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Experiência compartilhada

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Experiência compartilhada

Em livro recém-lançado, Igor Mazaki divide o que aprendeu liderando a área de inovação em duas gigantes do setor automobilístico

Por Marcio Ishikawa

Retratos Marcelo Spatafora

Inovação é uma das palavras em voga. Pouca gente no globo mergulhou tão a fundo nessa seara como Igor Mazaki, atual diretor global de inovação da Jaguar Land Rover. Ele acaba de lançar o livro Inovação sem Complicação. Na obra, reflete sobre o assunto e sua aplicação e apresenta o Método T, criado a partir de sua experiência. THE PRESIDENT conversou com o executivo em São Paulo, em meio ao tour de divulgação do livro. O tino para a inovação vem de antes de a palavra ser incorporada em seu job title. Quando era analista financeiro da General Motors, por exemplo, ficou inconformado com 30 Celtas brancos sem ar-condicionado encalhados em um concessionário nordestino – afinal, no Sul eles teriam uma saída mais fácil e margem maior. A partir desse fato, ajudou a criar um programa de revenda entre os concessionários para desovar estoques. Depois, Mazaki interrompeu a carreira promissora para fazer um mestrado em economia, na Universidade de Paris-Pantheon Sorbonne, França. De volta, ele nem sequer cogitava voltar ao setor automotivo. Até ser chamado pela Nissan para reestruturar a parte financeira da rede de concessionários. Lá ele conheceu François Dossa, seu atual chefe e a quem chama de mentor. Foi com ele que Igor Mazaki entrou de cabeça no mundo da inovação – primeiro na Alliance Ventures (o fundo de investimentos em tecnologia da Renault-Nissan-Mitsubishi) e, no momento, na Jaguar Land Rover.

THE PRESIDENT _No livro, você fala que a inovação não é uma rocket science. Na verdade, pode até ser, mas não é só isso. Enfim, o que é a inovação?

Igor Murakami – A inovação é fazer algo de forma diferente, mas que nasce para resolver uma dor que você tem. Inovar não é criar a próxima NVIDIA, a grande empresa de inteligência artificial. Dá para inovar no dia a dia, em seus processos, na forma como você cuida de suas finanças pessoais, por exemplo. A inovação pela inovação não existe. Ela precisa de um propósito.

A inovação é subestimada ou desprezada no mundo corporativo?

A inovação foi banalizada. Criaram departamentos com cinco pessoas e um budget de 10 milhões de dólares e queriam a inovação. É um erro bem pesado, pois a inovação tem que resolver um problema específico da empresa. Por isso, é preciso criar uma cultura em que todos estejam abertos a entender novas ideias e abraçar a inovação.

Como nasceu a ideia de escrever o livro?

Eu jamais tinha pensado nisso, mas ela acabou surgindo da percepção de uma dor e, mais tarde, de uma conversa com o amigo Flavio Tavares. Sempre que falo da minha carreira ou de inovação, em uma palestra, painel ou evento, eu conto alguns cases. A gente investiu aqui, colocou essa equipe para trabalhar com essas coisas, o resultado foi muito legal etc. Muitas pessoas me procuravam ainda no palco: “Sou da área de inovação na minha empresa e a gente não consegue fazer isso que você mostrou. Como que você faz?”

Como você faz?

A questão é que não existe um framework que dê para copiar, colar e tudo rodar automaticamente. Empresas, culturas e pessoas são diferentes! É preciso adaptar o processo de inovação a cada empresa para que ela funcione. Aí eu pensei: “Eu deveria escrever um livro sobre isso”.

Inovação sem Complicação é, portanto, voltado para quem tem esse tipo de dor em relação à inovação?

A ideia é que qualquer pessoa – um diretor de uma empresa de 100 bilhões de dólares, o dono de uma loja ou um pequeno empreendedor – consiga ler e concluir: “Pô, eu também posso inovar”. Escrevi de forma que o livro fosse leve e fácil de ler. Apresento cases famosos, de épocas diferentes, por ângulos pouco conhecidos, para mostrar como a inovação muda ao longo do tempo. E tem também o que funcionou em minha carreira. 

A partir do que funcionou você criou o Método T. Conte sobre ele.

Para a inovação dar certo, é preciso ter pessoas com perfis diferentes. Primeiro, os executores, que formam a base do T e organizam a empresa para que a inovação aconteça. É quem explica para o cara de finanças o valor que a inovação agrega, diz ao responsável de compras o que vai acontecer, de forma que ele possa adaptar os processos, e assim por diante. E tem a parte de cima do T, que é a parte visionária, das ideias, em que o céu é o limite. 

Os executores colocam todos na empresa na mesma página, por assim dizer.

É preciso trabalhar os processos internos. Não adianta ter um silo de inovação e outro do core business sem que eles conversem, interajam. Como disse, a inovação precisa resolver alguma dor da empresa. Também tem de estar ligada à estratégia. Que ajude a levar a organização para onde se deseja. Para isso, evidentemente, é preciso ter claro aonde se quer estar no futuro.

Como era o trabalho com o lado visionário?

François Dossa foi meu chefe na Alliance Ventures e depois, quando integrou o board da Jaguar Land Rover, me levou para lá. A gente trabalha bem junto porque ele é o visionário, tem as ideias. Aí eu digo: “Legal, mas para tudo acontecer precisamos fazer tudo dentro do compliance, dos processos da empresa”. Falo dessa parte no livro e abordo um pouco da cultura.

Por que a questão da cultura é importante?

A inovação é difícil, por isso ela tem que ser comemorada.
É preciso deixar o time motivado e feliz, fazer barulho, mostrar o resultado – e isso vale para as pequenas conquistas. Aos olhos do CEO ou do CFO, o retorno pode ser baixo. Não muda o PNL, mas você tem um time motivado e um ambiente de trabalho melhor. 

Inovar é fundamental para uma empresa progredir e vislumbrar um futuro?

A inovação é essencial. O mundo está cada vez mais tecnológico e complexo. Tudo acontece rapidamente. Se você não inova na maneira como trabalha, na forma como coloca a tecnologia para dentro da empresa ou cuida e interage com o cliente, você vai morrer.

Qual é a importância e o papel das startups?

Eu sou fã das startups, que são diferentes de uma empresa grande, em que todos sentam no budget: “Só faço com X milhões”. O “estartupeiro” tem fome e começa as coisas com zero orçamento. O ecossistema global de startups é um centro de pesquisa e desenvolvimento ilimitado. Por exemplo, a Tesla e a Amazon investem em startups para ajudar a resolver as suas necessidades. Eles têm varias delas, além de empresas parceiras, que fazem parte de seu ecossistema de inovação.