Um lugar para descobrir: Ñuble, Chile

Turismo

09/08/2026

Um lugar para descobrir: Ñuble, Chile

Entre vulcões, trilhas, vinhedos centenários e tradições, Ñuble, no Chile, ainda é pouco explorada, mas revela experiências únicas para viajantes 

Por Julia Paiva, de Ñuble

Poucos países concentram tantos contrastes em um único território quanto o Chile. Com uma distância que supera o diâmetro da Lua, sendo mais de 4,3 mil quilômetros de extensão, o país reúne alguns dos cenários mais extremos do planeta ao longo de suas 16 regiões bem divididas: do deserto mais árido do mundo às geleiras da Patagônia, passando por vulcões, lagos, cordilheiras e uma extensa faixa banhada pelo Oceano Pacífico. Em meio a tanta diversidade, há uma região no centro-sul do país que ainda permanece longe dos holofotes, mas é ideal para viajantes que desejam viver experiências autênticas e que estão sempre em busca do novo. 

Criada oficialmente em 2018, após se desmembrar de Biobío, a região de Ñuble, com pouco menos de meio milhão de habitantes e localizada a 400 quilômetros ao sul de Santiago, é a menos explorada do país. Com vocação agrícola, sua economia é baseada na produção de frutas, vinhos e cereais e por mais que ainda não seja tão conhecida, oferece algo cada vez mais difícil de encontrar: a sensação genuína de descoberta. 

Nos últimos anos, há uma grande movimentação estratégica para tornar a região mais conhecida. Para Diego Crisóstomo Mercado, diretor do Sernatur Ñuble, a participação ativa em feiras, bem como ações estratégicas de promoção internacional faz parte desse movimento. Diz ele: “Estamos trabalhando para posicionar Ñuble internacionalmente como um destino completo, com uma oferta que combina natureza, neve, termas, enoturismo, gastronomia e experiências durante todo o ano. O Brasil é um mercado prioritário para o Chile”.

A viagem começa na histórica Estación Central, em Santiago, rumo a Chillán, capital de Ñuble. É a melhor forma de chegar ao destino: a bordo do trem mais moderno e rápido da América do Sul, capaz de atingir até 160 km/h. Operado pela EFE Central, o percurso de 4 horas transforma o deslocamento em atração da viagem, enquanto a paisagem chilena se transforma pela janela.

Com capacidade para 236 passageiros, o trem oferece poltronas reclináveis equipadas com tomadas e entradas USB, mesas individuais, janelas panorâmicas e um vagão-café com menu de iguarias e bebidas. O resultado é uma experiência confortável e eficiente.

Natureza abundante 

Um lugar para descobrir: Ñuble, Chile
Trilha Shangri-la – Foto: Arquivo pessoal Julia Paiva.

A cerca de uma hora de Chillán, Las Trancas concentra algumas das experiências mais procuradas pelos visitantes. Entre antigos fluxos de lava, águas termais e trilhas de montanha, o destino se consolidou como uma das principais portas de entrada para os Nevados de Chillán. Se durante o inverno o complexo recebe esquiadores atraídos pela pista de esqui mais longa da América Latina, nos meses com as temperaturas mais amenas as caminhadas, o mountain bike e as atividades ao ar livre ocupam a agenda. Na gastronomia, os restaurantes da região apostam em ambientes acolhedores e de atmosfera rústica, valorizando ingredientes locais, carnes nobres e, naturalmente, o pisco e vinhos chilenos.

Entre as experiências gastronômicas, a Cava de la Montaña se destaca pelas degustações guiadas que apresentam alguns dos principais rótulos de vinho do país. Já o Steak House aposta em um menu onde as carnes nobres de caça — como de cervo, javali e cordeiro — são protagonistas, enquanto o Chil’in foca na cozinha francesa contemporânea: a massa fresca preparada com tinta de lula, acompanhada de camarões, mariscos e cogumelos da região é uma excelente pedida.

Outra experiência que merece entrar no roteiro é o café da manhã na Don Quelo, cafeteria que tem como protagonista a avelã chilena, ingrediente presente em diferentes preparações do cardápio, dos molhos das pizzas leves às sobremesas e, principalmente, na bebida que mais desperta a curiosidade dos visitantes. No lugar dos tradicionais grãos de café, a casa utiliza a avelã chilena em todo o processo, da colheita ao processamento, resultando em uma bebida semelhante ao café tradicional, mas com notas mais suaves e um toque aveludado ao final.

Para Alejandra Oyarce, proprietária da Don Quelo, a proposta sempre foi criar um empreendimento capaz de valorizar um dos produtos mais tradicionais da região. “A avelã é um produto muito importante para nós”, diz. “É uma espécie nativa e todo o processo, desde a colheita até a produção, é feito aqui.”

Em Chillán, o Vita Wines amplia essa proposta ao unir gastronomia e enologia em um ambiente sofisticado, onde cada etapa da experiência é pensada para valorizar os sabores de Ñuble. A refeição começa com uma degustação de quatro tempos, servida em pequenas colheres, seguida pela tradicional plateada, carne bovina assada, preparada lentamente no vinho tinto e acompanhada por um cremoso de mote, um clássico da culinária chilena. As harmonizações privilegiam rótulos do Vale do Itata, como o Männle Incógnito Field Blend 2022, além de vinhos elaborados com uvas patrimoniais, como País e Carignan. 

Heranças de um Chile ancestral 

É em Quinchamalí, pequena localidade rural nos arredores de Chillán, que a identidade ancestral entra em cena. Uma das experiências mais autênticas da viagem se baseia em conhecer de perto a produção da cerâmica negra. A técnica foi transmitida de geração em geração, preservada pela comunidade e se tornou um dos maiores símbolos da identidade chilena, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO em 2022.

Moldadas e decoradas por artesãs locais, as peças chamam atenção pelo contraste entre o barro escuro e os delicados desenhos esbranquiçados gravados na superfície. A visita aos ateliês permite acompanhar, participar do processo e conhecer as histórias por trás de cada peça. 

“São técnicas ancestrais”, resume Marcela Rodríguez, presidente do Comité de Alfareras de Quinchamalí. “A maioria de nossas oleiras é formada por filhas, netas e bisnetas de artesãs, e tudo o que produzimos segue o mesmo processo de até 400 anos atrás.”

No caminho, é inevitável não parar no Sabores del Prado, um dos restaurantes mais antigos e tradicionais da região. O pisco chileno com framboesa, outra fruta abundante da região, dá as boas-vindas para uma experiência voltada para a culinária campesina chilena, valorizando ingredientes locais e receitas passadas entre gerações — como o avocado recheado com camarões. 

O berço vivo da viticultura 

Um lugar para descobrir: Ñuble, Chile
Foto: Sernatur

Enquanto algumas das mais conhecidas regiões vinícolas chilenas cresceram em escala e ganharam projeção internacional por meio de grandes grupos produtores, o Vale do Itata preservou uma característica rara: a predominância de pequenos negócios familiares.

O Viejo Amor é um exemplo disso. Referência quando o assunto é a castanha chilena e perfeito para tomar um ótimo café da manhã, o empreendimento reforça a ligação entre produção artesanal e cotidiano. É a partir dessa base de pequenos produtores e negócios familiares que se chega ao universo dos vinhos no Vale do Itata.

Ali estão algumas das videiras mais antigas das Américas, além das primeiras cepas europeias que chegaram ao país ainda no século 16.  Na Alma del Itata, os visitantes conhecem cepas ligadas às primeiras safras registradas no Chile, ainda em 1556. Já a Destilaria Jelinek mantém viva a herança da República Tcheca por meio da produção artesanal de destilados à base de frutas, principalmente a pera.

Em Quillón, histórias familiares também dão vida a empreendimentos como a Lomas de Quillón, fundada do zero há mais de 40 anos por Pilar Villalobos e seu marido, e o tradicional Don Ginito, comandado por José Escobar, reunindo, em um mesmo espaço, um dos restaurantes campesinos e fábrica de destilados mais famosos da região. 

“Meu marido trabalhava comprando e vendendo uvas para mercados da região”, relembra Pilar. “Era um trabalho muito desgastante, feito noite após noite. Pensei que poderíamos produzir nosso próprio vinho para vender e, assim, permitir que ele deixasse esse trabalho. Quando passamos a integrar o circuito turístico, muitos visitantes perguntavam sobre licores. Foi então que comecei a estudar e pesquisar sobre o assunto até aprender a produzi-los. Hoje, temos cerca de 70 produtos feitos aqui, todos sem adição de aditivos.”

Já o protagonismo feminino ganha destaque na Viña Mujeres, onde todas as etapas da produção são conduzidas por mulheres. Com variedades que fogem do convencional e uma experiência que combina vinho, gastronomia e momentos de meditação, a vinícola oferece uma nova perspectiva sobre o enoturismo chileno. 

Ao mesmo tempo, Quillón demonstra que tradição e inovação podem sim caminhar juntas. A cidade abriga um moderno centro esportivo voltado à formação de jovens atletas. Uma curiosidade extra é a Puente Viejo. Construído entre 1914 e 1916 para integrar a antiga linha férrea entre Chillán e Tomé, o viaduto tem cerca de 900 metros de extensão e foi erguido com vigas e pilares metálicos, além de um tabuleiro de madeira de roble pellín. Desativado desde a década de 1980, foi declarado Monumento Histórico Nacional do Chile em 1993 e, hoje, permanece como um dos melhores pontos para contemplar o pôr do sol sobre o rio Itata.

De volta a Santiago

De volta a Santiago, vale reservar uma última experiência para descobrir o Chile pelo paladar. Instalado em uma casa original de 1958, que preserva boa parte de suas características arquitetônicas, o Pulpería Santa Elvira oferece uma das experiências gastronômicas mais interessantes da capital, com pratos que são obras de arte. O restaurante ocupa a 63a posição na lista do Latin America’s 50th Best Restaurants e é um dos grandes destaques da América Latina.

Restaurante Pulpería Santa Elvira – Foto: Arquivo pessoal Julia Paiva

A experiência começou com uma entrada de Conchas e Pieles de Pescados, que explora diferentes texturas do mar na preparação, valorizando tanto a delicadeza das conchas quanto o aproveitamento integral das peles de peixe. Como prato principal, o Changle – Alitas de Pollo, combina a suculência do frango com cogumelos e é finalizado com uma gema mole por cima, que se integra ao prato no momento em que é rompida. 

Para quem deseja experimentar um recorte amplo da cozinha local, o menu degustação harmonizado de nove tempos é uma das principais escolhas. A sequência reúne preparos que exploram ingredientes do litoral, do deserto e dos Andes. Vale lembrar que os frutos do mar do Chile, como o loco, o picoroco e o piure, são absolutamente únicos. Uma despedida à altura de uma viagem que tem como objetivo apresentar um Chile autêntico, fugindo dos roteiros tradicionais.

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