Bate-papo com o designer: a nova aposta do design brasileiro

Entrevista

05/11/2026

Bate-papo com o designer: a nova aposta do design brasileiro

O fundador do novíssimo estudio mendes fala sobre a criação da “Coleção Mosaico”, as referências internacionais que influenciaram as peças e a produção artesanal no Brasil

Por Redação

Diferentes módulos que, juntos, formam uma unidade. E assim nasce a Coleção Mosaico, primeira linha de mobiliário do estudio_mendes. Após mais de dez anos trabalhando com interiores e projetos de hospitalidade, com passagens por estúdios como Rockwell Group e 1508 London, em cidades como Londres, Madri e Riad, o designer apresenta peças de formas irregulares, feitas de cumaru maciço, bouclé e linho, com produção artesanal brasileira.

“O mobiliário sempre foi o que mais me tocava no trabalho.” Com estreia na Chaise Design, na Vila Madalena, a coleção reúne referências das cidades onde o designer trabalhou. Londres, a inspiração de quem precisa ser bem recebido; de Madri veio a relação entre formas e luz, e Riad aparece no jeito de receber bem, sem excessos.

Nesta entrevista, o processo de criação, a escolha dos materiais, o trabalho com artesãos brasileiros e os planos de levar o estudio_mendes para outros mercados.

THE PRESIDENT — Depois de mais de dez anos trabalhando com interiores e projetos internacionais, por que este foi o momento de lançar sua própria marca de mobiliário?

Guilherme Mendes: Porque, pela primeira vez, eu senti que estava pronto. E não falo só de técnica. Falo de repertório, de maturidade e de coragem. O mobiliário sempre foi o que mais me tocava no trabalho. Mais do que a parede, a planta ou a fachada, era a peça: aquilo que o corpo encontra primeiro quando entra em casa, aquilo que a gente toca todos os dias. Passei mais de dez anos aprendendo. Comecei pequeno, em São Paulo, com uma sócia, em projetos residenciais. Ali entendi que interiores não são decoração; são a forma como alguém vive o dia a dia. Depois fui buscar escala fora do Brasil, em estúdios como o Rockwell Group e o 1508 London, passando por Madri, Milão, Londres e Riad. Na hospitalidade, acabei cuidando do desenvolvimento de mobiliário sob medida para hotéis e residências, e ali o sonho ganhou contorno. Então, quando me perguntam por que agora, a resposta é simples: porque antes eu ainda estava aprendendo o que queria dizer. Hoje olho para trás e entendo que nada foi desvio. Foi preparação. O estudio_mendes não começa agora; ele só ganhou nome agora.

Que referências de Londres, Madri e Riad aparecem na Coleção Mosaico?

GM: Elas aparecem mais como memória do que como citação. Cada cidade deixou uma camada. De Londres, veio a hospitalidade: desenhar pensando em quem chega e precisa ser bem recebido. Por isso o sofá é baixo, sem braços e generoso, feito para o corpo descansar. De Madri, veio a luz. Os módulos do estofado têm volumes diferentes e um respiro entre eles, então a luz desenha uma sombra diferente em cada bloco ao longo do dia. De Riad, veio a generosidade de quem recebe bem, mas sem o excesso. Por isso a coleção usa só madeira maciça e tecidos naturais. Como num mosaico, são referências diferentes que encontram equilíbrio lado a lado.

Como transformar referências de diferentes culturas em peças com identidade brasileira?

GM: Deixando que o repertório venha de fora, mas que a matéria e as mãos sejam daqui. A distância me ensinou a enxergar o valor do que a gente tem: a nossa madeira, os nossos artesãos, o nosso jeito de fazer sem pressa. A Mosaico é feita em cumaru maciço, uma madeira brasileira, com bouclé e linho, e cada peça é produzida à mão por marceneiros e estofadores brasileiros. As pequenas diferenças desse processo não são defeito; são a marca de quem fez. E a irregularidade dos módulos, para mim, tem muito de brasileiro: a mistura, o orgânico, o que não é igual e, por isso, tem vida. É aí que as referências deixam de ser estrangeiras e passam a ser nossas.

Qual foi o maior desafio de transformar sua visão criativa em um negócio?

GM: Encontrar quem acreditasse na peça antes de ela existir. Bati em muitas portas. Vários tapeceiros acharam o projeto complexo demais, caro demais, irregular demais. E a irregularidade era justamente o ponto. Depois de quase um ano procurando, encontrei um senhor de 85 anos que olhou para o desenho e viu um desafio, não um problema. Ele me disse que aquilo trouxe de volta o brilho no olhar dele. Naquele dia, entendi que o negócio só faria sentido se fosse construído assim: com gente que se reconhece no que faz. O resto também foi aprendizado. Estrutura, prazos, números, uma empresa de verdade por trás de cada peça. Mas a parte mais difícil foi a mais bonita.

Onde você quer chegar com o estudio_mendes: um estúdio autoral ou uma marca com presença no mercado internacional?

GM: Quero chegar a uma marca com presença internacional, sem deixar de ser um estúdio autoral. Uma coisa não precisa apagar a outra. O estudio_mendes nasceu autoral e vai continuar assim: pequeno, curado, com uma coleção por ano, pensada com calma. Passei mais de dez anos trabalhando fora, e levar a marca para lá é, de certa forma, reencontrar uma parte da minha história. Mas a produção fica aqui, nas mãos de quem faz. O desejo é simples: peças feitas no Brasil, que atravessem fronteiras e envelheçam bem em qualquer casa do mundo.

estudio-mendes.com