Felipe Barros aposta em produtora autoral para unir teatro, audiovisual e gestão cultural
Entrevista
28/07/2026
Criada pelo ator, produtor e roteirista, a Malisgüe Produções desenvolve projetos voltados a temas como saúde mental, diversidade e relações humanas, com foco na sustentabilidade do negócio cultural
Por Redação
No teatro e no audiovisual, Felipe Barros decidiu transformar sua experiência em um novo projeto: a Malisgüe Produções. Criada para desenvolver obras autorais e estruturar uma atuação de longo prazo no mercado cultural, a produtora reúne projetos voltados a temas como saúde mental, diversidade e relações humanas, ao mesmo tempo em que busca fortalecer a gestão e a sustentabilidade dos negócios criativos. Em entrevista à THE PRESIDENT, Felipe afirma que o principal obstáculo do setor ainda está na forma como os projetos são conduzidos. “O maior desafio é mudar a mentalidade. Parar de enxergar cada espetáculo como um evento isolado e começar a enxergar cada projeto como parte de uma estratégia maior”, reflete.
THE PRESIDENT_ O que motivou a criação da Malisgüe Produções?
A Malisgüe nasceu da necessidade de reinventar e transformar a minha trajetória artística em um projeto de longo prazo. Depois de mais de vinte anos trabalhando como ator, passando por diferentes funções dentro do teatro e do audiovisual, por tantos altos e baixos, percebi que não queria apenas atuar em histórias. Eu queria criar as condições para que elas existissem.
O nome Malisgüe vem de uma canção que cantávamos antes de entrar em cena. Era um ritual de movimento, presença e conexão. E esse conceito continua sendo o coração da empresa: acreditar que todos os movimentos da nossa vida nos conduzem a algum lugar.
A produtora nasceu para contar histórias que dialogam com o nosso tempo, especialmente sobre afeto, diversidade, saúde mental, relações humanas e novas formas de enxergar o mundo. Mas nasceu também para mostrar que arte e gestão podem caminhar juntas. O artista precisa conhecer o palco, mas também o orçamento, a estratégia, a comunicação e os mecanismos que sustentam a criação.
TP: Quais números melhor definem a empresa hoje?
É muito difícil conseguir mensurar o valor artístico de uma obra. De um artista. Investi minhas economias de anos para estruturar a produtora e desenvolver nossos projetos. Mais do que faturamento, alguns números contam melhor quem somos e onde queremos chegar.
São mais de 20 anos da minha trajetória artística que deram origem à produtora. Temos dois espetáculos produzidos e circulando profissionalmente. Indicação ao Prêmio Arcanjo de Cultura com Esse Maldito Fecho-Éclair. Prêmio Coelho de Prata com Aqui. Agora. Todo Mundo, no Festival Mix Brasil. Mais de 8000 espectadores que já assistiram nossos espetáculos. Curta rodando Festivais de Cinema. Centenas de horas investidas em desenvolvimento artístico, produção, gestão e formação de público. E temos muito pela frente. O sucesso é sobre continuidade de trabalho.
Mas se for para definir um número que me orgulho muito é 100%. 100% dos projetos da Malisgüe nasceram de uma inquietação artística verdadeira antes de se tornarem um produto cultural.
TP: Qual foi o maior desafio para transformar uma produtora autoral em um negócio sustentável?
Entender que paixão não substitui planejamento. Durante muito tempo, nós, artistas, fomos ensinados a falar apenas sobre inspiração. Pouco se fala sobre fluxo de caixa, captação, contratos, marketing, relacionamento institucional e construção de marca. O maior desafio é mudar a mentalidade. Parar de enxergar cada espetáculo como um evento isolado e começar a enxergar cada projeto como parte de uma estratégia maior. Sustentabilidade não significa abrir mão da identidade artística. Significa criar uma estrutura capaz de proteger essa identidade para que ela continue existindo daqui a dez ou vinte anos.
TP: Qual projeto trouxe o melhor resultado até agora?
Sem dúvida, o meu solo teatral Aqui. Agora. Todo Mundo!.
Não apenas pelos prêmios, pela repercussão ou pela ocupação de público, mas porque ele representa exatamente o que a Malisgüe acredita. Ele ainda reverbera resultados. E está só começando a sua jornada.
É um espetáculo que fala sobre saúde mental, solidão, depressão e pertencimento dentro da comunidade LGBTQIAPN+, transformando temas difíceis em encontro e diálogo.
Foi o projeto que consolidou nossa identidade artística, ampliou nossa visibilidade, abriu portas e mostrou que existe público para obras que unem relevância social, qualidade artística e impacto humano.
É um projeto para o qual trabalho para ter vida longa. Dialogar com públicos diversos, ampliar debates importantes. Unir Teatro, Saúde e Educação.
TP: Onde você quer chegar nos próximos cinco anos?
Quero que a Malisgüe seja reconhecida como uma produtora relevante de teatro e audiovisual no Brasil, desenvolvendo obras autorais, formando público e criando oportunidades para outros artistas.
Tenho o sonho de construir uma sede própria também. Um espaço vivo que reúna café, livraria, coworking criativo, sala de ensaio e um pequeno teatro. Um lugar onde artistas, produtores, estudantes e espectadores possam se encontrar. Algum investidor por aí?
Também quero ampliar nossa atuação para o cinema e para conteúdos digitais, criando propriedades intelectuais próprias que possam circular em diferentes plataformas.
Mas, acima de tudo, quero que a Malisgüe seja lembrada por algo simples: contar histórias capazes de fazer as pessoas saírem diferentes de como entraram.
TP: Agora, três lições para quem quer começar a empreender:
- Criatividade é fundamental, mas organização, planejamento e disciplina são o que permitem que ela sobreviva.
- Seja curioso. Aprenda todas as etapas do processo. Quanto mais você conhece o mecanismo, mais liberdade você ganha para criar.
- Construa sua rede. Comunidade, relações verdadeiras e afinidades artísticas são fundamentais para uma base sólida.