The President

Entrevista

Arquiteta Fernanda Marques

ENTREVISTA

Cinco perguntas para a arquiteta Fernanda Marques

Um dos nomes mais prestigiados do universo da arquitetura é o de Fernanda Marques. Além de seus projetos, ela também atua com design, na assinatura de uma vasta categoria de produtos, como móveis, revestimentos cimentícios, jóias e peças cerâmicas.

Com um escritório agitado em uma cobertura na Vila Olímpia, em São Paulo, a arquiteta, formada pela FAU USP – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, segue com a carreira em alta em um cenário predominantemente masculino ao vencer de forma recorrente grandes premiações nacionais e internacionais. 

Fernanda costuma revelar seu estilo clean, contemporâneo e luxuoso ao unir o melhor da arte e da arquitetura em diferentes projetos que vão desde casas paradisíacas à beira-mar a showrooms para grifes conceituadas – tais como John John e L’Occitane. 

Inspirada pelo dia a dia, notícias que lê e viagens que coleciona, já foi até mesmo escolhida pela Wallpaper, uma das revistas internacionais de arquitetura mais respeitadas, para fazer parte do conselho de membros que escolhe os melhores hotéis do mundo. Leia a entrevista com Fernanda Marques abaixo. 

THE PRESIDENT- Os últimos três anos mudaram a relação das pessoas com o próprio lar. Isso modificou também a apresentação de seus projetos? O que passou a fazer parte dos ambientes e o que caiu em “desuso”?

Fernanda Marques – De fato, não há dúvidas de que o período vivido na pandemia ampliou a nossa consciência da casa e de como nos relacionamos com ela. Hoje, a nossa relação com esses espaços é certamente mais íntima e personalizada. Seja por meio de um home office instalado no quarto, de uma adega ampliada ou de uma cozinha com bar. Nesse sentido, penso que o que caiu em desuso, definitivamente, foi a casa para ser vista, e não para ser vivida. Em um projeto hoje tudo deve ter um como e um porquê. O que inclui, até mesmo, as obras de arte. 

Com a adoção de formato híbrido de trabalho e também home office, os escritórios também sofreram modificações? Quais foram elas?

Sem dúvida, trata-se de uma via de mão-dupla. O ambiente corporativo, digamos assim, se “humanizou”, ganhando mais ares de casa e condições de conforto antes reservadas apenas ao espaço doméstico. Já o home office se “profissionalizou” (risos). Com clientes mais exigentes em relação às condições de iluminação, de mobiliário e, principalmente, de organização, o que, sabidamente, aumenta a produtividade. 

Casa Jabuticaba, premiada no iF Design Award 2023 na categoria Residência de Família

A CASACOR é um dos principais eventos de arquitetura do Brasil e a edição de São Paulo acaba de se iniciar. De que maneira você enxerga a evolução do evento ao longo dos anos?

De uma maneira geral, de forma positiva. Anos atrás participei de diversas edições nas quais sempre procurei colocar em prática o que sempre foi, a meu ver, a grande virtude do evento: mostrar como você pensa o projeto de interiores em determinado momento, de uma forma mais livre e desvinculada de um projeto contratado, evidentemente. Tudo antes era, de fato, mais exclusivo e o estilo de cada profissional ficava bem mais evidente. Sinal dos tempos, a mostra passou por uma ampliação, o que também pode ser vista com bons olhos, na medida em que colabora para a apresentação de novos profissionais. No balanço geral, acho que o saldo é positivo e tenho trabalhos realizados por lá que, até hoje, são lembrados e pelos quais tenho grande carinho.   

Vista Residence, premiado no iF Design Award 2023 na categoria Arquitetura de Interior

Dentre seus projetos, existem diversos produtos, como o Banco Infinito ou aqueles desenvolvidos com marcas, como St. James ou a joalheria Grifith. Em que você se inspira e para quem você desenha?

O trabalho do designer está intrinsecamente ligado ao do arquiteto. Tudo envolve criação e projeto. Ao contrário do que se pensa, porém, não se trata apenas de uma questão de escala, pois envolve conhecimentos específicos. Alguns teóricos, outros que você só aprende na prática. Há duas décadas venho desenvolvendo projetos para clientes das áreas de mobiliário e desenho de produtos e me sinto bastante satisfeita em atuar na área e a resposta do mercado também tem sido positiva. Quanto ao que me inspira, diria, literalmente, tudo. Pode ser minha última viagem, por exemplo. Mas pode ser uma música que acabei de ouvir no carro indo ao trabalho. No momento estou me aprofundando no trabalho do japonês Tadao Ando. Uma das minhas maiores influências e que particularmente voltou ao meu radar depois de voltar do Japão em novembro. 

Existe uma atuação essencialmente masculina em sua área. Hoje, você é uma representante em um local onde poucas mulheres chegam. Como foi, ao longo de sua carreira, assumir este protagonismo e se tornar uma referência da arquitetura brasileira no exterior?

Infelizmente, não posso dizer que essa realidade tenha mudado muito nos últimos anos. De qualquer forma, sinto-me muito satisfeita em contar com mulheres em todos os setores da minha empresa, do design à construção. Na verdade, dos meus 30 colaboradores, 65% deles são mulheres. Sinto, porém, que a presença feminina nos domínios das disciplinas criativas, aqui e lá fora, está longe de ser desprezível e não cessa de crescer. Não existem receitas e fórmulas prontas. Mas acho que a fase de refirmar permanentemente nossa capacidade está, enfim, ficando no passado. Acho que o momento é de ressaltar o que o feminino traz de bom, nossa contribuição essencial e única para a cultura do projeto.