Líder da mobilidade

Destaque

16/03/2026

Líder da mobilidade

Alexandre Baldy revela como a BYD pretende encabeçar a transição energética veicular no Brasil com a produção de automóveis, ônibus e trens que usam energia limpa

Por Mário Sérgio Venditti

Em uma das noites da 31ª edição do Salão Internacional de São Paulo, realizado em novembro, Alexandre Baldy, vice-presidente sênior e head de comercial e marketing da BYD no Brasil, não disfarçava seu contentamento. Dali a alguns minutos, ele faria a apresentação do Atto 8, novo modelo que a gigante chinesa está trazendo ao país. Em seguida, se encaminharia ao estande da Denza, a poucos passos de distância, para inaugurar, oficialmente, as atividades da marca de automóveis premium que pertence à BYD.

De quebra, mostraria o carro de estreia da Denza no Brasil, o SUV B5. Natural de Goiânia (GO), Baldy, 45 anos, já percorreu os corredores da política nacional, ocupando cargos como o de ministro das Cidades (governo Michel Temer) e secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo (gestão de João Dória). No momento, é um executivo muito importante para colocar em prática o plano da companhia de liderar a mobilidade de baixa emissão no cenário brasileiro. Para a missão se concretizar, a BYD não esconde uma série de trunfos com seus veículos elétricos.

Ela vem aumentando o portfólio de automóveis — alguns, inclusive, em produção no complexo de Camaçari (BA) —, está fabricando ônibus para os corredores verdes das grandes cidades e fornecerá seus trens para a Linha 17-Ouro no Metrô de São Paulo. Será uma revolução na maneira de as pessoas se transportarem, conforme Baldy revelou nessa entrevista a THE PRESIDENT.

Alexandre Baldy, vice-presidente sênior e head de comercial e marketing da BYD no Brasil

THE PRESIDENT _ Muitas marcas chinesas chegaram ao Brasil nos últimos meses. O que a BYD pretende fazer para seguir se diferenciando em um mercado tão competitivo?

Alexandre Baldy – A BYD é líder global em automóveis híbridos e elétricos e está totalmente consolidada no Brasil. Portanto, é natural que outras empresas queiram se estabelecer no país com seus produtos. A concorrência nos estimula a melhorar cada vez mais. A BYD é número 1 na China e esse também é nosso objetivo no Brasil: lutar para ser o número 1.

A BYD lançou seus primeiros carros no Brasil — Tan e Han — em 2022. Em três anos, vendeu quase 200 mil veículos eletrificados. Qual é o balanço que você faz do desempenho da empresa nesse período?

Estamos chegando a 200 mil veículos comercializados em três anos, número que, para ser sincero, nos surpreendeu. Ao mesmo tempo, ele nos enche de responsabilidade para, a passos largos, abrir o mercado para a mais profunda transição tecnológica que viveremos em nossa geração. É um orgulho ver que a BYD é protagonista desse cenário.

Estamos chegando a 200 mil veículos comercializados em três anos, número que, para ser sincero, nos surpreendeu. Ao mesmo tempo, ele nos enche de responsabilidade para, a passos largos, abrir o mercado para a mais profunda transição tecnológica que viveremos em nossa geração. É um orgulho ver que a BYD é protagonista desse cenário.

O pulo do gato foi o lançamento do Dolphin Mini por um preço mais acessível?

O Dolphin Mini foi uma enorme surpresa, pois entrega qualidade, sofisticação, tecnologia, inovação e equipamentos nunca antes vistos em sua categoria de preços. Além disso, seu uso gera uma economia incrível, o que permite ao consumidor brasileiro sonhar com a compra de um automóvel 100% elétrico e acessível.

A BYD comprou a fábrica de Camaçari em 2023 e, em outubro passado, inaugurou suas operações. Como está o ritmo de produção do complexo?

A cada dia, a fábrica está se consolidando e aumentando a produtividade. Investimos na expansão para iniciar a fabricação totalmente nacional e, depois de apenas 45 dias da inauguração, alcançamos a marca de 10 mil modelos BYD Dolphin Mini, BYD King e BYD Song Pro produzidos no local. No início de dezembro, a empresa estreou o segundo turno, com 120 colaboradores no período noturno. A medida destaca o compromisso da companhia com o aumento da produção e a geração de empregos na região. O complexo tem capacidade de fazer 150 mil veículos por ano em sua primeira fase e 300 mil na etapa posterior, mas a ideia é dobrar para 600 mil veículos anuais. 

Como foram destinados os R$ 5,5 bilhões investidos na fábrica?

Os investimentos estão se materializando na construção das fases de implantação de nosso parque industrial, para chegarmos à produção de 600 mil carros.

Uma das marcas que estão desembarcando no Brasil é a Denza, que pertence à BYD. Qual é a estratégia por trás dessa decisão da companhia?

A BYD criou a Denza em parceria com a Mercedes-Benz, em 2010 e, em 2024, comprou a parte dos alemães. Trata-se de uma marca premium, de carros aspiracionais. É o luxo se unindo a uma gigante da tecnologia na indústria automotiva. A BYD resolveu lançar a Denza internacionalmente; ela também está chegando em países da Europa, no México e em várias regiões do mundo. A partir disso, vamos entender a reação desses mercados. Vale ressaltar que a operação da Denza será independente da BYD. Inclusive com uma rede de concessionárias própria e, no futuro, avaliaremos a fabricação de seus carros em Camaçari.

Quais os modelos que a Denza vai oferecer no Brasil?

No Salão do Automóvel de São Paulo, em novembro, apresentamos o utilitário esportivo Denza B5, que custa R$ 436 mil. E antecipamos que mais dois modelos chegarão ao mercado brasileiro: o esportivo Z9 GT, por R$ 650 mil, e a van executiva de luxo D9, por R$ 800 mil. A BYD conseguiu transformar a percepção do carro elétrico no Brasil e agora pretende elevar o padrão com a Denza. 

A BYD não ficou atrás e, também no Salão, revelou um novo carro. O que esperar do Atto 8?

O Atto 8 é um SUV híbrido plug-in de sete lugares, o primeiro modelo da marca no Brasil equipado com a plataforma DM-P (Dual Mode Performance), cuja principal característica é a performance. O conjunto é formado por dois motores elétricos. O dianteiro entrega 200 kW de potência e o traseiro, 159 kW. Eles trabalham em combinação com o motor 1.5 turbo de 156 cv. A potência combinada é de 488 cv e a autonomia chega a 900 quilômetros. 

O Salão do Automóvel de São Paulo foi retomado depois de sete anos de paralisação e muitas marcas tradicionais se ausentaram. Qual é o saldo que você faz do evento?

 O brasileiro é verdadeiramente apaixonado por carros e participar pela primeira vez do Salão, após sete anos sem edição, marcou um momento especial para a BYD. Nossa experiência foi extremamente positiva. Encontramos um público engajado, curioso, aberto às novas tecnologias, ao desempenho e às soluções inovadoras de mobilidade, pilares que orientam a atuação da companhia no Brasil. Estar nesse espaço nos permitiu apresentar uma visão de futuro, reforçar o nosso posicionamento, aproximar o público do ecossistema de energia limpa e destacar lançamentos estratégicos, como o Atto 8 e a chegada da Denza. 

A seu ver, como está o andamento da transição energética veicular no Brasil? Estamos atrasados ou alinhados com o resto do mundo?

Penso que o momento é favorável e estamos em um estágio de resgatar o tempo desperdiçado. Cada vez mais, o consumidor brasileiro tem o entendimento da economia e da contribuição ao meio ambiente quando faz a opção por carros dotados de energias limpas.

A capilaridade da rede e o pós-venda são fatores essenciais para o sucesso de uma marca. Como está a expansão no país? 

A formação de uma rede de concessionários forte e sólida é fundamental para construir a imagem da marca e ganhar mercado. Já o pós-venda permite que conquistemos a confiança e a lealdade dos nossos clientes. Atualmente, nossa rede é composta por 200 concessionárias, mas planejamos chegar a 250 em um prazo bem curto.

Como está o envolvimento da BYD na eletrificação dos ônibus de transporte urbano nas grandes cidades?

Quando falamos da consciência das pessoas a respeito da sustentabilidade, isso abrange também os usuários dos transportes coletivos. Hoje, os ônibus elétricos ganham espaço em várias cidades do país. Estamos investindo e somos muito competitivos nesse segmento, a partir da fabricação dos veículos na unidade de Campinas (SP), para atender à demanda pela eletrificação da frota não só em São Paulo, dona da maior quantidade de ônibus elétricos, como em outras localidades.

Além dos motores elétricos, a BYD vem investindo em outras tecnologias, como hidrogênio verde e célula de combustível, tanto nos automóveis como nos veículos pesados?

É cedo para falar sobre as pesquisas que a BYD desenvolve em novas tecnologias. Uma coisa é certa: estamos atentos em todas as rotas possíveis, seja com baterias mais eficientes ou novas alternativas de combustíveis.

Uma das inovações é a bateria com tecnologia Blade. Em agosto, a BYD divulgou que vai adotá-la nos ônibus, como já faz em alguns carros. Quais são as vantagens dela? Existem outras tecnologias em desenvolvimento? 

Sendo uma empresa de tecnologia, a BYD investe bilhões para desenvolver produtos melhores, para aperfeiçoamento contínuo. A implementação da bateria Blade nos ônibus visa à entrega de tecnologia, segurança e inovação à mobilidade coletiva. A Blade tem inúmeras vantagens. Ao usar a química de fosfato de ferro-lítio (LFT), é mais estável termicamente e segura. Sua vida útil é maior, ocupa menos espaço e garante mais autonomia ao veículo. 

Algumas montadoras estão engajadas na instalação de infraestrutura de recarga no Brasil. A BYD é favorável a esse tipo de investimento?

Sem dúvida. A BYD investe constantemente para ampliar a rede de recarga para carros eletrificados no Brasil. Para se ter ideia, somos responsáveis pela implementação de 11% dos equipamentos rápidos em operação no país.

A BYD já firmou parcerias para o desenvolvimento da eletromobilidade. Esses acordos são o caminho para alavancar com mais rapidez a transição energética ou são oportunidades pontuais de negócios?

Toda parceria que tem como principal objetivo fortalecer o ecossistema da mobilidade sustentável no Brasil é bem-vinda. Isso vale tanto para o motorista de carro eletrificado, que busca mais pontos de recarga, quanto para o passageiro de ônibus elétrico, que deseja um trajeto mais silencioso e confortável. A eletromobilidade só avança de maneira consistente quando o ecossistema trabalha de maneira integrada: do setor privado ao público e de operadores de transporte a concessionárias de energia. Cada acordo que estabelecemos, para ampliar a infraestrutura de recarga ou para apoiar operações de transporte elétrico, reforça essa base e melhora a experiência dos quase 200 mil veículos eletrificados da BYD que circulam no país. Liderar essa transição para uma economia de baixo carbono faz parte da nossa rotina, porque estamos conectados às práticas mais avançadas de sustentabilidade nos setores em que atuamos. No fim das contas, elas criam condições para o Brasil avançar de forma mais rápida, eficiente e sustentável rumo a uma mobilidade de baixas emissões. Trata-se de construção coletiva e seguimos firmes na missão de ajudar a reduzir a temperatura da Terra em 1 °C.

Em 2024, a BYD lançou a Shark, picape voltada ao agronegócio. Acostumado a picapes diesel, como o setor reagiu a um veículo plug-in?

A Shark é uma picape premium, robusta e com 437 cv de potência combinada em sua tecnologia híbrida plug-in. Ela é focada nas exigências do agronegócio brasileiro e entrega de forma absurda toda performance que jamais poderia se imaginar em uma picape média. A resposta tem sido extremamente positiva, levando-se em consideração que o agricultor brasileiro é tão ou mais conservador que o país.  

O que esperar da BYD no mercado brasileiro nos próximos anos? 

O Brasil é um mercado absolutamente estratégico para a BYD e os próximos anos serão marcados por um avanço consistente em várias frentes: novos produtos, expansão da produção local, fortalecimento das equipes, desenvolvimento tecnológico e ampliação do ecossistema de energia limpa. Com a chegada da Denza, o crescimento do complexo industrial de Camaçari e o desenvolvimento de soluções integradas de transporte e energia, vamos ampliar a nossa presença e reforçar a liderança na transição energética brasileira. Seguiremos trazendo inovação, infraestrutura e tecnologia de ponta, sempre com o olhar voltado para o futuro. A BYD é do Brasil e o nosso compromisso é entregar ao país o melhor em mobilidade, sustentabilidade e inovação.

Você citou soluções integradas de transporte. Como está a atuação da BYD na linha 17-Ouro do Metrô de São Paulo? 

Temos a missão de entregar aos usuários soluções baseadas em inovação, com foco no desenvolvimento de veículos sustentáveis para diferentes necessidades, do transporte individual ao coletivo. Esse compromisso com a mobilidade urbana eficiente e limpa se reflete na Linha 17-Ouro, que se consolida como um marco fundamental desse avanço. Acompanhar a evolução rápida do projeto, que assumimos oficialmente em 2020, é motivo de grande satisfação. Foi um desafio produzir o trem para um projeto em andamento e isso enfatiza o compromisso da BYD com os brasileiros. Nossas composições são tecnológicas e inovadoras, porque são as únicas equipadas com baterias recarregáveis. Em caso de pane do sistema de alimentação elétrica da via, podem operar de forma autossuficiente por até oito quilômetros. No momento, oito dos 14 trens BYD SkyRail estão em fase de avaliação e a entrega de mais uma unidade estava prevista para dezembro. Com a operação do SkyRail, São Paulo passará a contar com mais uma alternativa da BYD, unindo inovação, sustentabilidade e eficiência no transporte público. São Paulo estará entre as cidades pioneiras na América Latina na adoção de soluções ferroviárias automatizadas.