A trajetória de Fabiano Funari estava ligada à Índia antes assumir o posto de country head no Brasil da gigante de tecnologia HCLTech
Por Fabiano Mazzei
Retratos Germano Lüders
A Índia ficará marcada para sempre na vida de Fabiano Funari, paulistano nascido no Canindé, Zona Norte de São Paulo. Formado em ngenharia e administração de empresas, ele é, desde 2021, o country head no Brasil da HCLTech, uma gigante global de soluções tecnológicas. A companhia impulsiona a digitalização de negócios de outras empresas e organizações. Foi fundada em 1976, na cidade indiana de Noida.
Trata-se de um titã do mercado mundial. A HCLTech começou fabricando computadores em uma garagem, evoluiu para uma prestadora de serviços de tecnologia nos anos 1990 e, hoje, conta com 218 mil funcionários, de 161 nacionalidades e em 59 países. Ela oferece recursos de ponta centrados nas áreas digital, de engenharia, nuvem e IA, suportados por um amplo portfólio de serviços e produtos de tecnologia. Entre as áreas verticais atendidas estão serviços financeiros, manufatura, ciências biológicas e saúde, tecnologia e serviços, telecomunicações e mídia, varejo e bens de consumo, além de serviços públicos. No Brasil, ela tem vários clientes que estão entre as maiores empresas do mundo. No período de 12 meses, terminados em março, a receita consolidada foi de 13,7 bilhões de dólares. A relação do executivo brasileiro com o país asiático começou antes de assumir o atual posto. Ele vendeu uma companhia da qual era sócio para um grupo indiano e passou 30 dias viajando de carro pela Índia – ao lado da Cibele, sua esposa, com quem está casado há 22 anos. Queria entender a cultura e os costumes locais. Descobriu cores, aromas e sabores, em uma sociedade diversa e harmônica quanto à religiosidade. “É um lugar fascinante, onde o respeito às diferentes crenças chama a atenção”, diz. Pai e avô, são-paulino de coração e chef de cozinha e garimpador de antiguidades nas horas vagas, Funari conversou com THE PRESIDENT para falar de sua experiência como executivo, da transformação digital das empresas brasileiras, dos desafios do setor de TI no Brasil e, claro, de Índia.
Fabiano Funari – Fiz muitas viagens incríveis na vida e a Índia é um desses destinos fascinantes. É um povo que mantém a identidade mesmo tendo sido colonizado por tantos países. O Reino Unido foi o último deles, mas os indianos não se vestem como britânicos. A comida e os costumes são os mesmos há séculos. E o respeito à religiosidade é impressionante: é o maior país muçulmano do mundo e tem a segunda maior comunidade católica – atrás apenas do Brasil –, além do hinduísmo e budismo. Você não vê agressividade entre essas crenças.
A capacidade de investimento deles é enorme. É a terceira nação com maior número de unicórnios, e a produtividade é gigantesca. Enfim, muita gente está indo para lá e realizando grandes negócios, dentro de um modelo de cooperação e com muita troca de experiências. Temos similaridades e há muito o que trocar com o povo indiano. No aspecto social, somos parecidos: a estrutura familiar e as relações profissionais são similares. Em outro ponto, a Índia precisa de segurança energética e alimentar, temas em que o Brasil tem muito a oferecer. E eles podem nos ajudar na formação dos profissionais, por exemplo.
É uma relação muito boa. São países que se complementam. Nossa empresa mantém uma relação muito forte com as embaixadas da Índia, que têm tido um papel atuante em promover negócios bilaterais. As câmaras de comércio de ambos os países têm trabalhado em conjunto também.
Eu vim para liderar a operação do Brasil e implementar uma estratégia go-to-market. Foi uma decisão do board global investir no país para aumentar a carteira de clientes com contratos originados aqui. Até então, atuávamos como um delivery center para contratos globais com empresas que têm operação no país. Obviamente, o Brasil é uma das dez maiores economias do mundo e tem uma importância estratégica e de resultados para a companhia. Desde 2021, temos crescido organicamente 30% ao ano, um resultado acima até mesmo do que a empresa realiza como um todo. Mas, claro, precisamos crescer mais e mais rapidamente.
Em geral, temos questões relacionadas à infraestrutura de conectividade, à complexidade dos sistemas legados dentro das empresas brasileiras e à escassez de mão de obra qualificada para atuar no setor, além de segurança fiscal e jurídica. A infraestrutura do país é um desafio como um todo, independentemente do setor. No caso das telecomunicações, afeta diretamente essa estratégia de digitalização das empresas: enquanto se fala em 5G nas capitais, há lugares no Brasil em que não existe nem o 3G. A banda de alta velocidade não é útil apenas para o dia a dia das pessoas. Ela ajuda na evolução dos negócios, faz máquina conversar com máquina, permite que tecnologias mais modernas sejam utilizadas.
Este é o outro ponto: as empresas brasileiras sofreram bastante com a reserva de mercado, que vigorou no país durante muito tempo. Para contornar o problema, construíram infraestruturas internas de processamento de dados – que chamamos de legado – muito complexas, misturando diferentes tecnologias. São como colchas de retalhos e isso dificulta na hora da adaptação dos negócios para a nova realidade do mercado. Temos casos de clientes com capacidade de investimento em tecnologia que ficam patinando na transformação digital. Grandes bancos têm passado por isso. Sem a tecnologia adequada, a evolução acaba sendo um entrave: você precisa modernizar todo o seu legado a fim de estar apto a trabalhar com novas tecnologias, como o 5G, e preparado para as atuais demandas. Existe um caminho a ser trilhado e, no caso do Brasil, isso é mais difícil em razão de como as empresas construíram seus parques tecnológicos.
A cloud é um meio, e não um fim. A migração para a nuvem é importante porque é onde a empresa pode ganhar agilidade. É um ambiente favorável para que ela acesse rapidamente as informações e consiga desenvolver novas aplicações e funcionalidades, facilitando o go-to-market e as estratégias comerciais. Mas é preciso analisar cada perfil de negócio para entender qual a melhor estratégia, se multicloud, nuvem pública ou privada.
Nem tudo. A migração também nem sempre resulta em economia de dinheiro. Mas é o ambiente ideal para quem precisa de agilidade nesse processo de transformação e nas tomadas de decisão. O importante é ter um parceiro tecnológico que ajude na escolha.
É um mercado muito demandante e é preciso investir em formação de mais profissionais. Algo que, aliás, deveria ser um plano de estado, com a ajuda da iniciativa privada. Um trabalho que a Índia começou a fazer lá atrás, treinando muita gente. Hoje é um celeiro de bons profissionais de TI.
O que temos procurado fazer é criar um ambiente favorável para reter as pessoas. Ainda assim, sempre há o risco de perda. Em geral, o que faz o profissional optar por sair é a questão financeira ou a falta de visão de perenidade no seu negócio. Em TI, se o colaborador está terminando um projeto e não enxerga outro vindo, ele vai em busca de um novo trabalho – e pode largar você antes mesmo de terminar o que estava fazendo. Na HCLTech, procuramos mostrar que existe a perpetuidade e treinamos profissionais para que possam seguir para o próximo projeto conosco. Mostrar uma empresa crescendo, saudável e que investe na formação dos profissionais é a nossa estratégia.
Em especial a IA generativa, a partir da análise de big data, tem sido essencial na sugestão personalizada de ações e cenários cada vez mais próximos da realidade, que auxiliam na tomada de decisão mais assertiva pelos gestores das companhias. O uso de dados nos negócios é uma preocupação antiga das lideranças empresariais. Conforme a tecnologia vai empoderando o usuário, maior é o volume de informação gerado e mais importante se torna a gestão eficiente desses dados. A hiperpersonalização é fundamental no processo, pois cria soluções exclusivas para cada cliente. Fazendo uma comparação, antigamente você escolhia um carro com três opcionais: com ou sem trio elétrico, cor metálica ou não e com ou sem rádio. Hoje é possível customizar até a costura dos bancos para combinar com a cor do veículo. A transformação dos negócios passa por um processo semelhante. Além disso, deve ajudar a aumentar a produtividade, contribuindo para dar velocidade ao desenvolvimento de novos produtos e serviços e aprimorar o atendimento, entre outras frentes.
Com o ambiente digital cada vez mais complexo, aumenta o risco relacionado à segurança. Nossa empresa tem mais de 25 anos de experiência em cibersegurança, com seis grandes centros de monitoramento global, prestando serviços a empresas e órgãos governamentais, como as forças armadas norte-americanas. Temos soluções próprias para garantir a proteção de dados interna e dos nossos clientes e parceiros.
Nossa empresa é apoiada em quatro pilares: pessoas, clientes, sociedade e planeta. As pessoas são os nossos colaboradores, e são mais de 218 mil em todo o mundo, 1,2 mil no Brasil. Fomos classificados como Great Place to Work por quatro anos consecutivos e certificados como Top Employer em 26 países. Temos uma forte preocupação social. Apoiamos ONGs com trabalhos consistentes em todo o mundo. Uma das ações no Brasil que a HCLTech apoia e financia são consultas e a compra de óculos para crianças em situação de fragilidade. Os problemas de visão são um dos principais motivos da evasão escolar dos jovens. Quanto ao planeta, no Brasil, por exemplo, plantamos 25 mil mudas na Mata Atlântica no ano passado. Prosseguimos com a ação, cuja meta é chegar ao plantio de 100 mil árvores. E globalmente nos comprometemos a alcançar meta zero de emissões líquidas até 2040.
Eu chego ao escritório, no bairro da Vila Olímpia, às 5 da manhã, respondo e-mails por uma hora e, às 6, vou para a academia do prédio. Treino todos os dias, musculação ou pilates. Às 8, já estou de volta na minha mesa. É o ônus de quem trabalha em uma empresa global, com chefes em Seattle e Nova York e backoffice na Índia. O fuso horário é grande.
Além de viajar com a minha esposa, gosto de ler. Indico Além do Topo, de Zig Ziglar, e Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie. Também adoro cozinhar para a família nos finais de semana. Costumo ir até ao Mercadão Municipal para comprar ingredientes.
As pessoas gostam bastante do meu churrasco, do bacalhau e de um fettuccine alfredo com paillard.
Não. A turma não gosta e eu não faço bem. Até trago de lá alguns temperos e umas sementinhas digestivas. Quando quero comer algo da culinária indiana, prefiro ir aos restaurantes especializados que existem em São Paulo. É mais garantido.