A hora da IA para alimentos frescos
Artigos
17/06/2026
O varejo brasileiro tem uma oportunidade única de modernizar a gestão de frutas, legumes e verduras com tecnologias que já provaram sua eficácia em outros mercados
Colaboração de Marco Perlman, CEO da Aravita
O varejo brasileiro está diante de uma oportunidade rara: adotar inteligência artificial para a gestão de frutas, legumes, verduras e ovos no momento em que essa tecnologia atingiu maturidade suficiente para gerar resultados concretos, sem exigir os investimentos e a curva de aprendizado que marcaram os primeiros projetos em outros países.
Acredito que o Brasil está no momento certo para dar esse passo. Quem dominar a gestão de alimentos frescos com tecnologia nos próximos três anos construirá uma vantagem competitiva difícil de ser alcançada posteriormente. Isso porque a inteligência aplicada a frescos fica melhor quanto mais tempo opera em uma rede, aprendendo com a operação dela: é uma dianteira que se constrói com o tempo e não se compra pronta depois.
Até poucos anos atrás, soluções de inteligência artificial para produtos frescos eram complexas, caras e restritas a grandes empresas de tecnologia. A partir de 2023, esse cenário mudou. Os modelos ficaram mais acessíveis, passaram a operar em arquiteturas padronizadas de mercado e as interfaces se tornaram simples o suficiente para serem utilizadas em celulares e tablets, com treinamento mínimo das equipes.
Essa evolução é particularmente relevante para uma área que ainda representa um dos maiores desafios operacionais dos supermercados. Muitos varejistas tentam administrar frutas, legumes e verduras com as mesmas ferramentas e processos utilizados em categorias de produtos industrializados. Na prática, isso não funciona.
Produtos frescos possuem uma dinâmica própria. Sua vida útil é curta, a demanda varia de acordo com fatores como clima, sazonalidade, dia da semana e promoções, e os consumidores substituem itens dentro da própria categoria com frequência. Quando o mamão entra em promoção, por exemplo, parte dos clientes deixa de comprar banana. Se a análise for feita isoladamente, item por item, o resultado tende a ser um erro tanto na previsão de demanda quanto no abastecimento.
Outro obstáculo está na qualidade dos dados disponíveis. Em muitas operações, notas fiscais chegam com atraso, perdas não são registradas no momento em que ocorrem e produtos são transformados internamente sem que os estoques sejam atualizados corretamente. O problema, muitas vezes, não está no sistema de gestão, mas na qualidade das informações inseridas nele.
É justamente nesse ponto que a inteligência artificial especializada em alimentos frescos começa a demonstrar seu valor. Além de prever demanda, ela consegue identificar inconsistências, corrigir distorções de estoque e apoiar decisões mais precisas de compra e reposição.
Os resultados observados em redes varejistas que já adotaram esse tipo de tecnologia mostram que os benefícios vão além da eficiência operacional. Reduções expressivas de perdas e rupturas, associadas ao aumento da disponibilidade dos produtos para os consumidores, indicam que é possível melhorar simultaneamente a experiência de compra e os resultados financeiros.
Durante muitos anos, reduzir desperdício significava, em muitos casos, comprar menos. O desafio atual é diferente: reduzir perdas sem comprometer vendas. Em outras palavras, diminuir a quebra enquanto se aumenta a disponibilidade dos produtos nas gôndolas.
O Brasil reúne condições favoráveis para liderar essa transformação. Possui um mercado varejista sofisticado, uma cadeia de abastecimento relevante e consumidores cada vez mais atentos à qualidade dos alimentos. E o que vale hoje para frutas, legumes, verduras e ovos tende a valer, em seguida, para todo o perecível fresco da loja. A janela de oportunidade está aberta. A questão agora é quem decidirá aproveitá-la primeiro.