outro avanço recente é o estudo da microbiota intestinal.

Exatamente. Hoje conseguimos realizar exames que avaliam o DNA das bactérias no intestino, o que nos dá uma compreensão muito mais clara dessa população microbiana. Com base nessas informações, conseguimos melhorar desde resistência insulínica e dermatite atópica até questões relacionadas ao sistema nervoso central, como cognição e humor.

Parece que as descobertas recentes validam aspectos que, no passado, eram menos evidentes.

Sempre trabalhamos com evidências científicas, mas também com uma abordagem individualizada. Enquanto estudos epidemiológicos são essenciais para estabelecermos diretrizes, nem todos os pacientes se encaixam nesses padrões populacionais. Com a inteligência artificial e o cruzamento de grandes bases de dados, conseguimos aumentar ainda mais a precisão nos diagnósticos e tratamentos. Um exemplo é o exame genético, que só precisa ser feito uma vez, mas exige que, como médicos, estejamos atualizados sobre novos estudos, buscando entender como aplicar as descobertas recentes em benefício do paciente. 

Quais os benefícios da meditação?

Esse assunto é fantástico. Práticas como a ioga, o tai chi chuan e a oração têm sido estudadas e apresentam ótimos níveis de evidência científica. Estudos de ressonância magnética funcional mostram que é possível identificar diferenças no cérebro de quem pratica meditação, em comparação com quem não pratica. Além da percepção de bem-estar, que já era esperada, foi comprovado que também provoca mudanças anatômicas no cérebro. A prática mindfulness, por exemplo, é a mais estudada nos últimos anos. Ela não está ligada a aspectos religiosos. Em apenas oito semanas, praticando em média 23 minutos diários, já se observam mudanças significativas em áreas do cérebro, como a redução da amígdala cerebral, que está associada ao estresse crônico. Esses efeitos não se limitam ao bem-estar emocional. A meditação também pode beneficiar a saúde física, ajudando no controle de dores crônicas, síndrome do intestino irritável, arritmias cardíacas e hipertensão.

Foi esse seu entusiasmo com a meditação que a motivou a fundar a Mente Viva?

A meditação, assim como a medicina, é uma grande paixão para mim. Não tenho nenhuma dúvida de seu potencial enquanto ferramenta de saúde pública. A Mente Viva surgiu com a intenção de levar o bem-estar que promovemos no Kurotel a um público mais amplo, expandindo essa essência para mais pessoas. É uma ONG que promove a meditação com crianças e adolescentes em escolas públicas e particulares. Começamos pequenos e hoje, após 17 anos, estamos trabalhando com a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, levando meditação a 30 regiões do estado, atendendo 304 mil jovens de forma voluntária e gratuita. Embora o benefício da meditação ocorra em todas as idades, começar na infância pode transformar os padrões de vida. Meditar ajuda a lidar melhor com os desafios e múltiplos estímulos do dia a dia, criando momentos de introspecção e subjetividade que fazem toda a diferença para uma vida mais equilibrada e significativa.

A população está ficando mais longeva. Que papel o Kurotel pode desempenhar em relação ao desafio de envelhecer com qualidade de vida? Os programas que vocês oferecem ajudam nessa preparação?

Com certeza, esse é um dos nossos principais objetivos. A maioria dos nossos clientes tem entre 40 e 60 anos, mas atendemos pessoas de várias idades. Recebemos gente de 90 anos e jovens de 20. Essa diversidade de gerações torna o ambiente mais enriquecido. E, sim, todos podemos começar a nos preparar desde já para um envelhecimento mais saudável e com qualidade de vida. 

O que os clientes podem esperar do Kurotel?

Nossa missão é levar essa filosofia de vida saudável e longevidade para o maior número de pessoas possível. Como representante da segunda geração da família, sinto que é minha missão continuar essa trajetória. Temos recebido convites para expandir nossos serviços para outros locais e estamos analisando as oportunidades com carinho. Nosso foco é manter e expandir esse espírito de cuidado com a saúde. Sentimos que somos guardiães desse legado e queremos compartilhá-lo com mais pessoas no futuro.