Como é se hospedar em três dos melhores hotéis Tivoli. Um em Lisboa e dois no Algarve
Por Walterson Sardenberg Sº
A fortuna do grandalhão norte-americano William Heinecke, 75 anos, segundo a revista Forbes, avança para além de 1,5 bilhão de dólares. Os hotéis cinco estrelas Tivoli são apenas uma diminuta parte do pecúlio do dono do Grupo Minor, com sede na Tailândia. Prepare-se para os números. A holding agrega mais de 550 hotéis, mais de 2,6 mil restaurantes e mais de 287 lojas de varejo, espalhadas por mais de 60 países.
Como se pode presumir pela última frase, uma das palavras que definem Bill – assim o tratam os amigos – é mais. Ou maior. Mais corpulento e muito mais rico em relação aos confrades, também tem mais senso de humor.
Explica-se. Heinecke desembarcou na Tailândia ainda criança, acompanhando o pai, militar, então destacado para servir numa base dos Estados Unidos. Ali ele se criou e mora até hoje. Deu a sorte de seu tino comercial ter se revelado com rara precocidade. Já era um próspero empresário na idade das espinhas, aos 17 anos. Por isso o grupo, fundado em 1967, se chama Minor. Traduzindo: “menor”. De idade, no caso.
Resumindo: em 2016, esse empreendedor maior comprou os 12 hotéis Tivoli – dez deles sediados em Portugal e dois no Brasil (no bairro dos Jardins, em São Paulo, e na Praia do Forte, na Bahia). Pagou 313 milhões de euros pelo pacote. Foi um alívio para os funcionários.
A companhia até então pertencia ao poderoso grupo lusitano Espírito Santo, que, dois anos antes, explodiu como bolha de sabão. Falência fraudulenta. Tempestade financeira. Os hotéis se quedaram à mingua, assim como os funcionários, esperando um desfecho, para o mal ou para o bem.
William Heinecke, hoteleiro calejado, apareceu como um ente providencial. Não só resolveu a pendenga como garantiu os empregos. Fez mais: restituiu o viço dos hotéis e adicionou novidades. Retomou, enfim, o sentido do nome Tivoli. Não o da comuna italiana romana, mas o do parque de diversões dos Jardins de Tivoli, em Paris, inaugurado em 1749.
Enfim, um lugar de alto-astral. THE PRESIDENT se hospedou em três desses enclaves lusitanos, de pleno bem-estar.
Do alto do nono andar do Tivoli Liberdade, em Lisboa, há um amplo terraço com bar e restaurante. É o ponto ideal para se deleitar em um fim de tarde. Eis aqui um dos dois melhores belvederes para observar a cidade. O outro é o Castelo de São Jorge – mas, em contrapartida, sem garçons e sem drinques.
Do topo do Tivoli, o visitante contempla a maioria das sete colinas que, tal como em Roma e Istambul, formam o centro da capital. Ao fundo, o Rio Tejo, luminoso. Adensando o olhar, percebe-se o melhor: Lisboa soube se modernizar sem macular a arquitetura de prédios baixos, erguidos com o incentivo do Marquês de Pombal, a partir do devastador terremoto de 1755. Sábia atitude.
O Tivoli, inaugurado no entreguerras, em 1933, também soube. Mantém a arquitetura de 1957, quando foi reconstruído. Reformas posteriores dotaram seu lobby de um majestoso pé-direito e ampliaram a acomodação dos hóspedes. Os 285 quartos agora primam pelo espaço. Vale também para o refinamento dos serviços, a ponto de garantir o ingresso ao fechadíssimo clube Leading Hotels, a mais criteriosa das associações dos hotéis de luxo. Entre os pormenores, um borrifador de delicada fragrância para lençóis e travesseiros à disposição do hóspede antes de se recolherem ao sono.
Os detalhes fazem jus a um hotel histórico, onde, entre outros do panteão de genuínas celebridades, dormiram Arthur Rubinstein, Maria Callas, Rudolf Nureyev, Henry Fonda, Fidel Castro e Neil Armstrong. Entre os brasileiros, Jorge Amado era um habituê. Vinha sempre, com Zélia Gattai.
Outro dos predicados do Tivoli é a gastronomia. Ela agrada não só a modernos como também a conservadores. Pode ser ousada no Seen by Oliver, o restaurante do topo. Ou tradicionalista no Liberdade, instalado no térreo. Em ambos, redobrado capricho.
Vale sublinhar que o hotel tem a melhor localização possível. Não só para de se deliciar com Lisboa vista do alto, mas também para percorrê-la a pé. O Tivoli Liberdade, como o nome prenuncia, está encravado na larga e fulgurante Avenida Liberdade, uma espécie de Champs-Élysées lisboeta – por sinal, sua contemporânea francesa.
Muito arborizada e repleta de lojas de grifes refinadas, ela acena com gostosos bares ao ar livre e a valorosa vizinhança dos bairros do Chiado e da Baixa.
São apenas 276 km de distância a partir de Lisboa. Menos de três horas de automóvel, em estradas confortáveis. Pronto. Você chegou a Carvoeiro, um vilarejo fincado em um dos mais belos trechos do Algarve, no sul do país. Relaxe e aproveite. O convidativo litoral do Algarve nos brinda com 320 dias de sol ao ano.
Repare nas casas, quase todas pintadas de branco. Em virtude do calor, elas têm as paredes bem espessas e as janelas pequenas. Lembram uma casbá árabe – o que, no caso, faz todo o sentido. O Algarve, afinal, foi a última região do domínio mouro a ser conquistada pelos reis católicos.
A herança islâmica sobrevive não só na arquitetura, mas em outros aspectos, incluindo a culinária, adepta das “especiarias”. Peça uma cataplana. Trata-se de uma metonímia: por cataplana entenda-se a panela onde se prepara o saboroso conjunto de frutos do mar.
Para melhorar ainda mais o passeio, o Tivoli Carvoeiro é o mais cênico dos hotéis da rede. Você atravessa o lobby e, ao final, ganha uma visão surpreendente e adorável do oceano. À esquerda, lá está uma falésia gigantesca, com seu paredão amarelo e ocre, exibindo reentrâncias. Ao centro, uma ilhota em forma de montanha vulcânica. À direita, graciosos jardins, que se erguem em degraus, terminando em um gazebo.
Tudo isso emoldura uma piscina redonda, cercada de espreguiçadeiras, diante da qual os pavimentos do hotel se debruçam, de modo oblíquo. Dos 248 quartos, 120 oferecem uma vista para o mar. Prefira um deles.
A vontade é de se refestelar à beira da piscina e por ali ficar. Seria ótimo – mas também um desperdício. A região tem praias incríveis, que inspiram visitas. São como as do sul da Bahia, encimadas por falésias – mas mais impactantes. Já as grutas que despontam dentro do mar fazem lembrar aquelas ao largo da Costa Amalfitana, na Itália, embora sejam maiores. Embarque nessa. Sim, leia-se ao pé da letra: passear de lancha é uma das ofertas imperdíveis.
Essa fração do Algarve e o cenário do Tivoli Carvoeiro de tão atraentes têm um toque de irrealidade. Mas irreal, no duro, é tratar o café da manhã de “pequeno almoço”, como fazem os portugueses. Não há nada de acanhado na fartura e no sabor empolgantes do desjejum. Queijos, embutidos, pães, tudo impressiona. Quem quiser pode bebericar espumantes. Estão incluídos no “pequeno almoço”, e na temperatura correta.
Como a do inesquecível Algarve.
Em tempo: não é recomendável se hospedar sozinho no Tivoli Carvoeiro, uma paragem pacata, muito benquista por aposentados norte-americanos e britânicos. Mas pode-se dizer o contrário da filial do Tivoli em Vilamoura, 50 km adiante. Tudo é novo, tudo é jovem por ali, a começar pela frequência.
Isso fica óbvio no animado beach club do hotel, da franquia Purobeach, movido a música eletrônica. Acredite: o agito é ainda maior nos bares que cercam a graúda marina de Vilamoura, com vagas de amarração para 825 embarcações. De carro ou de barco, há sempre alguém chegando. Casas noturnas, com música ao vivo, não faltam. Pululam.
Até os anos 1960, Vilamoura era só uma quinta. Particular e particularíssima, aliás, em virtude da bonita praia, de ondas acanhadas e areias finas, embora aberta. Foi quando se deu início ao ousado projeto imobiliário. A marina está completando meio século. É de 1974 e reúne de modestos veleiros a iates e megaiates.
Já o hotel – portentoso, ao estilo norte-americano – foi inaugurado 13 anos depois. Tem 384 quartos. Em 2023, permaneceu três meses fechado para reformas, o que lhe garantiu uma bem-vinda atualização. Tudo funciona nos trinques.
Amplo, arejado, o Tivoli Marina Vilamoura tem sete restaurantes, sendo o melhor deles a steakhouse Pepper’s. Come-se muito bem. Uma dica: se o caro(a) leitor ou leitora, por influência juvenil, exagerar nas cataplanas ou nos agitos, poderá recorrer ao reconfortante e extraordinário spa Anantara, palavra que, em sânscrito, remonta a infinito.
No mais, haverá como preencher a ausência do velho Portugal. Não em Vilamoura, posto que é chama, mas nas cidadezinhas dos arredores.
Pois bem. Loulé tem a arquitetura que nos remete a Ouro Preto, embora com áreas bem mais antigas, como trechos de muralhas dos séculos 11 e 12. Um movimento para recuperar seu artesanato d’antanho veio à luz, com ótimos resultados.
Olhão é ainda mais curiosa. No centro, tem ruas estreitas, onde cada morador se incumbiu, incisivo, do desafio de instalar uma porta ainda mais bonita que a do vizinho. Ah, e não deixe de provar a muxama, um saboroso atum submetido aos métodos de produção do presunto. Olhão foi renomada base de preparo de conservas e manteve algumas tradições da época. Sobretudo as de origem moura, fazendo lembrar que o Algarve já foi árabe até o último fio dos tapetes.