Fundadora do Chef Aprendiz fala sobre projeto sociais e no poder da autonomia
Por Amélia Whitaker
Beatriz Mansberger é a fundadora do Chef Aprendiz, um programa que utiliza a gastronomia para transformar vidas. A ideia surgiu no fim de 2014 a partir de uma conversa com jovens em Paraisópolis, que contaram sobre o desejo de participar de um projeto como um “Master Chef Paraisópolis”. Com uma forte conexão pessoal com a cozinha, influenciada por seu pai, avó e parceiro, Beatriz viu na culinária uma forma de empoderamento. Além do Chef Aprendiz, Beatriz idealizou o projeto “Pequenos Autores”, focado no processo de alfabetização de forma lúdica, através de brincadeiras e dinâmicas que trazem mais leveza e proximidade à leitura e escrita. Seu trabalho, tanto com as crianças quanto com os jovens, promove o senso de pertencimento, mais autonomia e empoderamento, Beatriz busca integrar diferentes gerações e contextos sociais em seus projetos, acreditando no poder transformador dessas interações.
Beatriz Mansberger: A ideia do Chef Aprendiz nasceu de uma conversa com jovens em Paraisópolis durante meu envolvimento com outro projeto para crianças. Eles expressaram o desejo de ter algo semelhante a um “Master Chef Paraisópolis”. Isso me inspirou a criar um programa que trouxesse um currículo base de culinária, , mas que tivesse um processo de autoconhecimento e aprendizagem que seria muito mais significativo do que uma competição por si só. Minha conexão pessoal com a cozinha, influenciada por meu pai, avó e parceiro, fez com que fosse natural usar a gastronomia como uma ferramenta de transformação. Compartilhar refeições sempre teve um significado especial para mim, e percebi seu potencial para nutrir vínculos, empoderar e transformar vidas.
Beatriz Mansberger: O Chef Aprendiz foi projetado para ser um espaço de auto descoberta e crescimento. Oferecemos ferramentas e estratégias para que os jovens compreendam melhor a si mesmos, enfrentem desafios e gerenciem suas emoções. O programa promove um forte senso de pertencimento e comunidade, frequentemente destacado pelos ex-participantes como um aprendizado crucial. Já vimos jovens seguirem diversos caminhos, desde biomedicina e engenharia até a abertura de seus próprios negócios. Embora a empregabilidade seja um resultado positivo, o verdadeiro sucesso está no empoderamento e crescimento pessoal que eles experimentam. O programa instila confiança, incentivando todos a acreditar em si mesmos e em suas habilidades, através do autoconhecimento.
Beatriz Mansberger: Um dos maiores desafios foi viabilizar financeiramente os projetos. Em um primeiro momento, trabalhamos de forma voluntária e fazíamos crowdfunding para custear os itens principais como aventais, dolmans, insumos para as oficinas, premiação e transporte, por exemplo. Para além disso, até por conta das práticas do mercado de cozinha, encontrar empregadores que compreendessem a missão do programa e continuassem desenvolvendo os jovens de forma construtiva com boas lideranças também foi um desafio.. Muitos dos participantes saem do projeto com a possibilidade de um primeiro emprego e, por isso, é essencial que eles encontrem uma liderança positiva que os inspire e motive. Além disso, oferecer um plano de carreira claro dentro desses estabelecimentos é altamente benéfico, embora nem sempre seja possível a depender do tamanho e da estrutura do estabelecimento. Embora o emprego de longo prazo em um só lugar seja menos comum hoje em dia, ter uma visão de crescimento e desenvolvimento dentro da indústria os motiva e encoraja a lutar por seus objetivos. Hotéis e estabelecimentos maiores, em particular, se destacam em fornecer oportunidades estruturadas de progressão na carreira.
Beatriz Mansberger: Um exemplo de parceria bem-sucedida é com o Hotel Emiliano. Nossa conexão inicial veio através de um conhecido em comum, e após um jovem participante do Chef Aprendiz se destacar em uma competição, eles se tornaram fortes defensores do programa, criando consistentemente oportunidades de emprego para nossos alunos. Hoje, cinco de nossos ex-alunos trabalham lá. Já o Hotel Tangará resultou da iniciativa dos próprios jovens. Por meio de suas experiências em outros locais de trabalho e seu desenvolvimento de carreira, eles criaram conexões que os levaram ao Tangará. Essas parcerias demonstram o poder da colaboração e da visão compartilhada na criação de oportunidades significativas para os jovens no mundo da culinária.
Beatriz Mansberger: No projeto “Pequenos Autores, Grandes Histórias”, por exemplo, crianças de uma ONG escrevem histórias e participam de oficinas lúdicas. As ilustrações dessas histórias são feitas por jovens de escolas particulares ou até mesmo de outros países, como na última edição, que contou com crianças da Alemanha. Essa interação entre diferentes atores da sociedade enriquece muito o projeto. No Chef Aprendiz, os alunos preparam refeições para eventos como o coquetel de lançamento do livro do projeto “Pequenos Autores”, permitindo que eles coloquem em prática o que aprenderam e contribuindo para a integração entre os projetos. Temos também algumas atividades que os jovens interagem com idosos ou mesmo organizações que trabalham com pessoas especiais. Acredito que a troca entre gerações e a inclusão verdadeira consiste nessas trocas. Só poderemos ver resultados diferentes no mundo se mudarmos a forma como fazemos, combinamos, interagimos e existimos de forma mais plural e empática.