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Capitalismo consciente

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Capitalismo consciente

Por  Marcela Argollo

Chegou a hora de reformular a empresa na busca de um futuro sustentável para os negócios

No cenário de negócios volátil e rapidamente evolutivo do século 21, conceitos como o de Capitalismo Consciente surgem não só como alternativas inovadoras, mas como necessidades para cumprir a agenda 2030 da ONU e apoiar o desenvolvimento sustentável e equitativo de empresas e da própria sociedade. 

Esse movimento global se originou no Estados Unidos em 2008, com o cofundador e CEO da Whole Foods, John Mackey, e o indiano Raj Sisodia. O objetivo foi elevar a consciência das lideranças na busca de uma forma holística de ver os negócios, indo muito além da geração de lucros aos acionistas. A ideia é redefinir os fundamentos sobre as práticas empresariais, valorizando todos os stakeholders envolvidos.

No Brasil, esse movimento se iniciou em 2013 com o surgimento do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, tendo como cofundador Mauricio Goldstein e hoje com Daniela Garcia como CEO. 

Esse novo olhar se adequa aos “novos” parâmetros éticos e morais. Defende a agenda ESG, mesmo em mercados de alta competição. Permite encantar e fidelizar os clientes, engajar os colaboradores, valorizar fornecedores e proteger o meio ambiente, conduzindo as relações de maneira ética e sustentável.

O Capitalismo Consciente tem quatro pilares:

  • Propósito mais elevado: são empresas movidas por um intuito que transcende a mera geração de lucro. Esse objetivo elevado guia a missão da companhia.
  • Orientação para os stakeholders: enfatiza a importância de criar e otimizar valor para todos os envolvidos – incluindo empregados, clientes, fornecedores, a comunidade e o meio ambiente. 
  • Liderança consciente: incentiva a prática do autoconhecimento e cultiva uma visão holística, com decisões que refletem o cuidado e a consideração por toda a cadeia de valor. 
  • Cultura e gestão conscientes: promove a valorização do ser humano em todas as suas dimensões, incentivando o desenvolvimento pessoal e profissional. Apoia uma visão de mundo integral e interconectada, em que os negócios operam de maneira ética, transparente e com integridade.

Esse novo modelo de gestão integra os interesses de todos os stakeholders; incorpora um propósito maior e uma cultura de cuidado; concilia cuidado e lucratividade; vê o negócio como um complexo sistema adaptativo; desenvolve a responsabilidade social, incluindo a comunidade e o meio ambiente; reconhece que o negócio é um subconjunto da sociedade; promove uma transformação genuína; e, por fim, supera de modo significativo o modelo de negócio tradicional sob vários critérios, inclusive o financeiro. Tudo isso tendo uma liderança consciente como o principal protagonista e agente da mudança.

Empresas que operam sob esses paradigmas tendem a apresentar altos níveis de satisfação entre os empregados, gerando menor perda com turnover, burnout e maior geração de resultados. Geram também maior lealdade e satisfação dos clientes e uma capacidade aprimorada e contínua de inovação, flexibilização e adaptação. Ao mesmo tempo que também contribuem para o meio ambiente e a sustentabilidade.

É uma oportunidade significativa para reformular o capitalismo, em um mundo cada vez mais interconectado e interdependente.

*Marcela Argollo é professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), especialista em governança generativa e liderança regenerativa