Na onda do sucesso com Martín Galdeano

Destaque

16/10/2026

Na onda do sucesso com Martín Galdeano

Presidente da Ford América do Sul, Martín Galdeano celebra o bom momento da marca no Brasil depois da virada de chave da empresa e fala do potencial de crescimento na região

Por Mário Sérgio Venditti 

Fotos Germano Lüders

A sala do presidente da Ford América do Sul, Martín Galdeano, na sede da empresa, em São Paulo, tem objetos especiais que expressam duas de suas paixões, além dos automóveis: uma camisa do River Plate emoldurada e uma prancha de surfe. Nascido em Buenos Aires há 50 anos, Galdeano não está muito satisfeito com a fase atual de Los Millonarios, como o River Plate é conhecido na Argentina. Mas, ao contrário do clube de coração, surfar as ondas naturais das praias do Guarujá (SP) ou artificiais do complexo Boa Vista Village, na cidade paulista de Porto Feliz (SP), lhe dá muito prazer. Ele volta revigorado para tomar importantes decisões que envolvem a Ford no mercado sul-americano.

A companhia está na vida de Galdeano desde o berço. Seu pai trabalhou na Ford Argentina durante 35 anos e o filho seguiu seus passos, ao ser admitido como estagiário na área de tesouraria em 1998.

A partir daí, entrou numa maré de ascensão profissional. Ocupou cargos de liderança na América do Sul, nos Estados Unidos e na Europa até ser nomeado CEO da Ford Argentina, em 2020. 

Paralelamente, em 2022 e 2023, presidiu a associação dos fabricantes automotivos da Argentina (Adefa), entidade irmã da brasileira Anfavea. Em 2024, assumiu a presidência da Ford América do Sul, quando se mudou para o Brasil, onde a Ford iniciou, em 2021, um reposicionamento no modelo de negócio. A companhia deixou de produzir no país e direcionou investimentos na importação de modelos do segmento de nicho. Nesta entrevista, Galdeano falou de como a Ford está surfando nos bons resultados obtidos após a transformação do negócio no Brasil, da importância do país no mercado  sul-americano e dos planos da companhia na região. 

Na onda do sucesso com Martin Galdeano

THE PRESIDENT _ Há cinco anos, a Ford adotou um novo modelo de negócio no Brasil, com foco em picapes, SUVs e veículos comerciais. Qual é o balanço dessa estratégia?

Martín Galdeano – A Ford vendia 300 mil, 350 mil carros por ano na América do Sul e perdíamos quase US$ 1 bilhão no mesmo período. Era uma situação impossível de sustentar e seguir investindo em um portfólio pensando no futuro. Reestruturamos o modelo de negócio e, no ano passado, vendemos 140 mil carros no mercado sul-americano. A diferença é que nos tornamos rentáveis e temos lucro há 20 trimestres. Com esse novo cenário, é mais fácil seguir investindo em tecnologia, eletrificação e conectividade. O balanço é que agora entregamos o melhor do portfólio global aos clientes da América do Sul e do Brasil, em particular.

THE PRESIDENT _ Nesse período, a Ford se voltou aos segmentos de maior valor agregado. Como se deu este reposicionamento?

Martín Galdeano – A empresa, que atuava em segmentos que representavam cerca de 80% do mercado automotivo, decidiu concentrar sua atuação naqueles em que conta com escala global e pode ser mais eficiente. Hoje, temos um portfólio que inclui picapes pequenas, médias e grandes, veículos off-road e comerciais, além de ícones esportivos, como o Mustang.

Está dando certo no Brasil…

Foi o melhor para a marca, para a nossa habilidade de jogar o jogo, ganhar e entregar o melhor produto para o cliente. É preciso esperar mais alguns anos, mas acreditamos que a decisão foi acertada em um contexto em que a exigência de investir no futuro da indústria automotiva é alta. Conectividade, eletrificação e tecnologia de condução autônoma demandam grandes investimentos, requerem que você saiba muito bem onde colocar seu dinheiro. Foi a nossa escolha para o futuro.

THE PRESIDENT _ A transição está 100% concluída ou falta alguma etapa?

Martín Galdeano – Está concluída. O caminho da reestruturação aconteceu em 2021, mas não paramos de introduzir novidades na nossa linha de produtos. No final do ano passado, anunciamos 20 lançamentos até o final de 2027 e estamos nesse processo, trazendo o melhor do portfólio global para a América do Sul. 

THE PRESIDENT _ Qual era o faturamento da Ford antes e como ficou depois do reposicionamento?

Martín Galdeano – Como eu disse, somos rentáveis há 20 trimestres porque hoje estamos do lado certo da equação: passamos de 350 mil para 140 mil veículos vendidos na América do Sul, mantendo praticamente o mesmo nível de faturamento. Em 2026, a previsão da indústria automotiva é crescer 18% e nossa expectativa para a Ford é consolidar a evolução registrada no primeiro semestre, de 20%. Para nós, isso representaria manter quatro anos de crescimento 20% ao ano. Não existe muito negócio por aí que esteja evoluindo 20%. A Ford estava focada em vender volume. Passamos a adotar uma escala muito menor, mas nos segmentos com performance superior. Já esperávamos melhor desempenho de Ranger, Transit e de alguns modelos off-roads, mas os resultados estão acima do esperado.

THE PRESIDENT _ Um dos 20 lançamentos até o fim de 2027 é a F150 Raptor. O que esperar dessa picape no mercado brasileiro?

Martín Galdeano – Em minha opinião, é um dos melhores automóveis do line-up global da Ford. É um ícone absoluto de picape, de off-road e do que somos como marca. O carro é fantástico em todos os sentidos: segurança, tecnologia e aplicação para usos on-road e off-road. Não há explicação para ele não ser oferecido no Brasil, porque o mercado premium aqui é gigantesco. Você pode fazer esse tipo de escolha quando tem uma operação que entrega rentabilidade para conseguir reinvestir no negócio. O mesmo acontece com a Ranger, que segue recebendo investimentos em versões off-road e híbrida plug-in, igualmente prevista para chegar no ano que vem. Somos muito fortes em picapes de alto padrão, mas detectamos oportunidade de expandir também nas versões voltadas ao trabalho, como as configurações cabine simples e chassi. 

Na onda do sucesso com Martin Galdeano

THE PRESIDENT _ A Ford anunciou que lançará a picape elétrica Fathom nos EUA, em 2027. Existe previsão de chegada ao Brasil? 

Martín Galdeano – Não queremos divulgar ainda todos os 20 carros que serão lançados. Nossa mentalidade é comercializar aqui o que temos de melhor globalmente. Mas há questão de tempo e de como adaptamos e homologamos alguns produtos no mercado brasileiro. 

THE PRESIDENT _ A seu ver, a expansão da eletromobilidade está em um bom ritmo no Brasil ou estamos atrasados? 

Martín Galdeano – Eu diria que ela vive um ritmo interessante. A eletrificação depende da infraestrutura do país e algumas tecnologias avançam mais que outras. O híbrido e o híbrido plug-in, por exemplo, estão progredindo rapidamente, ao passo que veículos 100% elétricos têm oportunidades de crescimento. E há outros sistemas, como hidrogênio, com muito campo pela frente.

THE PRESIDENT _ Como está o trabalho da Ford na eletrificação de seus carros? Além de Mustang, E-Transit e Maverick híbrida, o que esperar para os próximos anos?

Martín Galdeano – Além desses três modelos, anunciamos recentemente a Transit City, van de uma tonelada 100% elétrica, e a Ranger plug-in, que chegará no ano que vem. Do portfólio de 20 lançamentos previstos até o final de 2027, uma parte importante será eletrificada para acelerar nosso plano de eletrificação e para adaptar a linha ao que o cliente deseja na maioria dos mercados, inclusive o Brasil. 

THE PRESIDENT _ Como a empresa está se preparando para os novos tempos da mobilidade? Qual será o investimento no Brasil para o desenvolvimento de novas soluções tecnológicas? 

Martín Galdeano – Buscamos oferecer sempre o melhor em produtos e serviços, e grande parte do desenvolvimento das nossas soluções de mobilidade acontece no Brasil. Contamos com um centro de engenharia com mais de 1.500 especialistas na Bahia e, no início do próximo ano, vamos inaugurar um novo prédio para acomodar mais engenheiros. O foco não são apenas os produtos comercializados aqui; 85% do tempo desse time é dedicado ao desenvolvimento de tecnologias, novos produtos e serviços para a Ford no mundo todo.  

THE PRESIDENT _ Recentemente, Ford e Geely selaram acordo para produzir carros na Espanha. Essa decisão terá algum impacto na vinda de veículos para o Brasil? 

Martín Galdeano – A parceria com a Geely é focada na Europa. É uma forma de obter ganhos no processo de investimentos de um produto, então esses acordos continuarão acontecendo. Haverá uma consolidação de parcerias a fim de gerar mais eficiência olhando para o futuro.

THE PRESIDENT _ A operação brasileira foi responsável pela redução global de 40% dos custos de engenharia da empresa. A Ford Brasil é um case de sucesso a ser seguido pelas demais subsidiárias?

Martín Galdeano – Não tenho dúvida de que o trabalho de engenharia e o talento da equipe formam uma combinação de sucesso construída em muitos anos de desenvolvimento de produtos, de serviços e de uma disciplina de custo e eficiência. Esse combo fantástico também envolve as universidades que ajudam a formar profissionais altamente qualificados. Não me surpreende que essa gestão dos custos tenha acontecido aqui e muitas tecnologias globais são feitas no Brasil. Poucos lugares no mundo têm a capacidade de desenvolver um produto da concepção ao projeto final.  É um ativo que precisa ser valorizado. 

THE PRESIDENT _ A rede de concessionários está totalmente integrada aos novos tempos da Ford no país?

Martín Galdeano – A rede é a cara visível da Ford com o consumidor em qualquer mercado. Estamos avançando na expansão e, ao mesmo tempo, na transformação da experiência oferecida. Fechamos 2025 com 145 concessionárias e, em 2026, já concluímos seis das 15 inaugurações previstas, chegando a 151 lojas.

Além de ampliar nossa presença, estamos investindo na modernização da rede e no nível de atendimento. O Signature 2.0, nosso novo padrão global, traz uma experiência mais próxima e fluida, com menos barreiras entre consultores e clientes. A loja física deve ser uma extensão de toda a jornada que começa no ambiente digital.

A expectativa é chegar ao final de 2026 com 30 lojas nesse novo padrão na América do Sul. É um processo contínuo, em que avaliamos onde faz sentido ampliar nossa presença e, principalmente, como podemos oferecer uma experiência cada vez melhor ao cliente.

Na onda do sucesso com Martin Galdeano

THE PRESIDENT _ Como você avalia a ofensiva de marcas chinesas no Brasil? Haverá espaço para todas no mercado e como a Ford deve encarar essa concorrência?

Martín Galdeano – Veja o caso do Chile, que é um mercado sem barreiras de entrada, sem impostos de importação e que é completamente aberto graças a mais de 20 acordos de livre comércio. De 30% a 35% das marcas que atuam naquele país são de origem chinesa, e cerca de 50% dos carros importados chegam da China. Não há razão para ser diferente no Brasil. Hoje, 20% da indústria brasileira são de montadoras chinesas. Nossa posição é que a regra do jogo seja equivalente, seja igual para todos. Com isso, o cliente terá um leque maior de opções, estimulando toda a indústria a melhorar seus produtos. Então, isso é bem-vindo. Mas, repito, temos de garantir que a regra do jogo seja equilibrada.

THE PRESIDENT _ Hoje o jogo está desigual? 

Martín Galdeano – Prefiro dizer que temos muitas oportunidades pela frente. 

THE PRESIDENT _ Como está o mercado brasileiro para a Ford no contexto da América do Sul?

Martín Galdeano – De longe, é o mercado com mais oportunidades para a Ford na América do Sul. A região está projetando vender 4,8 milhões de veículos em 2026 e o Brasil responde por aproximadamente 3 milhões desse volume. A Ford, especificamente, fechou os primeiros seis meses com 27 mil carros vendidos, o equivalente a 20% de crescimento. 

THE PRESIDENT _ Nos últimos cinco anos, desde o reposicionamento da Ford, muita coisa mudou na indústria automotiva mundial. Na sua visão, quais serão as próximas tendências tecnológicas e como a Ford se posiciona neste cenário?

Martín Galdeano – O futuro é o que está acontecendo agora e ainda haverá muito investimento em tecnologia e conectividade. Quando falo em conectividade, não estou me referindo apenas ao fato de o consumidor conectar seu smartphone ao carro, mas sim os automóveis gerando informações para que a marca aprimore seu atendimento. Vejo que o Brasil está progredindo na tecnologia híbrido-etanol como receita para descarbonização e eletrificação em geral. A condução autônoma também será difundida para os mercados. Recentemente, em uma de minhas viagens para a China, um carro me levou para um trajeto de cerca de 20 minutos e nesse tempo o motorista tocou duas vezes no volante. As marcas intensificarão a busca pela eficiência, mandamento obrigatório para disputar um mercado que é cada vez mais competitivo.

THE PRESIDENT _ Você acha que o carro 100% autônomo está prestes a acontecer de fato? 

Martín Galdeano – Sim, lógico. Não há motivo para isso não acontecer. Sempre digo aos nossos engenheiros que se você conseguir testar um carro autônomo na América do Sul, ainda mais no Brasil ou na Argentina, ele funcionará em qualquer lugar do mundo. 

THE PRESIDENT _ Que balanço você faz da Ford Pro, que combina veículos comerciais, conectividade e serviços digitais no mesmo ecossistema? 

Martín Galdeano – A Ford Pro é um dos pilares estratégicos da nossa operação na América Latina, com uma proposta de valor baseada em conectividade, serviços e soluções que ajudam a aumentar a produtividade dos clientes comerciais. No primeiro semestre, a divisão respondeu por cerca de 20% das vendas da Ford na região e por mais de 13% no Brasil. Seguimos ampliando esse ecossistema. Em março, lançamos a Ranger XL e, em julho, alcançamos o recorde de participação no segmento de picapes de entrada no Brasil, com 17,7%. Ainda este ano, lançaremos a Transit City e, recentemente, apresentamos o novo serviço de concierge, que se soma ao suporte especializado de engenharia da Ford Pro e a uma rede de 40 modificadores certificados na região. Estamos contentes com o sucesso da plataforma e reconhecemos que existem muitas oportunidades de evolução para seguir conquistando clientes de veículos comerciais.

THE PRESIDENT _ Entre tantas tecnologias, a inteligência artificial estará cada vez mais forte e presente na indústria automotiva? 

Martín Galdeano – Estamos usando a IA em processos produtivos e no relacionamento com os clientes. Ela está sendo um fator de transição de uma companhia industrial para uma de tecnologia, principalmente na forma como nos relacionamos com os clientes.

O veículo conectado é a base dessa transformação. Hoje, ele é uma plataforma que evolui continuamente por meio de atualizações over-the-air, do App Ford e do FORDi, nosso assistente virtual. A partir dos dados gerados pelo uso real do veículo, como informações sobre saúde do motor, nível de combustível, modo de condução e vida útil do óleo, conseguimos entender melhor o contexto de cada cliente.

Com a IA, avançamos da segmentação tradicional para uma relação mais personalizada e proativa, antecipando necessidades e oferecendo o suporte certo no momento certo. O desafio é fazer isso com transparência e critério, para que a tecnologia realmente gere valor para o cliente e para o negócio.

THE PRESIDENT _ A Ford está conseguindo passar uma imagem mais jovial, esportiva e aventureira ao consumidor com o trabalho dos embaixadores da marca?

Martín Galdeano – Nós oferecemos um portfólio divertido, fun to drive, que a pessoa sinta o prazer de dirigir. Nossos carros têm atraído um público que aprecia esportes, adrenalina e novos desafios. É o que queremos como premissas da marca e o que nossos embaixadores transmitem.  

@ford @fordbrasil