Muito duráveis com Karl Kieliger, da Victorinox

Destaque

16/10/2026

Muito duráveis com Karl Kieliger, da Victorinox

Esta é uma das principais qualidades dos produtos da Victorinox, como realça Karl Kieliger, diretor-geral da empresa para a América Latina

Por Walterson Sardenberg Sº

Há muitas gerações os canivetes suíços da Victorinox são atrativos. Não à toa. Engenhosos, combinam robustez com uma invejável capacidade de encaixes, ofertando inúmeras ferramentas em um mínimo de espaço. Ainda no final do século 19 já eram um sucesso. Imune à passagem do tempo, aliás. Em 1978, por exemplo, foram incorporados às missões espaciais da NASA. Permanecem atuais, cintilantes. Como sempre. 

A empresa foi criada em Ibach, na Suíça, no ano de 1884 por Karl Elsener, que deu à companhia o nome da mãe, Victoria. Em 1921, com o advento do aço inoxidável, o batismo foi mudado pelos filhos do fundador para Victorinox, realçando o seu maior diferencial. 

Reconhecida pela inventividade e durabilidade dos produtos, a marca abriu seu portfólio em 1989, com o lançamento da primeira linha de relógios. Dez anos mais tarde, expandiu para malas de viagem, mochilas
e acessórios.

Presente em mais de 120 países, a Victorinox trata de seu avanço global com o mesmo esmero com que fabrica seus reluzentes canivetes vermelhos. 

É o que relata o simpático suíço Karl Kieliger, 54 anos, diretor-geral da empresa para a América Latina. No momento, ele vive no México, mas vem com frequência ao Brasil, um de seus países preferidos, onde morou por oito anos. “Eu me sinto um pouco brasileiro”, resume.

Muito duráveis com Karl Kieliger, da Victorinox

THE PRESIDENT _ Conte um pouco da sua trajetória, Karl.

Karl Kieliger – Bem, nasci na parte alemã da Suíça e estudei administração de empresas em Lucerna. Sempre gostei de viajar, de procurar entender outras culturas. Com 23 anos, de férias, decidi conhecer a América Latina, começando pelo Rio de Janeiro. Foi minha primeira viagem longa. De lá me bandeei para o Peru, onde conheci um empresário suíço que importava artigos de cozinha da Suíça e Alemanha. Ele me convidou para trabalhar na empresa. Fiquei quatro anos no Peru.

THE PRESIDENT _ Só então voltou para a Suíça?

Eu queria ficar só um ano no Peru, mas permaneci quatro e gostei muito. De volta à Suíça, com 29 anos, procurei trabalho. Levei um bom tempo para encontrar e consegui entrar na Victorinox. Comecei na área corporativa, depois na de vendas. Queria chegar à área internacional de exportação para de novo viajar, conhecer clientes de outros países. Consegui esse intento seis anos depois. Passei a ser responsável pela exportação para a Rússia, para o Leste Europeu e para o Oriente Médio. Mas como trabalhei quatro anos no Peru, tinha muita vontade de sair de novo da Suíça e trabalhar em um país, de preferência na América Latina. Dei sorte. A Victorinox precisava de uma pessoa para a área comercial aqui no Brasil. Fui escolhido. Dois anos depois me tornei o diretor-geral da Victorinox no Brasil. 

THE PRESIDENT _ Você morava em São Paulo? 

Fiquei oito anos em São Paulo, de 2009 a 2016. Gosto muito da cidade. Conheci boa parte do Brasil, que é um país muito grande. Fizemos um bom trabalho. Dobramos as vendas da Victorinox no Brasil. Depois de seis anos em São Paulo, queria desbravar outros ares. Passados mais dois anos, surgiu a oportunidade de ser responsável pela Victorinox no México. O diretor estava se aposentando. O México é um mercado muito importante para a empresa, o quarto maior da Victorinox.

THE PRESIDENT _ Como é essa escala?

O primeiro mercado são os Estados Unidos. Depois a Alemanha, a Suíça e o México. O Brasil é o segundo maior mercado nesse segmento.

THE PRESIDENT _ Por que o México está na frente do Brasil tendo uma população bem menor? 

Porque o mexicano vê nossos canivetes como objeto de trabalho diário, ferramenta. Nossas vendas de canivetes no México são mais massivas, para todas as classes. Queremos ser vistos no Brasil como uma marca premium, com produtos versáteis e duráveis.

THE PRESIDENT _ Há quanto tempo você está no cargo de diretor da Victorinox para a América Latina?

Temos quatro subsidiárias na América Latina: Brasil, México, Chile e Peru, além de cerca de 20 distribuidores. Decidimos construir um hub. A ideia é aproveitar as sinergias, trabalhar em conjunto. As equipes estão conversando entre si, trocando experiências. Isso é essencial.

THE PRESIDENT _ Você mora na Cidade do México?

Não, em Puebla, a duas horas da Cidade do México. Fico 40% do ano por lá. De resto, viajo muito. Gosto de passar julho e agosto, o verão, na Suíça. Depois passo um mês e meio no Brasil, um mês no Peru, três semanas no Chile e assim por diante. Eu estava casado, mas me separei. Não tenho família, não tenho criança, ninguém me espera, não tenho cachorro nem gato em casa. Fico livre para viajar. Adoro estar no Brasil. Morei oito anos por aqui. Consigo falar português e estou muito orgulhoso por entender tudo. No Instagram, acompanho muito os memes dos brasileiros e me divirto um bocado. Essa graça, essa alegria do Brasil, me agradam muito. Eu me sinto um pouco brasileiro. 

THE PRESIDENT _ O que você mais gosta no Brasil?

As pessoas, a alegria, a comida, a carne — eu gosto muito de carne! O clima é muito bom, a natureza, este jeito de ser feliz, de ser espontâneo. Tenho 54 anos. Os oito anos que passei aqui trazem muito boas lembranças, excluindo o trânsito de São Paulo que, ainda bem, parece ter melhorado.

THE PRESIDENT _ Vamos falar um pouco do portfólio da Victorinox. Há a linha, mais tradicional, dos canivetes. O segundo segmento é o dos relógios. Sem esquecer a área da cutelaria e a de malas e pastas. São essas quatro?

Sim, hoje são quatro linhas. A de cutelaria se divide na doméstica e na profissional, que vendemos para frigoríficos, por exemplo. Os relógios representam mais de 50% de nossas vendas no Brasil. Temos muito bons parceiros por aqui. São cerca de 200 clientes em todo o país. Isso é parte do sucesso. No Brasil as pessoas são vaidosas, se cuidam muito, gostam de estar bem vestidas. As mulheres adoram usar uma joia e as lojas de joias também vendem relógios. Isso ajuda a gente a ter uma distribuição eficiente. 

THE PRESIDENT _ Explique melhor como a marca Victorinox se posiciona. 

Como disse, nós não queremos ser luxo. Sempre falamos que somos uma marca premium. Pretendemos oferecer um ótimo custo-benefício. Nosso presidente sempre fala que quer ter um produto de alta qualidade, de boa garantia, um produto de confiança, mas de preço relativamente acessível, democrático. Temos muitos fãs da marca e isso ajuda a nos comunicar com pessoas mais jovens. É muito importante saber se renovar.

THE PRESIDENT _ Em 2015, a Victorinox inaugurou sua fábrica de relógios. O que mudou?

A principal expertise da empresa é trabalhar o aço. Os canivetes são de aço, assim como as facas. Somos experts nessa área desde  1884 e procuramos transferir este conhecimento para os relógios. Investimos em nosso Centro de Competências em relógios no coração relojoeiro, em Delémont, na Suíça, onde produzimos, montamos e testamos nossos relógios. Para um relógio suíço ter o selo Swiss Made, precisa ter 60% de sua confecção na Suíça. Pois bem, os nossos têm 95%. São fabricados em máquinas de alta tecnologia, mas combinamos isso com a parte artesanal. O acabamento é feito à mão, incluindo o polimento. O resultado são joias sofisticadas. As pessoas usam o relógio cada vez mais como uma joia, porque hoje você consulta as horas no celular ou no computador. Dessa forma, o relógio se transformou em produto de identificação, de lifestyle. E há o lado emocional. O relógio pode ser o primeiro presente, de um casamento ou formatura. Enfim, para momentos especiais.

Muito duráveis com Karl Kieliger, da Victorinox

THE PRESIDENT _ A Victorinox tem artigos de alta relojoaria e também relógios automáticos. A ideia é diversificar sempre?

Sim. Trabalhamos com mecanismos mecânicos e automáticos. Cada vez mais as pessoas entendem de relógios. Isso é muito bom. Elas têm a opção da escolha. O mais importante: são sempre produtos de alta qualidade.

THE PRESIDENT _ Os produtos passam por muitos testes?

Um relógio, por exemplo, passa por mais de 130 testes. Essas peças foram fabricadas para durar. Somos uma empresa familiar, isso é algo muito importante. Estamos na quarta geração. Venda é importante, claro, temos de mostrar resultados. Mas o nosso presidente sempre fala que queremos ter clientes satisfeitos e seus direitos preservados. Sim, somos uma empresa que tem que gerar lucro e vendas, mas não é esse o principal foco da marca. Queremos, antes de tudo, oferecer produtos robustos e de alta qualidade.

THE PRESIDENT _ A Victorinox está presente em quantos países? Qual é o número de funcionários? 

Estamos hoje vendendo os produtos em mais de 120 países. Temos 12 subsidiárias e quatro na América Latina, como mencionei anteriormente. São 2.200 funcionários no mundo inteiro. Estamos oficialmente no Brasil desde 1992. Ou seja, já são 34 anos. No ano passado tivemos um crescimento de 30% no país. Ainda há muita perspectiva para crescer este ano. Curiosamente, os anos de eleições no Brasil costumavam ser ruins para os negócios. Desta vez, o cenário está sendo atípico. As vendas não foram afetadas pelo momento político. O Brasil superou aquelas oscilações e hoje a economia é bastante estável. 

THE PRESIDENT _ Hoje se fala muito em sustentabilidade, o que a Victorinox tem feito nesse sentido?

O cuidado com a sustentabilidade é grande e diário. Para que o aço não esquente além da conta no processo de produção, você tem de jogar muita água, que sai das máquinas cheia de pó de metal. Nós limpamos toda essa água, que retorna para a produção. Tem mais. No inverno, na Suíça, nós aproveitamos o calor dessa água e o transformamos em calefação para 120 apartamentos perto da fábrica. Estes são apenas dois exemplos. Há muito mais. O fato de nossos produtos durarem muito tempo também é uma contribuição para a sustentabilidade. 

THE PRESIDENT _ Ser uma empresa familiar e de capital fechado ajuda?

Conheço bem o pensamento da família Elsener. Tudo o que foi construído em quatro gerações é um legado. A família atua com uma responsabilidade muito grande. Quer entregar a marca para a próxima geração no melhor estado possível. Então pensamos a longo prazo. As empresas de capital aberto têm que apresentar, constantemente, bons números para os investidores. Não se pensa, muitas vezes, a longo prazo. É tudo mais imediato. Mas isso não quer dizer que a Victorinox corra o risco de estacionar. Nada disso. Estamos sempre inovando. Por exemplo, a mudança de software para Salesforce, a IA utilizada para atender melhor o cliente e os nossos distribuidores. Gosto muito dessas inovações. 

THE PRESIDENT _ A Victorinox pensa em abrir fábricas em outros países? 

Não, somos uma empresa suíça. Isso inclui a tradição e, claro, também alguns problemas. O custo de vida e os salários são altos na Suíça. Além disso, a população está envelhecendo. Por isso, nós implementamos cada vez mais automatização. É um investimento grande, mas necessário para melhorar os processos e assegurar um preço acessível no futuro. Porém, priorizamos o capital humano nos processos que precisamos garantir a excelência, como de acabamento e testes de qualidade, realizados por pessoas altamente treinadas.

THE PRESIDENT _ Quais são os planos imediatos?

Estamos fazendo em setembro o lançamento da linha de relógios New Maverick, com base em uma das coleções mais vendidas e tradicionais da marca. São relógios clássicos e elegantes, disponíveis com movimento Quartz, além de automáticos e agora com caixas menores, de 39 mm. Este redesenho foi pensado para atender os gostos atuais dos consumidores brasileiros. 

Foi muito importante passarmos a fabricar nossas próprias caixas de relógios, a partir de 2015. Há muitas marcas de relógios na Suíça e tem que se ter uma identidade, um diferencial. O nosso é a expertise no trabalho de aço e também no design. Há uma unidade no design dos relógios. Temos uma identidade muito forte. Essa é a maneira Victorinox de ser: sempre focada em durabilidade, legado e inovação. 

@victorinoxbr