Por Fabiano Mazzei
Retratos Anna Carolina Negri
No jargão corporativo, a expressão “do alfinete ao foguete” resume aquela empresa que oferece soluções fim a fim: faz de tudo para todo tipo de perfil e tamanho de negócio. No caso da Patagônia Importadora, essa máxima é absolutamente aplicável.
Com sede em São Paulo e escritórios em Rondônia e Santa Catarina, a empresa – fundada em 2016 pelo argentino Fernando Verdura – atende pessoas físicas e jurídicas, atuando em segmentos dos mais diversos: alimentos e bebidas, insumos para a construção civil, matéria-prima para a indústria plástica, trilhos para o metrô, itens de decoração para o varejo e, mais recentemente, carros de luxo e aviões executivos. O faturamento mensal gira em torno de 30 milhões de reais, com a perspectiva de um crescimento robusto para 2024.
No comando dessa operação, tão variada quanto complexa, está a CEO da companhia, Tamara Almeida. Ela lidera um time com 40 colaboradores, especializado em comércio exterior e determinado a descomplicar a vida dos clientes diante de um processo de importação que é, historicamente, burocrático e cercado de riscos.
THE PRESIDENT _Como se iniciou sua jornada na companhia?
Tamara Almeida – Comecei como estagiária quando estava no segundo ano do curso de administração, com ênfase em comércio exterior. Atuava no departamento de logística internacional da Italora. Anos depois, com a aquisição da empresa pelo grupo, assumi o departamento de importação, em 2008. Passei pelas áreas operacional e comercial até chegar a CEO da Patagônia Importadora, em 2016.
Quais segmentos sustentam a receita?
Construção civil, e-commerce e alimentos e bebidas são os principais. Mas atendemos clientes de diversos setores, como indústria plástica, varejo de decoração e infraestrutura de transporte.
Quais as perspectivas de crescimento do grupo para este ano?
Do grupo todo, a expectativa é dobrar o faturamento anual, chegando a 2 bilhões de reais. A companhia está sempre atenta a oportunidades e, nesse momento, há negociações grandes em andamento para a aquisição de outras empresas. Acabamos de fechar uma parceria com uma gestora de importação e, apenas com esse movimento, faturamos 15 novos contratos em uma semana, o que levou à necessidade de novas contratações na equipe da Patagônia a fim de manter nossa qualidade e eficiência no atendimento. Além disso, está prevista a expansão da fábrica da Walff, em Manaus,com uma unidade voltada a itens biodegradáveis. Adquirimos um terreno com 200 mil metros quadrados para cumprir esse planejamento. A perspectiva, portanto, é de um crescimento geral robusto.
Entre tantos setores, quais clientes e cases você destacaria no portfólio da Patagônia?
Em nossa história, atendemos diversos consórcios vencedores das licitações de infraestrutura de transporte urbano em São Paulo e no Rio de Janeiro. O primeiro contrato foi com o grupo empresarial responsável pelas obras de implementação da Linha Amarela do Metrô, na capital paulista. Fomos os responsáveis por comprar os trilhos de um fornecedor especializado na Europa, importar e entregar o material para o cliente no Brasil. Esse negócio acabou resultando em indicações para outras companhias envolvidas em processos semelhantes, o que nos abriu diversas oportunidades no setor de mobilidade. Uma delas foi na construção do sistema VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) em Santos, no litoral paulista. Outra oportunidade foi o contrato com a empresa gestora do bondinho que leva visitantes para o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.
Para eles, fornecemos também os trilhos do equipamento. O segmento de varejo também é bastante importante para a companhia.
Qual a vantagem dessa diversificação grande de portfólio?
É uma estratégia usada pelo trade para lidar com as eventuais oscilações do mercado. Caso haja um desaquecimento do segmento de AB, por exemplo, o de construção civil pode estar em expansão, e isso dá uma estabilidade muito grande ao faturamento da companhia. As oportunidades vão surgindo e vamos analisando e agregando ao nosso portfólio.
É muito arriscado importar produtos por conta própria?
Quase tudo o que consumimos hoje no Brasil é importado ou tem itens fabricados no exterior. O que aconselhamos para quem está pensando em importar produtos ou insumos é que procure empresas especializadas nesse tipo de operação. Tentar fazer sozinho traz muito risco e exige conhecimento e paciência para lidar com o processo.
O que motivou a entrada da empresa no segmento de importação de veículos de luxo e aviões?
Foi uma percepção dos nossos executivos sobre o crescimento dos mercados de aviação privada e do luxo no país, evidenciada nas conversas com amigos e clientes da importadora, que vinham demonstrando interesse em trazer do exterior produtos e itens dessas categorias. Passamos a estudar ambos os nichos e, como operam em dólar e com valores muito elevados, procuramos estruturar melhor a empresa para poder agregar o negócio sem impactar o restante da operação. Outro motivo foi interno. Como o grupo tem uma operação em Manaus, nossos executivos demandam muitos deslocamentos aéreos para visitas à planta fabril na cidade, a clientes e fornecedores. Com a expansão da fábrica, as viagens se tornarão mais frequentes e devemos nos antecipar. Por isso, passamos a analisar a aviação privada como uma alternativa eficiente de mobilidade. No momento, estamos avaliando três modelos Learjet: o 45, 45R e o 60. Em agosto de 2023, anunciamos a nossa entrada no business aeronáutico durante a Labace (Latin American Business Aviation Conference & Exhibition), que é a principal feira de aviação executiva da América Latina, em São Paulo. Aliás, nossa presença está confirmada também para a edição deste ano. A primeira aeronave foi entregue agora, em março: um avião para acrobacias, que compramos na Alemanha, para um cliente que é piloto aqui, no Brasil. O valor foi de 3 milhões de reais.
Qual público vocês pretendem alcançar nesse filão aéreo?
Executivos, grandes empresários e as companhias que precisam de deslocamento dentro e fora do Brasil. São clientes exigentes, que buscam ganhar tempo nas viagens e não querem ter dor de cabeça com a compra de um avião. Nosso diferencial é oferecer uma solução de importação do começo ao fim, intermediando o financiamento e a prospecção de oportunidades e organizando inspeções rigorosas dos produtos antes do despacho ao Brasil. O atendimento personalizado também é outra vantagem competitiva. Cuidamos das demandas específicas de cada cliente de maneira mais personalizada e humanizada.
Como funciona o serviço?
Entregamos ao comprador uma gestão 360 graus do negócio: quando o cliente não tem um fornecedor definido, prospectamos o modelo de aeronave especificado no mercado internacional, apresentamos as oportunidades, damos apoio na escolha do produto, efetivamos a compra, cuidamos de todo o procedimento alfandegário, intermediamos o financiamento junto aos bancos (temos parceria para leasing com Safra e Daycoval) e elaboramos a logística para o transporte do avião até o seu destino final. O mesmo passo a passo vale para a importação dos veículos de luxo. De janeiro a abril, trouxemos dois SUV grandes, o GMC Hummer, e uma Ferrari 296 GTB.
“A nossa missão é buscar descomplicar
o processo e reduzir a insegurança
na hora de importar bens.”
A companhia atua também no pós-venda, no caso de algum desses produtos precisar de suporte técnico ou peça do exterior?
Sim, oferecemos esse apoio. No caso da Ferrari, a montadora solicitou um recall do modelo na Itália. Realizamos toda a logística, embarcamos o carro e cuidamos da exportação do veículo. No caso de peças e itens essenciais para o uso com segurança do veículo, podemos enviar um funcionário da importadora até a fábrica do carro exclusivamente para essa finalidade. Já as aeronaves passam por uma rigorosa inspeção pré-embarque, conforme as exigências da Anac (Agência Nacional da Aviação Civil). Quem compra um bem como esse não quer dor de cabeça. A nossa missão é buscar descomplicar o processo todo e reduzir a insegurança que é comum a muitos brasileiros na hora de importar bens do exterior. Muitas vezes, há a avaliação negativa do setor por parte dos órgãos reguladores. Um preconceito antigo, que dificulta o processo. A legislação carece de atualização também. Há leis muito obsoletas, que impedem o crescimento do setor. O segmento tem muito a melhorar ainda.
Quais os principais desafios das empresas que atuam com o comércio exterior no país?
A burocracia excessiva, sem dúvida. Existem leis obsoletas que precisam ser atualizadas, além de certo preconceito por parte dos agentes reguladores. Tudo isso vem associado a uma visão da nossa cultura econômica, que busca proteger setores produtivos nacionais, ainda que menos eficientes, em detrimento de importar produtos mais modernos. A sociedade, o consumidor em geral, apoia a importação. Toda essa outra parte é que precisa evoluir muito ainda.