Na rota da inovação
Entrevista
29/06/2026
Cesar Alarcon lidera a estratégia da Pirelli na América Latina no momento de transformação da indústria automotiva, que está cada vez mais eletrificada, conectada e sustentável
Por Mario Ciccone
A marca Pirelli parece onipresente. Está na F1 e em outras categorias do motorsport, em importantes camisas de futebol (Internazionale e Palmeiras, por exemplo) e se destaca em Olimpíadas e torneios do Grand Slam do tênis. Por trás dessa marca tradicional do Made in Italy, está uma companhia de 154 anos – 97 no Brasil – que não é passageira da inovação. É quem conduz.
À frente das operações da Pirelli na América Latina desde 2018, Cesar Alarcon lidera a empresa em uma das fases mais decisivas da indústria automotiva. Argentino, mestre em Finanças pela Universidade Macquarie de Sydney, na Austrália, construiu uma carreira internacional que passou por Austrália, China, Itália e Singapura antes de assumir a cadeira de CEO da região.
Alarcon participou da expansão da Pirelli em diferentes continentes e hoje conduz uma operação que busca fortalecer o posicionamento da marca em produtos de alto valor agregado. É um desafio e tanto. Até porque a indústria automotiva está cada vez mais voltada para eletrificação, sustentabilidade e hiperconectividade dos veículos.
Nesta entrevista, o executivo aborda esse cenário de disrupção e aprofunda os desafios da mobilidade do futuro. Também comenta a relação da marca com o universo do luxo e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento que moldam os próximos passos da companhia.
THE PRESIDENT – A Pirelli se posiciona como uma empresa “high value”. Fale um pouco sobre esse conceito e de que forma a marca vem sendo percebida no mercado
Cesar Alarcon – A Pirelli vem, há alguns anos, liderando uma estratégia muito clara de foco no segmento High Value, que representa produtos de alto conteúdo tecnológico e maior valor agregado. Esse posicionamento está diretamente ligado à transformação da indústria automotiva, que passa pela eletrificação, conectividade e novas demandas de performance.
Esses pneus são desenvolvidos para atender veículos cada vez mais sofisticados, com exigências específicas de segurança, eficiência energética e experiência de condução. Esse movimento também se reflete na forma como a marca é percebida: uma empresa que combina tradição com inovação constante e que se mantém na vanguarda tecnológica, sendo reconhecida por qualidade e liderança no setor.
Vivemos um momento de alta competitividade, que exige posicionamento claro e soluções cada vez mais diferenciadas. Nesse contexto, o foco em produtos de maior valor agregado está ligado à capacidade de entregar tecnologia, performance e inovação de forma consistente, reforçando o papel da Pirelli como referência em segmentos mais avançados do mercado.
Tradicional empresa italiana, a Pirelli também se alia a empresas como Prada e Roger Dubuis. De que forma o DNA da companhia se expressa no mercado de luxo?
A Pirelli nasce em Milão, na Itália, e carrega naturalmente esse DNA ligado a design, estética e sofisticação. No caso da Pirelli, o luxo não está apenas na aparência: ele está na engenharia e no cuidado com o desenvolvimento e a performance do produto.
O conceito de luxo aqui é traduzido em performance, personalização e atenção infinita ao detalhe. É por isso que a empresa está presente nos principais veículos mais sofisticados do mundo, trabalhando em conjunto com montadoras para desenvolver pneus sob medida para cada veículo. Essa capacidade de integrar design e tecnologia é uma das expressões mais claras do “Made in Italy” aplicado à mobilidade.
Nesse contexto, temos o Pirelli Design. Há muito de excelência de Made in Italy, embora a Pirelli tenha parceiros de outros países. De que forma a Pirelli expressa sua paixão e herança nesses projetos?
A Pirelli Design reflete a forma como a marca desenvolve projetos baseados em visão, herança e paixão, ampliando sua atuação para além do produto. Ela segue redefinindo o conceito de excelência em áreas de alto padrão através de licenciamento, colaborações e projetos ligados ao universo tecnológico e lifestyle. Cada iniciativa é cuidadosamente selecionada, guiada por uma estratégia clara e por um compromisso consistente com qualidade, inovação e vanguarda.
De embarcações de alto desempenho a peças de relojoaria, passando por coleções exclusivas e colaborações criativas, cada projeto reflete essa capacidade de olhar para o futuro sem perder a conexão com a própria história. Porque, no fim, a inovação é fundamental, mas é a paixão que dá sentido a tudo e que move a marca.
Mais do que uma companhia que atende o mercado consumidor, a Pirelli apresenta produtos de alto desempenho e maior valor agregado (nisso incluímos motorsport em geral e a F1). Fale um pouco desse desenvolvimento e o quanto o topo da pirâmide ajuda ao mercado em geral.
A atuação no Motorsport é um dos pilares do desenvolvimento tecnológico da Pirelli. Esse ambiente extremo funciona como laboratório a céu aberto. Tudo acontece no limite: velocidade, temperatura, performance. E é justamente nesse contexto que novas soluções são testadas e depois transferidas para o dia a dia do consumidor.
Existe um fluxo direto entre pista e rua. O topo da pirâmide acelera inovação, reduz tempo de desenvolvimento e eleva o padrão de qualidade de todo o portfólio.
A Pirelli tem uma longa tradição de apoio ao esporte. Foi a principal parceira durante muito tempo da Internazionale de Milão. Hoje, além da F1, tem a sua marca no Luna Rossa Prada Pirelli Team (America’s Cup), Miami Open e Australian Open (tênis) e nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026. Qual o ganho de branding para a companhia? Isso melhora a percepção entre as novas gerações?
A relação da Pirelli com o esporte é histórica e faz parte da construção da marca em nível global. Mais do que visibilidade, trata-se de um território estratégico onde atributos como o desejo pelo desafio, paixão pela competitividade e alta performance são vivenciados de forma única e concreta.
A presença em esportes náuticos com o Luna Rossa Team, além de eventos como o Miami Open, o Australian Open e os Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026, amplia o alcance da marca para além do automobilismo e reforça sua associação com excelência em diferentes contextos de alta performance.
Essas iniciativas ajudam a posicionar a Pirelli dentro de um universo aspiracional, conectado ao lifestyle, ao design e à inovação, algo que dialoga diretamente com novas gerações de consumidores, que buscam marcas com propósito, consistência e relevância cultural.
Ao mesmo tempo, há um alinhamento claro com o posicionamento “high value”: são plataformas que privilegiam qualidade e reforçam a percepção de marca.
O Pirelli Cyber Tyre representa integração entre pneu e veículo. O que ele muda na vida do consumidor? E o que ainda está por vir nesse tipo de tecnologia?
O Pirelli Cyber Tyre representa uma mudança importante: o pneu deixa de ser apenas um componente passivo e passa a ser uma fonte ativa de informação. Com sensores integrados, ele é capaz de coletar e transmitir dados em tempo real sobre temperatura, pressão e condições de uso. Isso melhora segurança, eficiência e manutenção.
No futuro, essa integração tende a evoluir ainda mais, com maior interação com sistemas de condução autônoma e gestão inteligente de frotas via uma conexão 5G, por exemplo.
De que forma tecnologias como PNCS, Seal Inside, Elect e Run Forward contribuem para redefinir segurança, conforto e eficiência na experiência de condução?
Temos hoje um portfólio com algumas das tecnologias mais avançadas do mercado, como a tecnologia Seal Inside, que, inclusive, é produzida no Brasil para atender às necessidades do consumidor local. Nosso diferencial está justamente no alto conteúdo tecnológico embarcado nos produtos, que nos posiciona claramente além de uma lógica de commodity.
Esse posicionamento se reflete nas escolhas do mercado. Somos parceiros das montadoras mais tecnológicas e avançadas do mundo: cerca de 50% das fabricantes de maior valor agregado utilizam pneus Pirelli em seus veículos. No Brasil, um a cada três carros sai de fábrica com pneus da marca, e, no segmento de motos, esse número chega a um em cada duas. Além disso, todas as montadoras presentes no Brasil e na América do Sul têm a Pirelli como fornecedora.
Esse nível de diferencial de competitividade tecnológico é sustentado por um forte investimento em inovação. A Pirelli conta com um total de mais de 6 mil patentes registradas. Apenas no último ano, conquistamos mais de 300 novas homologações com fabricantes globais, o que resulta em um portfólio significativamente mais amplo e tecnológico. Isso é especialmente relevante em segmentos em expansão, como o de SUVs, que hoje já representam metade da produção no Brasil e devem alcançar uma participação ainda maior nos próximos anos.
De que forma a conectividade — como no conceito do Pirelli Conecta — deve transformar a relação entre fabricante, montadoras e consumidores? Quais as vantagens da criação desse ecossistema para todos?
O Pirelli Conecta nasce como um novo ecossistema desenhado para agregar valor à rede oficial, ampliando a oferta de produtos e serviços exclusivos com a curadoria da própria Pirelli. A proposta é concentrar, em um único ambiente, tudo o que o parceiro precisa para atender o consumidor de forma mais completa e eficiente, otimizando tempo e elevando o padrão de serviço. Esse é um diferencial importante, porque transforma a relação com a rede em algo mais integrado, estruturado e orientado à geração de valor.
Construído a partir de parcerias estratégicas com líderes do aftermarket automotivo, o ecossistema reforça o compromisso da Pirelli em ampliar o acesso a tecnologia, serviços e soluções que impactam diretamente o negócio dos parceiros e a segurança no trânsito. Nesse contexto, os Pirelli Performance Center se consolidam como pontos de referência onde os consumidores encontram, em um único lugar, diversas soluções essenciais para o cuidado do veículo e para a proteção de sua segurança, desde diagnósticos precisos até serviços integrados desenvolvidos em parceria com empresas líderes do setor.
Em mundo com constante mudanças climáticas, a Pirelli tem sido reconhecida por índices internacionais de sustentabilidade. Fale desses processos, transformações e importância de ser disruptivo na indústria.
A sustentabilidade é um pilar estratégico para a Pirelli e está diretamente integrada ao modelo de negócio da companhia. Mais do que responder a uma demanda do mercado, trata-se de antecipar tendências e liderar transformações em uma indústria tradicionalmente desafiada nesse campo. Desde 2020, a empresa estabeleceu metas claras, como a neutralidade de carbono até 2030, além de ter sua ambição de atingir o Net Zero (com outros gases) até 2040, validada pela SBTi (Science Based Targets Initiative – Iniciativa de Metas Baseadas na Ciência) em 2024.
No Brasil, esse compromisso se traduz em ações concretas: há mais de uma década, reaproveitamos 100% da água utilizada em nossas plantas, contribuindo de forma consistente para a preservação de recursos naturais. Esse é um movimento contínuo, que envolve a redução de emissões, o uso mais eficiente de recursos e a evolução dos processos produtivos.
Esse compromisso também se reflete no reconhecimento em índices internacionais de sustentabilidade, que avaliam não apenas práticas ambientais, mas governança e responsabilidade social. Para a Pirelli, ser disruptivo nesse contexto significa combinar inovação tecnológica com responsabilidade, desenvolvendo soluções que mantenham altos níveis de performance ao mesmo tempo em que reduzem o impacto ambiental, um equilíbrio que será cada vez mais decisivo para o futuro da mobilidade.
Como a inovação em materiais e processos produtivos pode reduzir a pegada de carbono sem comprometer performance?
A inovação em materiais e novos compostos é essencial para reduzir a pegada de carbono sem comprometer a performance. O desafio é equilibrar três fatores: segurança, eficiência energética e durabilidade.
E isso passa por pesquisa e desenvolvimento intensivos, com investimentos relevantes em centros tecnológicos, como recentemente anunciamos na nossa planta de Campinas (SP), com novos laboratórios e um centro logístico que evita cerca de 5 mil transportes por ano, reduzindo também as emissões de CO₂ relacionadas, além do Circuito Panamericano, o complexo de testes da companhia, em Elias Fausto (SP). Tudo isso para ampliar a nossa capacidade de desenvolver soluções cada vez mais avançadas localmente, acelerar os ciclos de inovação e responder de forma mais ágil às demandas específicas do mercado, especialmente em um contexto de eletrificação e de novas exigências da mobilidade.
Na era da eletrificação, conectividade e novos modelos de mobilidade, como a Pirelli projeta o seu papel na próxima década?
A indústria vive uma das maiores transformações da sua história, e a Pirelli se posiciona como protagonista desse movimento.
Eletrificação (em todas suas variantes), conectividade e novos modelos de mobilidade exigem um pneu cada vez mais tecnológico. O pneu pode parecer simples, como ser preto e redondo, mas carrega um nível de complexidade crescente e decisivo para o desempenho do veículo e a segurança urbana.
Na próxima década, o papel da Pirelli será ampliar ainda mais essa integração entre produto, tecnologia e experiência, mantendo o foco em inovação, sustentabilidade e valor.