Thais Keiko Monteiro: uma arquiteta com visão de negócios

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03/11/2026

Thais Keiko Monteiro: uma arquiteta com visão de negócios

Fundadora da D76 Incorporadora, profissional com mais de 25 anos de experiência buscou formação em gestão, mercado imobiliário e sustentabilidade para desenvolver um modelo de construção baseado em planejamento e eficiência

Por Amélia Whitaker

A arquiteta Thais Keiko Monteiro abriu o próprio escritório de projetos ainda antes de se formar e depois passou boa parte de sua carreira em construtoras, gerenciando grandes contratos de projetos industriais, comerciais e residenciais de grande porte. Ao longo de mais de 25 anos de experiência com empresas nacionais e internacionais, começou a identificar um problema recorrente na construção civil: a distância entre o planejamento e a execução das obras. Projetos pouco detalhados e mal compatibilizados, fornecedores envolvidos tardiamente e decisões tomadas no próprio canteiro contribuíam para desperdícios de materiais, atrasos e custos que poderiam ser evitados. Para Thais, o processo precisava ser reavaliado de ponta a ponta.

Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Mackenzie, ela decidiu ampliar seus conhecimentos para além da formação técnica. Em 2009, concluiu uma pós-graduação em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV), buscando compreender a construção também sob a perspectiva da gestão, dos processos e da estratégia de negócios. A formação representou um passo importante para desenvolver uma visão integrada do setor imobiliário.

Dois anos depois, em 2011, Thais participou de um programa executivo em Real Estate Management na Harvard Business School, nos Estados Unidos. O contato com conceitos de gestão e desenvolvimento imobiliário ampliou sua compreensão sobre a relação entre projeto, investimento e execução. Em 2022, aprofundou os estudos em sustentabilidade por meio do programa de Economia Circular e Estratégias Sustentáveis da Cambridge Judge Business School.

A combinação dessas formações ajudou a estruturar uma visão de negócio na qual arquitetura, engenharia e fornecedores precisam trabalhar de maneira coordenada desde as primeiras etapas. Para Thais, a eficiência não depende apenas da escolha de materiais ou de soluções tecnológicas, mas do conjunto de decisões que devem ser tomadas muito antes de a obra começar.

Essa percepção levou à criação da D76 Incorporadora, fundada em 2021, em São Paulo. A empresa nasceu com a proposta de substituir o improviso do canteiro de obras por uma lógica de planejamento semelhante à utilizada na indústria, reunindo arquitetura, construção e incorporação em um único fluxo de trabalho.

“A construção civil precisa ser pensada como um negócio integrado. Não adianta ter um bom projeto arquitetônico se as etapas não conversam entre si. Quando existe planejamento desde o início, conseguimos reduzir desperdícios, otimizar recursos e entregar um produto melhor”, explica Thais Keiko Monteiro.

Na D76, essa filosofia é aplicada por meio de cinco pilares: design, desempenho, sustentabilidade, interatividade e eficiência de processos. Um dos principais recursos utilizados é o BIM (Building Information Modeling), usado pela D76 em várias camadas. Além do modelo tridimensional, que antecipa interferências entre as disciplinas, o modelo digital incorpora o cronograma (4D), o orçamento (5D) e as simulações de desempenho energético e ambiental (6D). Assim, a casa é construída inteira no computador antes de chegar ao terreno.

Com isso, conflitos de projetos, planejamento, custos e desempenho são resolvidos antes da execução, transformando o canteiro em uma área de montagem. Os fornecedores participam das decisões ainda na fase de projeto e contribuem com seu conhecimento técnico sobre cada material: melhor aproveitamento da matéria-prima, desempenho e interfaces com os demais sistemas.

O resultado desse modelo pode ser observado na Residência Alvorada, em Porto Feliz, no interior de São Paulo. Com aproximadamente 600 m², a casa foi construída em oito meses, entre julho de 2023 e fevereiro de 2024, menos da metade do prazo de uma obra convencional. O projeto gerou cerca de 85% menos resíduos do que uma construção convencional de porte semelhante, com apenas cinco caçambas de entulho, diante das 30 a 40 estimadas para métodos tradicionais.

O projeto também reúne soluções de eficiência energética, estudos bioclimáticos, automação residencial e sistemas de autonomia de recursos. Em 2026, a Residência Alvorada recebeu o iF Design Gold Award, o nível mais alto da premiação internacional de design de origem alemã. Desde 1954, apenas 31 brasileiros conquistaram o iF Gold, seis deles em arquitetura e interiores.

A preocupação com sustentabilidade está diretamente relacionada à maneira como Thais entende a gestão da construção. Para ela, sustentabilidade é, antes de tudo, eficiência: fazer mais com menos, em uma relação de longo prazo em que todas as partes saem ganhando. A escolha de materiais de menor impacto ambiental, a redução de desperdícios e o aproveitamento das condições naturais do terreno fazem parte de um processo que começa na concepção arquitetônica e continua durante a utilização da residência.

Além da Alvorada, a D76 já entregou a Casa Larissa, em Monte Mor, e a Casa Campos, em Campos do Jordão, ambas no interior paulista. Os projetos seguem a proposta de integrar arquitetura contemporânea, tecnologia e eficiência construtiva, respeitando as características de cada localização. Cada uma desdobra o mesmo conceito: a Larissa o flexibilizou para um condomínio equestre e a Campos testou seus limites de desempenho passivo, por estar no topo de uma montanha.

A trajetória de Thais também recebeu reconhecimento no empreendedorismo. Em 2024, a arquiteta foi finalista do Bold Future Award, categoria do Veuve Clicquot Bold Woman Award dedicada a empreendedoras com negócios de até três anos.

A experiência acumulada em arquitetura, aliada à formação em administração, desenvolvimento imobiliário e economia circular, passou a orientar tanto sua atuação como empresária quanto o modelo de negócios da D76. Para Thais, repensar a construção civil significa começar pela organização de todos os processos, de ponta a ponta.