Brazil Windpower 2026 discute caminhos para ampliar a participação das renováveis no Brasil
Eventos
30/10/2026
Encontro em São Paulo abordou gargalos de transmissão, eletrificação da indústria e dos transportes e segurança para novos investimentos
Por Redação
A expansão da energia eólica e de outras fontes renováveis no Brasil depende de avanços que vão além da capacidade de geração. A infraestrutura de transmissão, a segurança regulatória e a criação de condições para atrair investimentos estiveram entre os principais temas do segundo dia do Brazil Windpower 2026, realizado no São Paulo Expo, na capital paulista.
O encontro reuniu representantes da indústria, especialistas, reguladores e integrantes do poder público para discutir os desafios da transição energética e o papel do Brasil no cenário internacional. A eletrificação da indústria e dos transportes, a modernização do sistema elétrico e a relação entre os empreendimentos eólicos e as comunidades locais também integraram a programação.
Eletrificação e segurança energética entram no debate

Um dos painéis abordou a relação entre eletrificação, segurança energética e soberania nacional. Mediado por Natália Oliveira, da Global Renewables Alliance (GRA), o debate discutiu como transformar compromissos climáticos em medidas concretas para governos e empresas.
Para Elbia Gannoum, presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), a transição energética passou a envolver também questões econômicas e estratégicas.
“Não basta o mundo saber que o planeta está aquecendo e passando por mudanças climáticas, pois a humanidade só se move por questões econômicas, principalmente os governos e os governantes. Não se trata mais apenas de clima, mas também de segurança e soberania energética”, afirmou.
A incorporação de novas tecnologias ao sistema elétrico brasileiro também foi apontada como um dos desafios para os próximos anos. Vitor Caram, diretor de Expansão LATAM da ODATA, destacou a necessidade de conciliar a estrutura regulatória já existente com a velocidade das transformações tecnológicas.
“O desafio do país é combinar a maturidade técnica e regulatória do setor elétrico brasileiro com a agilidade necessária para incorporar novas tecnologias e direcionar investimentos”, avaliou.
Transmissão é um dos gargalos da expansão renovável
A capacidade de transportar a energia produzida até os centros consumidores concentrou parte importante das discussões. Embora o Brasil tenha uma matriz elétrica majoritariamente renovável, os especialistas ressaltaram que a expansão da geração precisa ser acompanhada por investimentos nas redes de transmissão.
Glauco Freitas, diretor para a América Latina (Cone Sul) e diretor-geral no Brasil da Hitachi, chamou atenção para o descompasso entre o crescimento da geração e a infraestrutura disponível para distribuir a eletricidade.
“Hoje, temos uma matriz energética majoritariamente renovável, que cresceu 40% em seis anos. No entanto, existe uma grande lacuna: ainda não é possível garantir que a energia, barata, abundante e renovável, chegue aonde é necessária. A transmissão e a eletrificação são os principais viabilizadores da transição energética”, destacou.
Outro ponto levantado foi a necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de formação de preços da energia. Para Rodrigo Borges, Market Lead Brasil da Aurora Research, sinais econômicos mais claros podem orientar a localização de novos investimentos e aproximar os centros de geração dos polos de consumo.
Thiago Ivanoviski, diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), reforçou que a expansão da transmissão precisa fazer parte de uma estratégia nacional de longo prazo, com políticas públicas consistentes e previsibilidade para os investidores.
“Não é possível fazer a transição energética sem transmissão, que conecta a geração à carga. É preciso começar a tratar essa agenda como uma estratégia nacional de soberania, amparada por investimentos contínuos e segurança regulatória”, afirmou.
Ruído de parques eólicos exige avaliação técnica e diálogo com comunidades
Os impactos acústicos da instalação de parques eólicos também estiveram na programação. O painel “Conectando conhecimentos técnicos de ruídos com o viés social”, mediado por Krisdany Cavalcante, do dB Laboratório de Acústica, reuniu especialistas, representantes do poder público e pesquisadores, entre eles Marco Antônio M. Vecci, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A discussão abordou os limites de estabelecer distâncias mínimas padronizadas entre os empreendimentos e as áreas habitadas. Segundo os participantes, a propagação do som varia conforme características como relevo, regime de ventos e especificações dos equipamentos, o que exige avaliações técnicas individualizadas.
“O som não respeita raios fixos”, resumiu Jarbas Amaro, da Auren.
Além dos aspectos técnicos, os debatedores destacaram a importância de envolver as comunidades desde as etapas de planejamento e implantação dos projetos. Adroilzo Fonseca, secretário de Meio Ambiente da Paraíba, defendeu que as informações sobre os empreendimentos e seus impactos sejam apresentadas de forma acessível à população.
José Anchieta, presidente da CPRH de Pernambuco, também ressaltou a participação dos moradores como parte do processo de desenvolvimento dos projetos. Para ele, o monitoramento contínuo, a atualização das normas técnicas e o diálogo com a população são fundamentais para conciliar a expansão da geração eólica com as condições de vida nas regiões onde os parques são instalados.
Infraestrutura e previsibilidade orientam próximos investimentos
Ao longo dos debates, três frentes apareceram como prioridades para o desenvolvimento do setor: modernização das redes de transmissão, aperfeiçoamento dos mecanismos de precificação da energia e maior alinhamento entre órgãos reguladores, operadores e entidades representativas.
A expansão de redes mais robustas e preparadas para eventos climáticos extremos foi apontada como necessária para acompanhar o crescimento da geração renovável. Já a revisão dos sinais de preço pode contribuir para identificar regiões com maior disponibilidade de energia e orientar a instalação de novas usinas e empreendimentos industriais.
A previsibilidade regulatória também foi destacada como condição para atrair capital privado e viabilizar projetos de longo prazo.
O segundo dia do Brazil Windpower 2026 colocou em evidência um dos principais desafios do setor elétrico brasileiro: transformar a disponibilidade de recursos renováveis em capacidade efetiva de abastecimento, com infraestrutura adequada, regras estáveis e participação das comunidades envolvidas.