A educação é a base invisível do futuro da saúde
Artigos
21/08/2026
As transformações do setor exigem novas competências e lideranças mais preparadas
Por Helton Freitas – médico, diretor-geral da Faculdade Unimed, presidente da Fundação Unimed e da Seguros Unimed
Muito se discute sobre os desafios da saúde brasileira. O envelhecimento da população, por si só, já impõe uma transformação estrutural ao setor: segundo o IBGE, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023 e deverá alcançar 37,8% em 2070. Ao mesmo tempo, a velocidade da inovação amplia a complexidade das decisões. Em 2025, 56 tecnologias foram incorporadas ao SUS, entre medicamentos, vacinas, exames diagnósticos e procedimentos.
A inteligência artificial começa a redesenhar processos, enquanto a evolução regulatória, o aumento dos custos assistenciais e a pressão permanente por eficiência tornam a gestão da saúde cada vez mais desafiadora. Nesse cenário, mais do que acompanhar mudanças, as organizações precisam desenvolver a capacidade de compreendê-las e tomar decisões qualificadas diante delas.
Mas há um fator menos visível que determina a capacidade de resposta das organizações: a formação das pessoas que tomam decisões. Não existe transformação sustentável na saúde sem investimento contínuo em pessoas, e consequentemente no conhecimento para elas.
Durante muitos anos, a educação corporativa foi tratada como benefício ou iniciativa complementar. Hoje, essa visão já não encontra respaldo na realidade. Em um setor cuja complexidade cresce diariamente, aprender deixou de ser uma atividade eventual para se tornar um requisito estratégico e contínuo.
A tecnologia continuará evoluindo. Novos modelos assistenciais surgirão. A inteligência artificial redefinirá processos inteiros. Porém, nenhuma dessas transformações produzirá resultados consistentes se as organizações não desenvolverem lideranças preparadas para tomar decisões qualificadas, gerir riscos, promover inovação e manter a sustentabilidade econômica sem perder de vista o propósito do cuidado.
O debate sobre saúde costuma concentrar-se na infraestrutura física, nos equipamentos, nos investimentos financeiros e na incorporação tecnológica. Todos esses elementos são essenciais. Mas existe outra infraestrutura, igualmente importante e frequentemente negligenciada: a infraestrutura do conhecimento.
É ela que permite às instituições interpretarem mudanças regulatórias, incorporar tecnologias de forma responsável, aprimorar processos, fortalecer a governança e formar equipes capazes de responder às demandas de um ambiente cada vez mais complexo. No cooperativismo médico, essa realidade torna-se ainda mais evidente.
Manter instituições de saúde saudáveis exige mais do que boas práticas de gestão. Exige uma cultura permanente de aprendizagem, compartilhamento de conhecimento e desenvolvimento de lideranças. Nos últimos dez anos, trabalhamos na transformação do conhecimento em capacidade de gestão, contribuindo para fortalecer o cooperativismo e a sustentabilidade da saúde suplementar brasileira.
Essa transformação ocorre justamente quando a saúde suplementar alcança um novo patamar de relevância econômica e social. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o país tinha 52,9 milhões de beneficiários em planos de assistência médica em dezembro de 2025. No mesmo ano, as operadoras registraram R$ 344,6 bilhões em receitas de contraprestações e R$ 276,9 bilhões em despesas assistenciais.
A dimensão e a complexidade desse sistema evidenciam a responsabilidade de quem o administra e a necessidade de profissionais capazes de integrar conhecimento técnico, visão estratégica, governança, inovação e responsabilidade social.
A inteligência artificial pode apoiar diagnósticos. Sistemas digitais podem tornar processos mais eficientes. Dados podem orientar decisões mais precisas. Mas nenhuma ferramenta substitui o cuidado humano, a liderança ética e a capacidade de construir organizações resilientes. É por isso que o maior investimento que uma instituição pode fazer continua sendo nas pessoas.
Precisamos reconhecer que conhecimento não é apenas um ativo acadêmico, mas um instrumento de competitividade, inovação, sustentabilidade e impacto social. Mais do que formar profissionais, precisamos formar líderes capazes de conduzir organizações em um ambiente de mudanças permanentes. Porque, no fim, o futuro da saúde será definido menos pelas tecnologias que adquirirmos e muito mais pelas pessoas que prepararmos para liderá-las.