“A boa comida ultrapassa fronteiras, idiomas e culturas”: conheça o Mama Leila

Gourmet

26/08/2026

“A boa comida ultrapassa fronteiras, idiomas e culturas”: conheça o Mama Leila

Da Guerra Civil Libanesa ao falafel, a família conta os recomeços que levaram a cozinha árabe do Líbano ao restaurante em São Paulo

Por Redação

A história do Mama Leila começou muito antes de São Paulo. O restaurante que leva o nome da matriarca nasceu de uma família que deixou o Líbano durante a Guerra Civil Libanesa (1975–1990) e precisou começar do zero. No Brasil, veio a tentativa de construir uma nova vida, mas as dificuldades com a documentação levaram a outro recomeço, desta vez no Paraguai, onde nasceu o El Cedro, em Assunção, capital paraguaia. Só depois veio a volta ao Brasil e a abertura do Mama Leila. “Precisamos nos reinventar e ter coragem, disposição, garra e resiliência para recomeçar”, diz o chef e um dos proprietários, Salim Mattar, que relembra, nesta conversa, a chegada do falafel ao paladar paulistano e o episódio que envolveu Michael Jackson.

THE PRESIDENT: A história do Mama Leila começa antes do restaurante, com Leila e Ibrahim. O que a família precisou deixar para trás?

Salim Matar: Basicamente, uma vida inteira, pois a nossa migração foi causada pela Guerra Civil Libanesa, que nos forçou a deixar o país, praticamente abandonando tudo para começar do zero. Por exemplo, meu pai deixou uma carreira de 33 anos em um emprego fixo, deixamos empregos, estudos, parentes, amigos e a nossa casa.

TP: O que a sua mãe e o seu pai ensinaram sobre trabalho, cozinha e empreendedorismo?

SM: Ensinaram que precisamos nos reinventar e ter coragem, disposição, garra e resiliência para recomeçar.

TP: Em uma época em que a culinária árabe ainda era pouco conhecida no Brasil, qual foi o maior desafio de apresentar esses sabores ao público paulistano?

SM: Nosso grande desafio foi apresentar ao público paulistano pratos que, até então, eram praticamente desconhecidos. E acredito que esse tenha sido um dos principais motivos do sucesso do Mama Leila. Nós ampliamos esse repertório e mostramos a riqueza da culinária árabe, trazendo pratos como o falafel, fattoush, salada de chanklish, a couve-flor com tahine, entre muitos outros. As pessoas passaram a descobrir que a gastronomia árabe vai muito além da esfiha e do kibe.

TP: O restaurante nasceu de uma paixão familiar. Em algum momento essa paixão precisou enfrentar o peso de virar um negócio?

SM: A paixão pela culinária sempre foi algo muito presente na minha mãe. O desafio foi transformar esse talento e essa paixão em um negócio profissional. No nosso caso, empreender não foi uma escolha simples. Como ainda enfrentávamos dificuldades para obter a documentação brasileira, não podíamos abrir um restaurante legalmente no Brasil. Isso nos obrigou a buscar uma alternativa, e encontramos no Paraguai a oportunidade de começar. Foi lá que nasceu o primeiro restaurante da família, o El Cedro, em Assunção, onde funcionou por sete anos.

Além dos desafios de abrir um negócio em outro país, ainda enfrentávamos a barreira da comunicação. O inglês era a nossa segunda língua e era por meio dele que tentávamos nos comunicar. Mas, nos anos 80, era muito raro encontrar pessoas que falassem inglês, tanto no Brasil quanto no Paraguai, o que tornava tudo ainda mais difícil. Vale lembrar que, naquela época, nossa vida já estava sendo construída no Brasil. Assim que chegamos, compramos uma casa e começamos a criar uma estabilidade. Mesmo assim, tivemos que deixar essa segurança para recomeçar mais uma vez em outro país, sem estrutura e com muitas incertezas, porque nossa situação documental no Brasil ainda não permitia abrir um negócio legalmente. Somente depois de conquistarmos a documentação brasileira foi possível trazer esse sonho para o Brasil e fundar o Mama Leila.

TP: Quais foram os momentos de maior incerteza na história do Mama Leila e como a família atravessou esses períodos?

SM: A maior incerteza que enfrentamos aconteceu quando voltamos do Paraguai para o Brasil. Naquele momento, finalmente havíamos conseguido a documentação brasileira e, por isso, decidimos retornar para abrir o restaurante. Porém, essa documentação ainda era provisória. Pouco tempo depois, perdemos alguns processos e voltamos a ficar com a documentação irregular. Foi um período muito difícil, porque já estávamos com o negócio funcionando no Brasil, mas convivíamos diariamente com a incerteza sobre a nossa situação. Essa instabilidade durou vários anos, até que finalmente conseguimos regularizar toda a documentação. Foi um momento ainda mais difícil do que a pandemia. Durante a pandemia, todos estavam enfrentando a mesma crise. Naquela época, porém, era um problema exclusivamente nosso, e convivíamos diariamente com a insegurança de não saber como seria o futuro da nossa família e do nosso negócio.

TP: Existe uma receita, um prato ou um ritual da cozinha que represente melhor a história da família?

SM: Sem dúvida, o nosso falafel. Apesar de ser uma receita tradicional da culinária árabe, na época ela era praticamente inédita em São Paulo. O sanduíche de falafel se tornou um verdadeiro sucesso e acabou impulsionando o crescimento do Mama Leila. Na época, a revista Veja publicou uma matéria de página inteira sobre o falafel do Mama Leila, o que deu uma visibilidade enorme ao restaurante e marcou o início dessa expansão. Fomos um dos grandes responsáveis por apresentar o falafel ao público paulistano e mostrar todo o potencial desse prato. Hoje, ele é uma verdadeira febre e faz parte do cardápio de inúmeros restaurantes, além de ser um dos alimentos preferidos de muitas pessoas vegetarianas e veganas. Ver essa trajetória é motivo de muito orgulho para a nossa família.

TP: A passagem de gerações trouxe novos caminhos, mas também o desafio de preservar a essência da Mama Leila. Como equilibrar tradição e mudança?

SM: Os conflitos entre gerações realmente existem, mas acredito que, para uma empresa ter sucesso, é preciso encontrar um equilíbrio. A geração mais antiga precisa estar aberta às ideias da nova geração, enquanto a nova geração precisa respeitar a experiência e o conhecimento de quem construiu a empresa. Um dos pilares do Mama Leila sempre foi preservar a autenticidade da culinária árabe. Ao mesmo tempo, buscamos inovar sem perder essa essência. Um exemplo é o chocolate de Dubai. Apesar de ser uma criação recente que viralizou no mundo todo, desenvolvemos a nossa própria versão com o padrão de qualidade do Mama Leila. Mas isso não significa abandonar as nossas origens. Hoje continuamos oferecendo mais de oito tipos de doces 100% tradicionais da culinária árabe, preservando receitas que fazem parte da história da nossa família. Também implementamos o serviço de delivery, que antes não existia, e modernizamos a operação com sistemas de tecnologia que tornaram nossos processos mais eficientes. Acredito que essa combinação de tradição e inovação é um dos motivos pelos quais o Mama Leila continua relevante até hoje, respeitando sua história e, ao mesmo tempo, acompanhando as mudanças do mercado e dos consumidores.

TP: A história de Marlene cozinhando para Michael Jackson chama atenção. O que esse episódio revela sobre a força da comida como forma de conexão entre culturas?

SM: Esse episódio mostra, antes de tudo, a força da culinária árabe e mediterrânea como uma gastronomia de aceitação mundial. A boa comida ultrapassa fronteiras, idiomas e culturas. Ela aproxima as pessoas e cria conexões, independentemente de onde elas venham. Mas também revela outro ponto muito importante: o mérito de quem cozinha. Quando um prato é preparado com amor, paixão, qualidade, fidelidade às suas origens e convicção, ele tem potencial para conquistar qualquer público, em qualquer lugar do mundo. Acho que essa é uma das maiores lições dessa história.

TP: Depois de mais de 30 anos, o Mama Leila se tornou uma referência da culinária árabe em São Paulo. Em que momento vocês perceberam que tinham criado algo maior do que um restaurante?

SM: Acho que percebemos que tínhamos criado algo maior do que um restaurante quando passamos a ver três gerações fazendo parte da nossa história: três gerações de clientes, três gerações de funcionários e três gerações da própria família à frente do Mama Leila. Também nos marcou muito o vínculo afetivo que as pessoas criaram com a nossa comida. Muitos clientes dizem que os nossos pratos lembram a comida das avós, e isso mostra que a gastronomia também preserva memórias. Outro reconhecimento importante vem de quem viaja para países como Líbano, Israel e Marrocos e, quando volta, nos diz que a comida do Mama Leila é tão boa quanto, ou até melhor, do que a que experimentou lá. Para nós, isso tem um peso enorme. Mas talvez o maior sinal seja a diversidade do nosso público. Não existe um perfil de cliente no Mama Leila. Recebemos pessoas de diferentes idades, nacionalidades, etnias, tribos e estilos de vida. Quando um restaurante consegue reunir públicos tão diversos em torno da mesma mesa, entendemos que construímos algo que vai muito além de servir comida.

TP: Qual é a maior herança deixada por Leila e Ibrahim: as receitas, o restaurante ou os valores por trás dele?

SM: Os valores por trás dele. As receitas são importantes porque carregam a nossa história e a nossa cultura, mas um restaurante não se mantém por décadas apenas pela comida. Quando começamos, existiam poucos restaurantes árabes de verdade em São Paulo. Hoje, a culinária árabe se expandiu muito, mas muitos restaurantes bons surgiram e fecharam ao longo desses anos. O que mantém uma empresa de pé são os valores: resiliência, dedicação, amor pelo que fazemos e compromisso com a qualidade. Foi isso que permitiu ao Mama Leila construir diferenciais como o nosso buffet com mais de 30 pratos. Quem já conhece a culinária árabe encontra seus pratos favoritos preparados com qualidade e fidelidade, e quem ainda não conhece tem a oportunidade de experimentar um pouco de tudo e descobrir a riqueza dessa gastronomia.

Mama Leila

Rua João Moura, 1167, Pinheiros, São Paulo