Erika de Paula: a ortodontista que enxergou um negócio onde outros viam rotina

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22/10/2026

Erika de Paula: a ortodontista que enxergou um negócio onde outros viam rotina

Fundadora e CEO do Grupo CULT, a empresária transformou uma inquietação de consultório em um ecossistema de saúde, estética e bem-estar na Vila Olímpia e agora aposta em inteligência artificial e em uma frente voltada ao próprio mercado

Por Amélia Whitaker

Fundadora e CEO do Grupo CULT, a empresária transformou uma inquietação de consultório em um ecossistema de saúde, estética e bem-estar na Vila Olímpia e agora aposta em inteligência artificial e em uma frente voltada ao próprio mercado

Todo bom negócio nasce de um incômodo. O de Erika de Paula Godinho apareceu na cadeira de ortodontista, depois de mais de duas décadas de atendimentos. Paciente após paciente, ela via a mesma cena se repetir: um endereço para a saúde, outro para a estética, um terceiro para o bem-estar, com profissionais que raramente conversavam entre si.

Onde muitos colegas enxergariam apenas um problema do sistema, Erika viu uma lacuna de mercado. “Durante os atendimentos, percebi que muitas pessoas percorriam vários consultórios, repetiam informações e recebiam orientações que nem sempre estavam conectadas. A criação da CULT veio dessa experiência”, conta.

Foi aí que a cirurgiã-dentista vestiu também o papel de empresária.

Um incômodo que virou modelo de negócio

O Grupo CULT nasceu com uma tese clara: reunir no mesmo endereço o que o paciente costumava buscar em lugares diferentes. Hoje, a empresa opera cinco frentes na Vila Olímpia, em São Paulo: CULT Odonto, CULT Esthétique, CULT Méd, SPA da CULT e CULT CLUB, com equipes multidisciplinares que trabalham de forma integrada.

O diferencial, segundo a fundadora, não está só na conveniência. “A proposta foi aproximar especialidades e permitir que cada profissional compreenda o paciente dentro de um contexto mais amplo”, explica. Isso se traduz num atendimento organizado em quatro tempos: escuta, planejamento individual, explicação das etapas e acompanhamento.

A CEO que não largou a cadeira

Como CEO, Erika responde pela estratégia, pelo posicionamento e pelo desenvolvimento da marca, enquanto a direção clínica fica a cargo de Victor Ruano. Uma divisão de papéis que permite à fundadora olhar para o negócio sem perder o pé na operação.

E ela não perdeu. Especialista em Ortodontia, com aperfeiçoamento no Brasil e no exterior, Erika segue atendendo, sobretudo em tratamentos com alinhadores e planejamento ortodôntico. Para uma empresária do setor de saúde, é uma vantagem competitiva rara: as decisões de gestão são tomadas por quem conhece de perto a experiência do cliente final.

Leitura de mercado: o cliente mudou

A passagem da clínica para a gestão também afiou o olhar de Erika para o comportamento do consumidor de saúde. A indicação boca a boca continua importante, mas agora divide espaço com o Google, as redes sociais, o WhatsApp e as ferramentas de inteligência artificial. Quando chega ao primeiro contato, o paciente já leu, comparou e formou opinião.

“O consultório deixou de ser o primeiro ponto de contato”, resume a empresária. Para ela, entender esse percurso é estratégico, mas exige critério. “Na área da saúde, presença digital precisa estar ligada a conteúdo, clareza e confiança.” Em outras palavras: autoridade se constrói com informação, não com vitrine.

IA como ferramenta de gestão, não como modismo

Nos últimos anos, Erika passou a estudar e testar aplicações de inteligência artificial no relacionamento com pacientes. Um dos projetos que lidera avalia o uso da tecnologia no WhatsApp, canal onde boa parte das conversas efetivamente acontece, para automatizar respostas frequentes, triar pedidos de agendamento, manter o contato depois da consulta e integrar tudo isso à equipe.

A lógica é de eficiência operacional, com um limite bem definido. “A inteligência artificial pode organizar demandas, dar agilidade às respostas e evitar que uma conversa se perca. O cuidado, porém, continua dependendo de escuta, contexto e julgamento profissional”, afirma. E completa: “A tecnologia precisa ampliar essa capacidade, não ocupar o lugar das pessoas”.

Novas frentes: do paciente ao mercado

O que funciona dentro de casa virou produto para fora. Da experiência com tecnologia e relacionamento nasceu a CULT PRO, frente voltada a profissionais do setor. A iniciativa reúne conteúdo, ferramentas e comunidade em torno de inteligência artificial, presença digital, comunicação, autoridade profissional, experiência do paciente e empreendedorismo, justamente os temas que a formação clínica raramente cobre.

Para o público final, a ferramenta é o Journal da CULT, canal de artigos assinados por Erika sobre tratamentos, tecnologia, comportamento e inovação, em linguagem acessível. Mais do que conteúdo, é uma estratégia de marca coerente com o que ela defende: confiança se conquista informando.

O que move a empresária

Com a empresa em expansão para novas áreas, seria natural imaginar a ortodontia em segundo plano. Não está. Ela segue na rotina de Erika e funciona como ponto de partida para tudo o que ela constrói fora da cadeira, da organização do Grupo CULT aos estudos sobre a jornada de quem procura um profissional de saúde.

É talvez aí que esteja o traço mais marcante da empresária: a capacidade de transformar o que observa no dia a dia em estratégia de negócio. Um incômodo de consultório virou empresa. A empresa virou ecossistema. E o ecossistema, agora, começa a falar com o próprio mercado.