Quem foram as mulheres que ajudaram a definir o design da Bauhaus?

Arte

27/10/2026

Quem foram as mulheres que ajudaram a definir o design da Bauhaus?

A artista Andrea Natali revisita o trabalho de oito nomes ligados à escola alemã em uma série de pinturas sobre seda

Por Redação

Elas criaram tecidos, pesquisaram materiais e desenharam objetos que ajudaram a mudar a maneira como arte e design se relacionam com o cotidiano. Mesmo assim, muitas mulheres que passaram pela Bauhaus não tiveram o trabalho reconhecido como mereciam. A história delas é o ponto de partida de Geometrias do Invisível, primeira exposição individual da artista paulistana Andrea Natali, em cartaz até 29 de outubro, no Espaço República, em São Paulo.

A mostra reúne 22 peças de seda pintadas especialmente para a ocasião, além de lambe-lambes com composições desenvolvidas pela artista. O trabalho homenageia oito mulheres ligadas à Bauhaus: Gunta Stölzl, Anni Albers, Benita Koch-Otte, Lilly Reich, Margaretha Reichardt, Lucia Moholy, Marianne Brandt e Alma Siedhoff-Buscher.

Fundada na Alemanha, em 1919, a Bauhaus propunha aproximar arte, arquitetura e design. Mas havia uma contradição: embora as mulheres pudessem estudar na escola, muitas eram direcionadas à tecelagem e a outras atividades consideradas mais adequadas ao público feminino. Ainda assim, suas pesquisas ajudaram a explorar novas possibilidades para os materiais e influenciaram o design moderno.

Andrea começou a desenvolver o projeto em dezembro do ano passado, com a ideia de homenagear os artistas da Bauhaus de maneira geral. A pesquisa tomou outro rumo quando ela descobriu a produção das mulheres. “No começo, era uma homenagem aos artistas da Bauhaus em geral. Até que eu cheguei às mulheres e me apaixonei”, conta. “Quero trazer a importância delas para o que foi a Bauhaus.”

Para o curador Renato Dib, olhar para essa produção ajuda a entender a influência de artistas que nem sempre receberam o devido reconhecimento. “O invisível deixa de ser vazio e revela a influência de mulheres cujas ideias continuam a atravessar a arte e a vida cotidiana”, afirma.

Seda, luz e transparência

Na exposição, as peças de seda ficam suspensas e formam um ambiente pelo qual o público pode circular. A luz atravessa os tecidos, enquanto as cores e as formas mudam conforme o visitante se movimenta e as peças se sobrepõem.

Andrea trabalha com aquarela sobre seda e utiliza um espessante para controlar a tinta e desenhar diretamente no tecido sem que ela se espalhe. A técnica faz parte de uma pesquisa de 35 anos, que inclui diferentes experimentações e um curso de batique realizado na ilha de Java, na Indonésia.

O trabalho também sai da exposição e ocupa as ruas. Os lambe-lambes criados por Andrea estão espalhados por bairros da região central de São Paulo. As composições misturam referências às mulheres da Bauhaus, formas geométricas e fotografias feitas pela artista, incluindo imagens de escadas.

“Colá-los na cidade é também ampliar a presença dessas mulheres e dar visibilidade às histórias que alimentam meu trabalho”, diz Andrea.

Durante a preparação da mostra, a artista desenvolveu mais de 300 composições. Desse total, o curador selecionou 20 para a exposição, explorando recursos como repetição, fragmentação e sobreposição de camadas.

Da moda à arte

A relação de Andrea com a seda começou no início dos anos 1990, quando estudava arquitetura e recebeu um convite para trabalhar em um ateliê que atendia uma loja de peças únicas nos Jardins, em São Paulo. Depois, passou a criar estampas, tingimentos e cartelas de cores para marcas como Daslu, Mixed e Osklen.

Conhecida profissionalmente como Deinha, ela também trabalhou com aerografia e tie-dye, técnica que usa amarrações e dobraduras para criar padrões no tecido. Suas criações chegaram à moda praia, às roupas de ginástica e às passarelas, com peças feitas especialmente para desfiles.

A abertura de Geometrias do Invisível foi programada para coincidir com a São Paulo Fashion Week, realizada de 14 a 18 de outubro. A escolha reforça a relação da artista com a moda, área em que continua trabalhando, embora tenha reduzido a produção para o mercado. Andrea ainda desenvolve peças para a estilista Angela Motta, cujas criações são usadas por Glorinha Kalil, Gloria Coelho e Consuelo Blocker.

A fotografia e o retorno à seda

A fotografia faz parte da vida de Andrea desde os dez anos, quando ganhou a primeira câmera do pai. Durante a pandemia, ela se dedicou à produção autoral e passou a fotografar diariamente a escadaria do prédio onde mora, buscando novos ângulos para um mesmo cenário.

Foi também nessa época que voltou a pintar seda. Andrea resgatou tecidos que mantinha guardados e começou a criar lenços, antes de desenvolver peças com releituras de Kandinsky. O processo aproximou novamente linguagens que já faziam parte de seu trabalho.

A ideia de realizar uma exposição individual ganhou força quando a artista transferiu o ateliê de casa para o Espaço República, atraída pela movimentação cultural do bairro. Depois de participar de cerca de 30 exposições coletivas, ela escolheu a pintura sobre seda para apresentar esse trabalho.

“Eu comecei pintando seda pura e é assim que eu quero fazer a minha primeira individual. É o resgate da minha arte, da minha essência”, afirma.