O maior festeiro

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10/04/2026

O maior festeiro

Doreni Caramori Júnior, presidente do Grupo All, leva muito a sério os lugares e momentos em que todo mundo se diverte

Por José Norberto Flesch

De Caçador, em Santa Catarina, para o mundo. Da faculdade de administração para a lista de principais palestrantes do setor de entretenimento. Da criação de baladas para a presidência da associação nacional de produtores de eventos.  Assim trilhou seu caminho Doreni Caramori Júnior, 46 anos, presidente do Grupo All, líder em entretenimento da região Sul. Ele também é o sócio-fundador e conselheiro da Blue Ticket, tiqueteira que atua em sete estados do país.

A carreira começou cedo, aos 14 anos, quando Caramori fez intercâmbio nos Estados Unidos. “Foi a minha primeira experiência empreendedora”, conta. “Morei no Texas, ainda muito jovem, mas minha mãe queria que eu saísse de casa para amadurecer e poder estudar fora.”

Destino: Florianópolis

Dos Estados Unidos retornou para Santa Catarina, mas não para a cidade do interior do estado onde nasceu. “Fui diretamente para Florianópolis, para terminar o colégio”, relembra. Em seguida, prestou vestibular. Segundo Caramori, na época, os jovens se candidatavam a vagas em diversos cursos e faculdades, “para não errar”. Ele descartou tal prudência. “Queria prestar apenas nas melhores escolas. Já então sonhava em ser administrador e empresário.”

O próximo destino foi São Paulo. Conseguiu uma vaga no curso de administração de empresas da Fundação Getúlio Vargas e também na faculdade de direito do [Instituto Presbeteriano] Mackenzie. Qual escolheu? As duas escolas. Foi um tempo de abnegação. “Estudava o dia todo e ainda fazia estágio. Trabalhei durante um tempo no mercado financeiro, fiz estágio no Bradesco e no Bank of Boston. Depois fui efetivado no Boston e montei meu primeiro negócio em São Paulo. Era um escritório virtual já naquela época, em 1999.”

Ainda naqueles tempos ousou enxergar o entretenimento como um negócio viável. “Percebi que havia Carnaval fora de época em todos os principais lugares do Brasil, menos em Florianópolis. Eu não conseguia entender por que tinha em Vitória, em Fortaleza, em Natal, Belo Horizonte, mas não em Florianópolis.”

O início

Foi quando Caramori resolveu preencher tal brecha. Morava em São Paulo e decidiu fazer um evento similar em Florianópolis. “Naturalmente perdemos muito dinheiro, porque essa é uma outra coisa que as pessoas não entendem”, conta. “Há uma indústria do entretenimento, mas não é uma indústria onde você coloca tijolo, compra máquina e tal. No entretenimento, o teu investimento inicial é o prejuízo das primeiras edições.”

Para Caramori, o segredo é seguir em frente. “Tem gente que toma o prejuízo inicial e desiste. Entendemos aquilo como investimento”, revela. Ele sabia que havia uma grande lacuna no entretenimento em Santa Catarina e passei a levar para o estado as melhores opções.

A criação do Grupo All

Apesar do foco em Santa Catarina, o empresário continuou morando em São Paulo. Em 2003, montou o Grupo All, centrado na oferta de entretenimento. Ele julga que, no ramo, era um estranho no ninho. Segundo avalia, boa parte dos empreendedores do setor é autodidata, “gente que foi aprendendo no trato do dia a dia”. “Eu já cheguei com um viés empresarial, percebendo que tinha uma oportunidade de construir algo grande no setor.”

Caramori aponta mais diferenças entre o Grupo All e os demais. “Eu nunca quis ser dono de festa, eu quis ser dono de empresa de festa. Isso tem uma diferença conceitual muito grande.” A ideia era trabalhar a empresa como um celeiro de vários eventos. Não se restringir ao Carnaval fora de época. Seguiram-se os Carnavais universitários. “Depois entramos na linha que a gente chama de Premium”, relata. “O objetivo era chegar a um público de maior poder aquisitivo. Fizemos o Winter Play, festa de música eletrônica realizada durante o inverno, na Serra Catarinense, que derivou em outros eventos. A empresa foi crescendo.”

Posh Club

Com o crescimento, surgiu a ideia de investir em locais próprios para abrigar eventos. Era o ano de 2007 e a primeira iniciativa revelou-se um sucesso: a abertura da Posh Club. espaço luxuoso, para público de alta renda, em Jurerê, Florianópolis. 

Fatboy Slim na Posh Club, em Florianópolis. Foto: Divulgação

A Posh também costuma ter festas de final de ano disputadíssimas em Florianópolis, com renomados DJs nacionais e internacionais. Funciona exclusivamente durante o verão. A nova temporada começou em 25 de dezembro e seguirá até meados de maio.

 Mas o agito não se resume, é claro, a Santa Catarina. Hoje o grupo tem 11 casas. Sem esquecer dos cerca de 250 eventos anuais fora delas. Em novembro de 2025, por exemplo, a Posh Club realizou a Festa Oficial do Grand Prix São Paulo de Fórmula 1, em duas noites no Clube Monte Líbano, na capital paulista. Importante: é o terceiro ano consecutivo em que assina o evento. 

Nos últimos anos, a Posh vem realizando edições singulares em destinos internacionais como Ibiza, Londres, Miami, Mônaco, Paris e Saint Tropez. Há seis anos também está presente, anualmente, no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, com a festa Golden Carnival, que acontece na semana do desfile das escolas de samba campeãs.

Um empreendimento recente do All é o Safari Beach, club com programação vespertina à beira da praia de Jurerê Internacional, inaugurado em 2023.

Expansão e divisões

A expansão do grupo abrange outras áreas de negócios. A empresa tem uma divisão artística, que representa e vende artistas para os promotores de eventos e para o poder público. Envolve também um braço que atua em live marketing com grandes marcas, sejam as que fazem os eventos do All ou outras. “Também atuamos em parcerias com terceiros. Não são iniciativas próprias, mas a gente cede nosso espaço e construímos eventos juntos.”

Prestes a completar 20 anos, o All tem hoje 180 colaboradores em nove empresas onde estão distribuídas essas unidades de negócios. Caramori é o diretor executivo e também o presidente do grupo, figura central de uma gestão com 14 pessoas se reportando diretamente a ele. “Acabei tendo sócios que cuidavam mais do front-off, e eu me especializei em cuidar do back-off”, conta. Caramori, por sua vez, é responsável por cuidar de marcas, gestão, qualidade, operação, tecnologia e inovação.

Hora de vender o próprio ingresso

Se tem evento, tem que ter lugar para comprar ingresso para evento, e Caramori criou uma tiqueteira. Fundou a Blue Ticket. É um dos conselheiros. “Não sou gestor porque não dá tempo de fazer as duas coisas”, explica. 

Apesar do acúmulo de atividades, Caramori também é muito requisitado como palestrante. “Na pandemia sobrevivi com as palestras, porque o grupo praticamente parou”, relembra. Então virou um negócio. Quando dava, fazia presencial, senão era online mesmo.”

Abrape

Ele também é conselheiro de empresas. “Tenho uma veia institucional muito forte.” Ainda muito jovem, Caramori foi presidente da Confederação Nacional de Jovens Empresários, de 2005 a 2007. Depois presidiu a Associação Comercial de Florianópolis, “que é a principal entidade voluntária do estado de Santa Catarina, com 3.800 associados”. O currículo é extenso. “Fui tesoureiro da Federação das Associações Empresariais, presidente de entidade filantrópica, presidente de partido político, presidente de mais de dez entidades.”

Desde a pandemia, ele preside a Abrape, Associação Brasileira dos Produtores de Eventos. Nesta entidade, conseguiu conquistas para a sobrevivência do setor. Durante a pandemia, as produtoras não precisaram realizar o reembolso imediato dos shows cancelados, algo que possivelmente quebraria todo mundo.

 Com o Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos), instituído pelo governo federal em 2021, por meio da Lei nº 14.148, as empresas obtiveram alívio da carga tributária. “É um programa que, na nossa conta, representou R$ 45,5 bilhões na conta do governo, mais de R$ 80 bilhões de exoneração fiscal, que é uma coisa impensável no Brasil”, calcula.

Hoje o setor tem no ataque virtual à cobrança excessiva de taxas para o consumidor, por parte de algumas produtoras e tiqueteiras, um de seus principais problemas. Apesar de ser uma ação localizada (nem todas as produtoras e tiqueteiras cobram muitas taxas), a percepção do público dos shows em relação ao trabalho das empresas ganhou um viés negativo.

Para Caramori, o próprio mercado vai se resolver com o consumidor. “Essa cadeia precisa ser autorregulada pelo mercado. Acredito no poder do consumidor, que vai passar a comprar de quem cobra menos taxas dele.”   

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