Joia do Marrocos
Turismo
06/07/2026
Bons momentos em Marrakesh. Visitamos o hotel-palácio La Mamounia, um dos mais celebrados do mundo, e os jardins da casa de Yves Saint Laurent, agora abertos ao público
Por Silviane Neno
Há 60 anos, em fevereiro de 1966, o estilista Yves Saint Laurent e o sócio e companheiro Pierre Bergé chegaram a Marrakech, no Marrocos, pela primeira vez. A dupla se hospedou no La Mamounia, na época um hotel de luxo já conhecido como o preferido de Winston Churchill desde os idos da Segunda Guerra Mundial. A chuva não deu trégua durante os primeiros dias da estadia, até aquela manhã em que a paisagem se transformou diante da varanda da suíte, descortinando o Atlas, a belíssima cordilheira do norte da África. Bergé relataria, em livro autobiográfico: “Certa manhã, acordamos e o sol havia aparecido. Um sol marroquino que sonda cada recanto e canto. Os pássaros cantavam, as montanhas nevadas bloqueavam o horizonte e o perfume do jasmim invadia nosso quarto. Jamais esqueceríamos aquela manhã, pois, de certa forma, ela selou nosso destino”.

Desde aquela aparição, a conexão com o lugar ficou cada vez mais íntima. Marrakesh e o La Mamounia, passaram a ser a segunda residência do casal, um respiro para o frenesi de Paris.
A história do hotel remonta ao século 18, quando o sultão Sidi Mohammed Ben Abdallah ofereceu ao filho, Moulay al-Mamoun, um jardim exuberante com oliveiras, laranjeiras e palmeiras. Mais de um século depois, em 1923, o governo pediu que fosse erguida ali uma hospedagem suntuosa para receber chefes de estado, artistas e a fina flor dos famosos.
Quando Saint Laurent caiu de encantos pelo La Mamounia e por Marrakesh, era o auge dos anos 1960 e a cidade deixava de ser um destino pacato para se tornar um dos lugares preferidos de uma determinada turma do jet set internacional. O ponto de encontro mais fervido era a casa de Paul e Talitha Getty, um dos primeiros casais a trocar o lugar onde viviam, Londres, pela luz marroquina. Saint Laurent e Bergé, claro, entraram para a turma, ao lado de personagens como Loulou de La Falaise, Andy Warhol e Mick Jagger, que também costumava se hospedar no La Mamounia.
Marrakesh fez o estilista nascido na Argélia enxergar as cores de forma diferente e impactou seu trabalho de forma definitiva. Não demorou para que as festas mais loucas da cidade mudassem de endereço para a famosa Villa Oásis, junto ao Jardim Majorelle, como foi chamada a residência de Yves Saint Laurent, adquirida nos anos 1980. E, só por ter uma casa para chamar de sua, ele deixou de se hospedar no La Mamounia, mas não de frequentar o hotel.
Cem anos depois, a modernidade
Quando completou 100 anos, em 2023, o La Mamounia já acumulava prêmios, entre eles o de Melhor Hotel da África e o sexto Melhor Hotel do Mundo, de acordo com o ranking The World’s 50 Best Hotels. Há mesmo uma espécie de transe quando se cruza a porta principal que dá acesso ao lobby, de onde já se enxerga a suntuosidade do hotel-palácio e se sente no ar o perfume exótico e amadeirado. O aroma, inesquecível, aliás, está à venda na boutique do hotel.

Ao centro do gigantesco lobby, um lustre centenário, conhecido como “Joia da Grande Dama”, como dois colares suspensos no espaço, faz uma alusão a um adorno berbere de forma ampliada. A escultura, criação dos arquitetos Patrick Joiun e Sanjit Manku, dupla de designers que executou a última revitalização de alguns ambientes do hotel para as comemorações do centenário, já virou símbolo do lugar. Assim que pus os pés naquele cenário idílico, enviei uma foto de parte do salão a um amigo, embaixador do Marrocos em Lisboa, com a provocação “adivinhe onde estou?”, ao que ele, de bate-pronto, respondeu:
“No La Mamounia”.
O check-in acontece em um dos confortáveis lounges com sofás de veludo vermelho, enquanto a simpática funcionária serve um par de suculentas tâmaras, acompanhadas de uma bebida de boas-vindas, o tradicional chá de menta. Da suíte executiva, com duas confortáveis salas de banho e iluminação perfeita, ou seja, quase nenhuma, apenas a necessária para a contemplação do mobiliário e a do espelho, acionada no momento da maquiagem, tudo beira a perfeição. Da sacada se assiste ao movimento da piscina, onde quase tudo acontece.



Sim, o La Mamounia é um lugar para ver e ser visto, para socializar, ou não, se preferir o recolhimento. Mas é quase impossível não querer explorar a magnífica gastronomia dos quatro restaurantes — o Le Marocain e seus sabores tradicionais é um acontecimento; O L’Asiatique conduzido por Jean-Georges; o L’Italien, uma das melhores pastas que já experimentei; e o Le Pavillon de la Piscine. Tome uma saideira em um dos quatro bares (Le Bar Majorelle, Le Club, Le Bar de la Piscine e Le Churchill). O Churchill é destinado a um dedo de prosa no fim da noite com quem estiver ao lado no balcão. O lugar tem um espírito de encontros. Como, aliás, é o jeitão do hotel, replicado pela simpatia da equipe de treinados profissionais, que parece brotar onde menos se espera. “Bonjour, madame!” Bonjour.
São dois funcionários por habitação, em quantidade imensa, quando se fala de 135 quartos e 71 suítes, além de três riads independentes. Nas horas vagas, perca-se nos jardins entre palmeiras e gatos, admirando o vai e vem de uma gente bonita e alegre. O La Mamounia é um hotel de gente feliz.
Agora que os jardins da antiga casa de Yves Saint Laurent foram abertos ao público, o circuito perfeito é se hospedar no La Mamounia, visitar o Jardim Majorelle, seus jardins e museus, e entender por que visitar Marrakesh muda a maneira de enxergar as cores do mundo.