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Máximo prazer, mínimo impacto

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Máximo prazer, mínimo impacto

Texto e Fotos por Luciana Lancellotti, de Paris

No hotel Le Meurice, em frente ao Jardin des Tuileries, o charme histórico parisiense abraça um futuro sustentável

Em Paris, passado e futuro caminham lado a lado. Reina um equilíbrio entre o Velho Mundo e o novo luxo, que tive a sorte de vivenciar mais uma vez, hospedada no Le Meurice. O hotel já recebeu de Salvador Dalí a Beyoncé. Mantém um ar de sofisticação que faz você se sentir um pouco mais elegante só de passar pelo saguão. E, se o espírito de Dalí ainda vagueia pelos corredores, deve estar deliciado com o que vê: os ambientes do palácio de mármore e cristal abrigam obras de arte clássicas e contemporâneas, em uma combinação fluida entre arte, história e a constante reinvenção do espaço. Com histórias testemunhadas desde 1835, o hotel poderia se contentar em ser um museu do luxo. Porém decidiu investir no futuro ao priorizar, por exemplo, a sustentabilidade. A preocupação com o impacto ambiental se revela desde os materiais ecológicos instalados nos quartos até as práticas de economia de energia e gestão de resíduos, sem jamais comprometer o luxo e o conforto.

A simplicidade elevada à excelência

Le Meurice Alain Ducasse é o restaurante de duas estrelas Michelin do hotel, com ambiente inspirado no espetacular Salon de la Paix do Château de Versailles, que respira arte do teto ao piso – e ali a arte vai além: cada prato é um manifesto. Afinal, o mestre Alain Ducasse não só pensa em sabores. Ele pensa no planeta. Graças a essa preocupação, Le Meurice foi o primeiro hotel de luxo de Paris a receber o selo Écotable, pelo comprometimento com as práticas gastronômicas sustentáveis. Prestes a vivenciar o ápice dessa jornada, ocupei um dos oito assentos cobiçados da Table du Chef, uma experiência quase voyeurística. De uma sala com atmosfera intimista, sob tons de preto e dourado, espia-se a movimentação dos chefs pela janela de vidro, sem ser visto. O chef executivo Amaury Bouhours, tutelado por Ducasse, é quem, em geral, comanda a experiência gastronômica, mantendo o compromisso: 95% dos ingredientes vêm de pequenos produtores, obtidos em um raio de 100 km de Paris. A sequência é uma viagem pelos cinco cantos do paladar, com surpresas a cada curva.

Pela filosofia de Ducasse, a natureza decide o que está no prato. Isso se traduz em sugestões de uma simplicidade quase desconcertante, em que cada sabor é intensificado pela precisão. Naquela noite, o prato principal foi o Poularde de Culoiseau – frango típico da Normandia –, cuidadosamente assado, com pele crocante e dourada. Fatiada com capricho, a ave revelava camadas suculentas e tenras, acompanhada por brócolis perfumados com azeite. Ao redor da carne, foi derramado um caldo à base dos próprios sucos do frango com aromas de azeite de alho selvagem, adicionando um sabor umami intenso e um toque de acidez, que completaram a profundidade do paladar. A harmonização, feita com champanhes Dom Pérignon, explorou o potencial de cada safra, um resultado da feliz colaboração entre Bouhours e o mestre de cave do restaurante, Vincent Chaperon.

Cereja do bolo

A máxima de que comemos primeiro com os olhos foi endossada por Cédric Grolet – o chef confeiteiro mais famoso do planeta –, que finalizou o jantar com seus doces de efeito trompe l’oeil. Chegaram à mesa reproduções de grãos de café que arrancaram sorrisos. Pega-se com as mãos, morde-se o grão e, voilà, a crosta de chocolate amargo se rompe, revelando camadas de prazer à base de café: espuma leve, creme sedoso, gel e biscoito com praliné. A outra sobremesa reproduzia uma fava de baunilha de Madagascar, celebrando a complexidade do ingrediente com gel, musse diplomata, creme aveludado, praliné com flor de sal e um sorvete capaz de dissolver qualquer resistência, como se provocasse: “Quem precisa de sobremesas convencionais quando se pode ter arte em forma de comida?”
Voltar ao quarto foi quase como retornar de uma viagem. De fato, estar no Le Meurice é um pouco como viajar no tempo – com o conforto de saber que o futuro também está sendo cuidadosamente planejado. De certa forma, é reconfortante perceber que, mesmo no coração da opulência, em um dos endereços mais ilustres do mundo, há espaço para algo maior do que o luxo.

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